Sobram dólares (mas cenário doméstico continua conturbado)

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 27 de maio de 2021

O Brasil continua a enfrentar um cenário muito tranquilo em suas contas externas, a despeito da pandemia e do conjunto aparentemente inesgotável de erros cometidos pela equipe econômica. Essa melhora, na verdade, havia sido consolidada lá atrás, alguns anos depois de o País ter virtualmente quebrado, o que o obrigou a recorrer mais uma vez ao socorro do Fundo Monetário Internacional (FMI), no final dos anos 1990. Hoje, sobram dólares para fazer frente a todos os compromissos internacionais contratados pelo País – e já havia folga nesta área mesmo durante a fase de escalada das cotações do dólar aqui dentro, o que tem estimulado críticas à atuação do Banco Central na condução de sua política cambial e especialmente contra algumas medidas temerárias adotadas pela autoridade monetária, ao autorizar, por exemplo, a abertura de contas em moeda estrangeira e ao permitir que exportadores mantenham em contas no exterior, por certo período de tempo, os dólares obtidos nas vendas externas de bens e serviços.

O efeito dessas medidas tem pressionado duplamente o mercado de dólar, ao aumentar a demanda pela moeda e reduzir a oferta internamente. A acomodação e depois queda nas cotações do dólar entre abril e este mês refletem mais movimentos no mercado internacional, em contraste com um ambiente doméstico bastante conturbado pelos efeitos da pandemia e pelas turbulências em série produzidas pelo desgoverno, que enfrenta mais um momento de desgaste em função da CPI da Covid.

Na área externa, no entanto, os dados mantêm-se positivos, em parte porque a pandemia derrubou a atividade econômica e reduziu despesas com viagens internacionais e aluguel de equipamentos, assim como derrubou as remessas de lucros e dividendos para fora do País. Mas uma parte desses avanços está relacionada a ganhos realizados em governos anteriores e que resistem aos absurdos cometidos pelo ministro dos mercados e seus economistas amestrados.

Dívida em queda

Como reflexo direto da crise interna, o País registrou em abril o maior superávit mensal na conta de transações correntes (que resume as relações do Brasil com o restante do mundo) desde o começo da série histórica, iniciada em 1995, com saldo de US$ 5,663 bilhões. No mesmo mês do ano passado, o saldo havia sido positivo também, mas atingiu US$ 198,838 milhões. Esse é o dado mais evidente, mas há outras tendências importantes em curso, impulsionadas por mudanças de curtíssimo prazo, mas com possíveis reflexos no médio prazo, caso se mantenham mais à frente. A dívida externa bruta do País encolheu 8,2% desde março do ano passado, correspondendo a uma redução de US$ 26,796 bilhões até abril deste ano, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC). O saldo devedor bruto saiu de US$ 326,093 bilhões em março de 2020 para US$ 299,297 bilhões em abril deste ano. A redução foi mais importante nas dívidas de curto prazo, que baixaram 23,8% naquele intervalo, saindo de US$ 84,662 bilhões para US$ 64,476 bilhões.

Balanço

  • Os bancos deram maior contribuição ao ajustar para baixo os níveis de seu endividamento no mercado internacional, reduzindo sua exposição de US$ 129,816 bilhões para US$ 108,587 bilhões, num corte de US$ 21,229 bilhões (ou seja, uma queda de 16,35%). Novamente, a retração foi mais intensa na dívida de curto prazo, reduzida em 23,4% (de US$ 69,907 bilhões para US$ 53,518 bilhões também entre março de 2020 e abril deste ano).
  • O ajuste deu-se primordialmente sobre empréstimos contratados em moeda estrangeira, que teve seu saldo reduzido em 11,14%, de R$ 231,769 bilhões para US$ 205,942 bilhões, incluindo setor público, bancos e demais setores da economia. O corte de US$ 25,287 bilhões pode refletir estratégias públicas e empresariais na gestão da dívida, mas igualmente deve ter sido influenciado pelas dificuldades enfrentadas pelo País para levantar recursos lá fora.
  • O ingresso de novos financiamentos caiu 23,4% no acumulado dos quatro primeiros meses deste ano frente a igual período do ano passado, saindo de US$ 17,682 bilhões para US$ 13,544 bilhões. Mas como sobram dólares então? Uma parte vem do saldo entre exportações e importações de bens e produtos, da redução do déficit na balança de serviços, da queda nos pagamentos de juros e de amortizações ao exterior, da diminuição drástica nas remessas de lucros e dividendos e do incremento nos investimentos (motivado parcialmente por jogadas entre matrizes e filiais de empresas no País e lá fora). Outra parte corresponde a dólares aportados aqui dentro por especuladores.
  • O saldo na conta de transações correntes no acumulado do primeiro quadrimestre encolheu US$ 11,685 bilhões frente ao mesmo período de 2020, com o déficit baixando de US$ 21,402 bilhões para US$ 9,717 bilhões (ou seja, 54,6% a menos). Em boa parte, esse desempenho refletiu a retração nas remessas de lucros e dividendos, que baixaram de US$ 10,733 bilhões para US$ 3,502 bilhões.
  • No setor de serviços, o déficit ficou 37,01% mais baixo, atingindo US$ 4,785 bilhões entre janeiro e abril deste ano, depois de alcançar US$ 7,597 bilhões em igual intervalo de 2020. O saldo entre receitas e despesas com viagens internacionais, que havia se traduzido em déficit de US$ 1,483 bilhão no ano passado (até abril), desabou para US$ 303,961 milhões neste ano (-79,5%). O aluguel de equipamentos, que havia obrigado o País a pagamentos de US$ 4,452 bilhões, teve seu custo reduzido para pouco menos de US$ 2,189 bilhões (-50,8%).
  • No ano passado, até abril, o País havia registrado a saída de US$ 30,128 bilhões, com investidores/especuladores liquidando suas posições nas Bolsas e no mercado financeiro, vendendo ações e títulos. Neste ano, em igual intervalo, entraram US$ 7,638 bilhões, numa reviravolta equivalente a US$ 37,766 bilhões, sustentada substancialmente pelo mercado de ações, com entrada de US$ 4,050 bilhões após fuga de US$ 16,395 bilhões no primeiro quadrimestre de 2020.
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