quarta-feira, 29 de abril de 2026

Títulos em poder de estrangeiros saltam 50,7% desde final de 2024

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 28 de abril de 2026

O valor dos títulos de dívida, incluindo papéis emitidos pelo setor público, bancos e empresas do setor privado, saltou 50,71% desde dezembro de 2024, quando havia somado perto de US$ 114,925 bilhões para alcançar algo ao redor de US$ 173,207 bilhões em março deste ano. A velocidade de crescimento, no caso, foi quase seis vezes mais acelerada do que o ritmo observado para o total de riquezas geradas pelo lado real da economia e consolidadas no Produto Interno Bruto (PIB), nas estimativas construídas pelo Banco Central. Medido em dólar, o produto teria avançado 8,75% naquele mesmo período, avançando de US$ 2,185 trilhões para US$ 2,376 trilhões em valores aproximados. A relação entre títulos de dívida e PIB, neste caso, avançou de 5,26% para 7,29%.

Denominados e liquidados em reais, embora as estatísticas do Banco Central (BC) registrem seus valores em dólares para efeito das contas do balanço de pagamentos do País, aqueles títulos passaram a responder por 20,4% da dívida externa bruta frente a 10,01% em dezembro de 2024. Esse conceito mais amplo da dívida externa inclui empréstimos e outras operações contratadas lá fora pelo governo geral, pelo próprio BC, bancos e demais setores da economia, acrescentando ainda operações realizadas entre filiais de companhias e suas sedes no exterior, além daqueles títulos de dívida negociados no mercado doméstico.

A alta vigorosa certamente responde às possibilidades de ganhos elevados para investidores de fora do Brasil em função da política de juros estratosféricos praticada aqui dentro, em associação ainda ao baixo risco desse tipo de aplicação, já que boa parte daqueles papéis tem garantia do Tesouro Nacional. A ampla liberdade na movimentação de capitais e os juros reais praticados no País, um dos mais altos entre todos os demais países do globo, geram forte instabilidade internamente.

Crises em sequência

A entrada de recursos meramente especulativos tem produzido ao longo do tempo um processo de desvalorização do dólar frente ao real, barateando importações principalmente de bens industriais, em concorrência duramente desleal em relação à produção local, o que tem estimulado a desindustrialização precoce da economia brasileira e impedido o desenvolvimento econômico em bases mais sólidas e de prazos mais longos. Em momentos de instabilidade, a saída daqueles recursos contribui para incrementar o valor do dólar, encarecendo preços e custos de serviços e bens importados, empurrando a economia para ciclos de alta da inflação, combatida domesticamente pela elevação mais do proporcional dos juros. Como resultado, a política monetária acaba funcionando como um torniquete para investimentos e para o consumo em geral, elevando o percentual do faturamento das empresas e da renda das famílias drenado para o pagamento de dívidas, com aumento ainda da inadimplência.

Balanço

Em fevereiro deste ano, dado divulgado ontem pelo BC, as famílias passaram a comprometer 29,7% de sua renda bruta disponível com o pagamento de juros e amortizações, nível mais elevado da série histórica mais recente da autoridade monetária, iniciada em 2011. O percentual compara-se com a taxa de 27,8% alcançada em fevereiro do ano passado.

O endividamento, que considera a relação entre dívida e a renda acumulada em 12 meses, retomou níveis de julho de 2022, variando ao redor de 49,9% em fevereiro último, ou seja, em torno de 1,3 ponto percentual acima do indicador encontrado em igual mês do ano passado, algo próximo de 48,6%.

No dado de março, na média, a taxa de juros no segmento de crédito livremente imposto pelos bancos a pessoas físicas e a empresas chegou a 48,3% ao ano, em alta de 4,4 pontos percentuais diante de 43,9% em março do ano passado. Na mesma área, a taxa de inadimplência, também na média, recuou ligeiramente de 5,8% em fevereiro para 5,7% considerando as operações em atraso superior a 90 dias diante do saldo total de empréstimos e financiamentos.

Considerando apenas pessoas físicas, a inadimplência no setor de crédito livre saiu de 5,7% em março de 2025 para 7,0% no mesmo mês deste ano, levemente mais baixa do que os 7,2% que haviam sido registrados no mês imediatamente anterior. As taxas de juros médias impostas às famílias, que giravam em torno de 56,8% em março do ano passado, níveis já astronomicamente altos, bateram em 61,5% em igual mês deste ano, sempre no caso de pessoas físicas. Houve leve recuo frente aos juros cobrados em fevereiro deste ano, que haviam atingido a marca de 61,9% ao ano, a mais alta desde agosto de 2017, quando girou em torno de 62,3%.

De volta às contas externas, embora o saldo dos títulos de dívida em poder de estrangeiros tenha respondido em março deste ano por alguma coisa levemente acima de um quinto de toda a dívida externa, o acréscimo registrado entre dezembro de 2024 e março deste ano, ao redor de US$ 58,282 bilhões, correspondeu a 44,50% do aumento anotado para todo o estoque da dívida externa bruta (incluindo operações entre companhias de um mesmo grupo econômico e os próprios títulos de dívida). O estoque geral avançou de US$ 717,946 bilhões para US$ 848,908 bilhões, variando 18,24% (ou US$ 130,962 bilhões a mais).

Um terço dessa dívida, no entanto, diz respeito a compromissos assumidos entre empresas – filiais e matrizes – de um mesmo grupo econômico, enquanto títulos de dívida, embora liquidados em reais, respondem por um quinto do total. Somados, aqueles dois itens respondem por 53,57% do total.

O saldo restante, na faixa de US$ 394,132 bilhões, corresponde de fato à dívida externa atribuída ao Brasil e cresceu 13,71% desde dezembro de 2024, quando se aproximava de US$ 346,619 bilhões. Desde lá, portanto, foram acrescidos à dívida em torno de US$ 47,513 bilhões, divididos, com ligeiras diferenças entre compromissos de curto e longo prazos.

No primeiro caso, o BC observou um salto de 27,76%, com as dívidas a vencer no curto prazo subindo de US$ 84,282 bilhões para US$ 107,682 bilhões (qualquer coisa como US$ 23,4 bilhões a mais). Todo esse crescimento veio do setor bancário, que elevou seu endividamento externo de curto prazo de US$ 65,366 bilhões para US$ 90,412 bilhões, num salto de 38,32%.

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