Comida da festa junina está mais ‘salgada’ neste ano

Postado em: 19-06-2021 às 08h42
Por: João Paulo
Preços de produtos assustaram consumidores após alta média de quase 12% ante ano passado | Foto: Divulgação

Junho traz consigo a alegria de um arraial, mesmo virtual, e a certeza de muitas gostosuras com comidas típicas da festa na mesa. Canjica, mané pelado, milho cozido, curau, quentão. Tem gente que têm preferência por doce, outros por salgado. A unanimidade é que é tudo muito bom. Porém, além de não ter a tradicional quadrilha, a pandemia também influenciou nos preços dos alimentos utilizados para os preparos dos pratos. 

O confeiteiro João Pedro Simões, de 26 anos, é proprietário da Panis Panis Panificadora, no setor Leste Universitário e concentra as vendas dos produtos através de aplicativos de entrega de comida. Ele explica que viu na ausência das festividades uma forma de criar kits com comidas típicas para vendas. “Em maio passado, enquanto planejávamos os produtos com temática junina, considerando o contexto da pandemia em que não teríamos as festas juninas tradicionais, decidimos ir além da confeitaria e trazer uma caixa com diversos itens típicos da data, tanto os de doce, como os salgados. Assim surgiu a Caixa Junina”, destaca.

A Caixa Junina traz comidas típicas, mas foram incorporados outros alimentos tradicionalmente encontrados na padaria. “Como já fazíamos em nosso menu fixo, fazemos substituições para melhorar a experiência de nossos clientes, por exemplo, o cachorro-quente, cujo transporte e armazenamento são complicados, foram substituídos por enroladinhos de linguiça. Neste ano, trouxemos novamente a Caixa Junina mantivemos a variedade de itens, sendo todos produzidos artesanalmente aqui na confeitaria, desde a pamonha até os enroladinhos”.

João conta que os alimentos mais utilizados são milho, leite, queijo, amendoim, coco, além de carne seca e linguiça. “Infelizmente, o custo de todos esses ingredientes subiu. Os derivados do leite foram os primeiros a ter um aumento expressivo. O creme de leite, que usamos em diversos preparos, não apenas nos itens juninos, chegou a dobrar de preço. Leite, queijo e leite condensado também tiveram um grande aumento”, pontua.

Ele afirma que a alta que mais lhe assustou foi a do milho, que aumentou 50% em relação ao ano. O confeiteiro conta que também notou um acréscimo de preço em castanhas, coco e amendoim, além do açúcar. Como o Kit leva alguns produtos que vão carnes, as altas mais notórias vieram da carne seca e da linguiça. “Tivemos que reajustar os preços para que a produção continuasse viável, embora, mesmo com o reajuste, a margem de lucro tenha diminuído, pois seguramos parte do repasse desse aumento”, pontua.

Apesar disso, João Pedro afirma que não encontrou dificuldades para encontrar produtos juninos neste ano como no ano passado. “Muitos estabelecimentos estavam fechados naquela época. Porém, volta e meia nos deparamos com a falta de algum insumo, que vai desde ingredientes essenciais até embalagens, que também tiveram um aumento expressivo”, afirma.

Renda extra

A jornalista e empreendedora Paula Falcão viu na venda de comidas típicas de festa junina uma forma de superar as dificuldades financeiras ocasionadas pela pandemia. Ela que sempre trabalhou cobrindo a editoria de Gastronomia, viu a necessidade de fazer kits com comidas típicas juninas para agregar na renda.

Mas na mesma velocidade do sucesso, Paula notou que o preço de algumas matérias primas também se elevaram, como a massa de milho verde utilizada para o preparo da pamonha. Segundo ela, no ano passado, ela pagou cerca de R$ 11. Já neste ano, com o mesmo fornecedor, o produto é vendido a R$ 17. Outro produto, segundo ela, que também teve uma elevação no preço foi o milho para canjica de 500 gramas. Em 2020, era possível encontrá-lo de R$ 3,19. Agora, no atacado, esse valor é de R$ 3,39. Caso a compra saia no varejo, o preço é ainda mais caro: R$ 3,79.

