Setor industrial fecha 832 empresas e perde 29,9 mil empregos desde 2013

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 22 de julho de 2021

Três anos depois encerrado o ciclo recessivo de 2015/16 no País, a indústria goiana continuou apresentando sérias dificuldades para retomar o crescimento e manteve a tendência registrada ao longo dos anos de retração econômica, com fechamento de empresas e perda de empregos – especialmente nos setores de alimentação, vestuário, produtos minerais não metálicos, veículos e móveis. A edição de 2019 da Pesquisa Industrial Anual (PIA), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registra um cenário ainda desfavorável, precisamente no ano que antecedeu ao da grande pandemia causada pelo Sars-CoV-2.

Mais claramente, o setor industrial goiano entrou na crise sanitária já debilitado pela recessão e, nos anos imediatamente seguintes, por uma incapacidade de voltar a experimentar crescimento persistente e duradouro. Na verdade, os mesmos processos vitimaram a indústria em todo o País, submetida ao longo de anos em sequência a uma taxa de câmbio desajustada, com dólar muito barato, o que favoreceu a entrada de bens e produtos manufaturados importados, levando a uma substituição de importações às avessas, com avanço do conteúdo importado na produção local. Para agravar, as taxas de juros permaneceram por décadas na estratosfera, afugentando investimentos produtivos e desestimulando duplamente a renovação, modernização e diversificação do parque industrial.

O número de empresas locais em operação no setor industrial em Goiás, com cinco ou mais empregados, que já havia caído de 7.209 para 6.592 entre 2013 e 2018, recou novamente em 2019, para 6.377 unidades. Desde 2013, portanto, o Estado registrou o encerramento de 832 empresas industriais, significando uma redução de 11,5% em seu parque industrial – movimento que não foi estancado mesmo pela política de incentivos fiscais exercitada agressivamente nas últimas décadas.

O total de pessoas ocupadas na indústria em geral, por sua vez, caiu de 257,078 mil em 2013 para 234,456 mil em 2018, baixando para 227,195 mil no ano seguinte. Entre 2018 e 2019, como se pode notar, o número de empregados no setor sofreu baixa de 3,1%, o que correspondeu ao fechamento de 7,261 mil vagas (das quais, perto de 84,6% estiveram concentradas nas indústrias de produtos alimentícios, que fechou 3,585 mil ocupações, numa queda de 4,2%; e de vestuário, com a demissão de 2,558 mil trabalhadores, num tombo de 12,5%). Na comparação entre 2013 e 2019, a indústria demitiu 29,883 mil empregados, equivalendo a uma retração de 11,6% no total de ocupados no setor.

Produtividade espúria

As demissões em sequência produziram um crescimento acelerado da produtividade por empregado, já que o valor da transformação industrial (VTI) continuou apresentando avanços, ao menos nominalmente (quer dizer, sem descontar os efeitos da inflação acumulada no mesmo período). Trata-se, como se pode perceber, de um crescimento espúrio, já que alimentado por um ciclo de cortes no emprego e de queda real no valor total dos salários e outros rendimentos do trabalho. Medida por trabalhador ainda empregado, a produtividade saltou 54,2% entre 2013 e 2019, depois de avançar 14,8% na passagem de 2018 para o ano seguinte. Ainda na comparação entre 2013 e 2019, as despesas da indústria com salários e outras remunerações saíram de R$ 5,716 bilhões para pouco menos de R$ 7,611 bilhões, numa elevação nominal de 33,1%. Como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, subiu 40,73% naquele mesmo intervalo, estima-se uma redução de 5,4% para a folha de salários em termos reais.

Balanço

  • A produtividade no caso é calculada a partir da divisão do valor da transformação industrial (VTI) pelo número total de pessoas ocupadas no setor. O VTI, por sua vez, corresponde ao valor bruto de tudo o que a indústria produz, excluído o valor dos insumos, matérias-primas e outros bens utilizados no processo de produção, descontando-se ainda o valor do trabalho vendido pelos empregados (na prática, o total de salários pagos).
  • A receita líquida da indústria no Estado cresceu fortemente na saída de 2018 para 2019, subindo de R$ 103,658 bilhões para R$ 114,938 bilhões. Na comparação com 2013, quando havia alcançado R$ 91,435 bilhões, a pesquisa registra uma variação acumulada de 25,7%, um percentual muito abaixo do IPCA do período, o que permite estimar uma retração de 10,7% em termos reais – um dado que parece mais próximo do comportamento dos principais indicadores aferidos pela PIA-Empresa.
  • A despeito das políticas de atração de investimentos e das dimensões assumidas pelos incentivos fiscais no Estado, que corresponderam a 36,5% da receita corrente líquida, somando em torno de R$ 40,821 bilhões apenas entre 2016 e 2020, segundo trabalho do Instituto Mauro Borges de Estatísticas e EstudosSocioeconômicos (IMB), a indústria não parece ter conseguido atingir níveis de maior agregação de valor à produção, com maior incorporação de recursos locais.
  • A relação entre o valor da transformação industrial e o valor bruto da produção, que havia sido de 38,3% em 2013, baixou para 33,49% em 2019, sugerindo que o parque industrial instalado utilizava insumos e matérias-primas locais em apenas pouco mais de um terço de tudo o que produziu, trazendo o restante de outros Estados ou países.
  • A baixa complexidade e sofisticação na maioria de seus setores afetou igualmente o desempenho do valor da transformação, que caiu mais intensamente nestas áreas. Na soma desses setores, o VTI saiu de R$ 17,281 bilhões, algo como 64,5% do valor total da transformação industrial, para FR$ 20,030 bilhões, variando 15,91%. Em termos reais, descontada a alta do IPCA, o VTI sofreu baixa de 17,6%. Esse desempenho acabou por reduzir a fatia daqueles setores no VTI total para 54,9%, uma participação ainda relevante, mas praticamente 10 pontos de porcentagem inferior àquela observada em 2013.
  • Os piores desempenhos nesta área incluem indústrias dos dois extremos, atingindo tanto aquelas com maior conteúdo (em teoria) quanto as de menor grau de sofisticação. No primeiro grupo, o VTI dos setores de veículos e de máquinas e equipamentos apresentaram perdas de 37,65% e de 23,20% em termos nominais entre 2013 e 2019. No primeiro caso, caberia uma discussão sobre o nível de agregação de valor local e sofisticação, visto que o setor atua meramente como as tradicionais maquiladoras, realizando apenas a montagem final dos veículos no Estado a partir de peças, acessórios, partes e componentes importados.
  • No segundo grupo, as indústrias de vestuário (-27,4%), produtos minerais não metálicos (-35,2%) e móveis (-8,22%) tiveram as piores perdas. Na ponta inversa, os setores de biocombustíveis, metalurgia, produtos químicos, farmacêuticos e produtos de metal registram altas, respectivamente, de 194,1%, 175,6%, 100,9%, 67,5% e 62,2%.
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