Sob impacto da guerra, custos entram em alta no setor industrial
A guerra detonada pelos governos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desarranjou os mercados, desarticulou cadeias de suprimento globais e fez escalar os preços do petróleo e de seus derivados, atingindo custos da energia, dos fertilizantes e dos metais ao redor de planeta, com reflexos sobre o setor de alimentos, para complicar o cenário inflacionário internacional. Aquelas altas explicam as pressões sobre os custos industriais observadas em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mensalmente afere a variação dos preços de matérias primas, insumos e bens industriais “na porta da fábrica”, descontados impostos e fretes, consolidados no Índice de Preços ao Produtor (IPP) das indústrias extrativas e de transformação.
O comportamento daqueles custos ajuda a explicar o comportamento dos preços ao consumidor nas medições mais recentes do IBGE, demonstrando que os focos inflacionários observados desde março não guardam relação ao comportamento da demanda doméstica, assim como não se explicam em função de problemas domésticos de oferta. Trata-se de um caso evidente de “choque de oferta” global, gerado pelo estrangulamento de uma das principais vias de escoamento do petróleo produzido no Oriente Médio, matéria-prima básica para a produção de combustíveis, insumos para o aquecimento de residências no Hemisfério Norte, borracha, plásticos, fertilizantes, defensivos e toda uma cadeia de insumos dos quais depende toda a economia mundial.
Na passagem de fevereiro para março, o IPP apresentou elevação de 2,37% na maior alta desde março de 2022, quando havia alcançado 3,12%. No primeiro trimestre deste ano, o indicador acumula variação de 2,53% e ainda registra baixa de 1,54% nos 12 meses encerrados em março deste ano, como resultado das quedas observadas ao longo do período. Para comparação, no entanto, o índice havia acumulado baixa de 4,39% em 12 meses até fevereiro último, diante da tendência persistente até ali de barateamento nos custos industriais.
Liderança
A sequência de altas foi liderada pelas indústrias extrativas, que tiveram preços elevados em 18,65% na média de todo o setor, saindo de um recuo de 0,61% em fevereiro. O dado de março correspondeu à maior variação positiva para o setor desde fevereiro de 2021, quando os preços chegaram a saltar 27,91%. As indústrias do setor responderam por praticamente 34,2% da alta geral apontada pelo IPP em março e ainda por quase um terço da variação de 2,53% acumulada neste ano pelo indicador. O avanço nos custos do setor extrativo foi impulsionado principalmente pelos aumentos nos preços de “óleos brutos de petróleo” e “minério de ferro e seus concentrados”, de acordo com o IBGE.
Balanço
As pressões, conforme já registrado acima, vieram do setor externo, determinando o comportamento daqueles preços. Lá fora, o barril do petróleo tipo Brent nos mercados futuros subiu 42,3% apenas em março, na comparação com as cotações registradas no final de fevereiro, antes do início dos conflitos. Em relação ao mesmo período do ano passado, registrou-se um salto de quase 58%.
Embora mais modesta, a alta dos preços internacionais do minério de ferro girou ao redor de 7,6% em março, frente a fevereiro, tomando sempre o último dia útil de funcionamento dos mercados em cada período. Em 12 meses, as cotações do minério chegaram a avançar 8,5%.
Na indústria de transformação, os preços de seus insumos e matérias primas foram elevados em 1,63% na passagem de fevereiro para março, acumulando variação de 1,76% no primeiro trimestre, mas preservando recuo de 2,15% em 12 meses. O aumento em março recebeu influência principalmente das altas de 1,90% nos custos do setor de alimentos, de 4,24% na indústria de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis e de 5,03% no setor de fabricação de outros produtos químicos.
Somados, aqueles três segmentos explicaram 77,3% da variação observada para o setor de transformação no mês passado, mais uma vez em relação a fevereiro último. A indústria de produtos alimentícios interrompeu uma trajetória de 10 meses de quedas nos custos, deixando ainda como saldo uma redução de 6,74% em 12 meses.
De acordo com o IBGE, “o derivados de leite in natura despontam como as principais altas de preços em 2026”, depois de meses de números mais negativos. A elevação dos preços dos lácteos ocorre em um “momento de uma oferta menor e uma demanda consistente por parte dos laticínios”, anota o instituto. Houve altas igualmente para os preços das carnes de bovino frescas ou resfriadas e para o açúcar. Na contramão, os preços do café moído continuaram em baixa sustentada pela tendência de redução nos custos do café in natura, atualmente com estoques superiores à demanda “à porta da nova colheita”.
A indústria de refino de petróleo e biocombustíveis aferiu altas para gasolina e óleo diesel, mas queda para o etanol, já em pleno início de safra àquela altura. No segmento de outros produtos químicos, a tendência observada para os preços foi influenciada “predominantemente pela precificação da escalada de tensões geopolíticas que afetaram as rotas comerciais do Oriente Médio e os preços de commodities-chave para a produção do setor”, registra o IBGE.
Ainda conforme o instituto, os preços sofreram pressão ainda do aumento do “prêmio para o transporte de insumos para fertilizantes, por exemplo, (…) pressionando as referências internacionais”. Como elemento adicional, aponta ainda o IBGE, “posições defensivas adotadas por consumidores e produtores globais também contribuíram para a alta dos preços”.
As matérias primas para fertilizantes vêm subindo desde o começo da guerra, pressionando ainda mais os custos agrícolas (assim como o custo das indústrias do setor). O enxofre já havia subido 53,5% na passagem de fevereiro para março e avançou mais 6,3% em abril, saltando 179,4% em relação ao mesmo mês de 2025. Os preços da ureia chegaram a recuar modestamente em abril (-0,75%), depois de alta de 48% em março, mas ainda supera os níveis de abril do ano passado em 50,3%. Como foco altista a mais, agora para a indústria petroquímica, os preços da nafta, principal matéria prima do setor e utilizada na produção de eteno, propeno e outros produtos, subiram 70,8% em 12 meses até abril deste ano.