Paula destaca que a alta do alimento que mais lhe assustou foi o amendoim branco. Um pacote de 500 gramas saía por R$ 8,50. Agora, o mesmo produto é vendido até R$ 22 com a qualidade idêntica. Mesmo com tudo isso, a empresária afirma que a alta dos preços já era sentida com as compras cotidianas.

“De certo modo, percebíamos essa tendência nas compras do dia a dia. Então, quando precificamos os kits isso foi levado em consideração. Mesmo assim, optamos por reduzir um pouco a margem de lucro do que repassar todos os aumentos no preço final. Como não abrimos mão da qualidade e de algumas marcas, pesquisamos, negociamos e pedimos desconto à vista, sempre. Enfim, é bem mais difícil oferecer um kit com a mesma qualidade do que foi orçado em maio na metade de junho.”

Com isso, o Kit Junino Pequeno passou de R$ 35 para R$ 38. Nele, o consumidor encontra duas pamonhas de sal, uma de doce, um caldo de frango, um milho cozido e canjica de coco, um pedaço de mané pelado e um amendoim de chocolate. Já o Kit Junino Grande subiu de R$ 55 para R$ 60. Neste, o cliente recebe três pamonhas de sal, duas de doce, dois caldos de frango, dois milhos cozidos, duas canjicas de coco, dois pedaços de mané pelado e dois pacotes de amendoim com chocolate.

Paula conta que a compra dos alimentos ficou na responsabilidade dos seus pais. Segundo ela, eles recebem o orçamento dos kits que foram calculados em março. “Dessa forma, mesmo com as diferenças de valores de alguns produtos, eles conseguem boas promoções. Meus pais andam muito, principalmente naqueles atacados de Campinas, e com esse valor, eles acabam tendo uma certa pressão para conseguir comprar dentro desse orçamento”, pontua.

CORRELATA

Procons confirmam variações de preços de comidas típicas

Os Procons Goiás e Goiânia divulgaram pesquisas em que mostram que os valores tiveram aumento e, além disso, sofrem muita variação entre um estabelecimento e outro. O órgão estadual destaca que o aumento médio dos produtos registrados foi de 11,94%. Porém, certos produtos podem ter variação de 44%, como foi o pacote de 20 gramas de canela.

A mesma pesquisa realizada no ano passado pelo Procon Goiás trazia que o aumento médio anual foi de 2,95%. O levantamento foi realizado em dez estabelecimentos comerciais de Goiânia entre os dia 8 e 16 de junho de 2021. A maior variação de preço encontrada foi no quilo do gengibre, que é utilizado no preparo do quentão, que registrou oscilação de 526% entre os preços de um estabelecimento para outro. O quilo do alimento poderia ser encontrado de R$ 4,79 até R$ 29,99.

A pesquisa levou em consideração 78 produtos como fubá de milho, milho de pipoca, leite de coco, coco ralado, mistura para bolo, creme de leite, leite condensado, amendoim, canjica, paçoca, pé de moleque, condimentos, bebidas e itens de hortifrúti. O órgão ainda destacou que o preparo das canjicas pode variar até 80% entre um estabelecimento e outro. Em uma receita que leva leite condensado, leite de coco, leite integral, coco ralado, canela em pó, além do milho da canjica, variou de R$ 17,14 em um estabelecimento até R$ 30,94 para outro.

Goiânia

Já o Procon Goiânia realizou pesquisa de preços de 29 produtos típicos desta época do ano, como canjica, milho, pipoca, fubá, paçoca, entre outros. A coleta foi realizada entre os dias 8 e 15 de junho em dez supermercados da Capital.

O levantamento apontou diferença de 276% no preço do milho de canjica. A diferença de preço do pacote de pão de cachorro-quente foi de 233%, enquanto a paçoca de 300 gramas apresentou variação de 17%. Já o preço do milho de pipoca teve variação de 48%.

Para evitar gastos desnecessários, o Procon municipal aconselha a pesquisa de preço e na hora da compra sempre prestar atenção nos prazos de validade dos alimentos. “Antes de qualquer compra, é recomendado que o consumidor compare os preços dos produtos. Caso o consumidor encontre alimentos vencidos, deve denunciar para que as demandas sejam resolvidas”, explica o presidente do Procon Municipal, Gustavo Cruvinel. (Especial para O Hoje)

Compartilhe: