Alvo de ataques e vandalismo, gameleira agoniza no setor Marista

Árvore sofreu vandalismo para, depois, adoecida, ser cortada de maneira legalizada

Postado em: 02-03-2022 às 08h34
Por: Yago Sales
Árvore sofreu vandalismo para, depois, adoecida, ser cortada de maneira legalizada | Foto: Raphael Bezerra

A gameleira da rua 143, no setor Marista, agoniza depois de, lentamente, ter sido incendiada e cortada diversas vezes. Condenada à morte, o crime dela foi ter, naturalmente, crescido demais. Sem nenhum lobby na Câmara Municipal e esquecida pela burocracia de órgãos da Prefeitura – que, na verdade, cumpriram a sentença de morte – a gameleira foi sendo decepada, aos poucos, sempre quando anoitecia.

Testemunha do crescimento vertiginoso do setor Marista, a gameleira percebia algo estranho quando árvores foram sendo arrancadas e prédios foram erguidos ao bel-prazer dos interesses imobiliários. A gameleira, coitada, virou notícia algumas vezes. Quando foi incendiada ou quando os primeiros galhos grossos foram decepados. 

Em novembro do ano passado, uma vizinha, puxando seu bulldog cor de mel, disse que anos atrás a gameleira sofreu com o anelamento – quando se faz um corte no tronco da árvore e, depois, a envenena. Este tipo de processo se dá para adoecer a planta para, em seguida, junto à Prefeitura, regularizar a retirada da espécie. 

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O jornal O Hoje publicou, em outubro passado, que a prática de anelamento, envenenamento e incêndio de árvores se tornaram o modus operandi de comerciantes, moradores e até de construtoras. Mesmo com flagrante, o crime ambiental não gera uma punição satisfatória. Com isso, Goiânia tem registrado, de maneira visível, nos últimos meses, a morte de  árvores. A cidade já levou a fama de cidade mais arborizada, o que, de alguma forma, dava paz àqueles que se preocupam com as árvores. 

Com a construção desordenada – e despreocupada com a questão ambiental de pontes –, elevados, viadutos, BRT e, principalmente, de edifícios, Goiânia tem sentido os impactos deste desmatamento urbano. E preocupado especialistas. 

Apaixonado por árvores, o jornalista Sinésio Dioliveira explica que a maioria dessas gameleiras têm mais de 50 anos. “Na época, quando foram plantadas, não havia o esclarecimento sobre arborização igual hoje. A Amma tem o disque árvore, onde foram distribuídas mais de 5 mil mudas de espécies. A pessoa liga, manda a foto do local onde quer plantar. O técnico vê o local e escolhe a espécie”, disse. 

Para ele, a estratégia é evitar, por exemplo, que uma gameleira seja plantada numa calçada estreita. A gameleira quando pequenininha nasce como um pé de feijão, mas quando cresce ela estoura calçada, invade os imóveis e gera problemas”, explica. Por outro lado, Sinésio Dioliveira acredita que apenas nos parques as gameleiras não devem enfrentar problemas. 

Outro especialista, inclusive, já alertou para o jornal O Hoje os impactos que esta matança pode causar aos goianienses. O engenheiro florestal Rodrigo Carlos Batista destacou, em outubro, que o primeiro processo de morte é o descascamento do exemplar. Segundo ele, são retirados também os tecidos condutores que transportam nutrientes produzidos pelas folhas, que nutrem as raízes e demais partes das plantas. “Sendo assim, com a interrupção da condução desses nutrientes para as raízes, e a não regeneração natural da planta, favorecem para o enfraquecimento das raízes, diminuindo sua capacidade de absorver nutrientes do solo para nutrir a parte aérea da planta, enfraquecendo-a e levando a sua morte”, explicou ele. 

Outro método de crime ambiental praticado em árvores urbanas é o envenenamento. “O tronco e as raízes das árvores são perfurados e injetados substâncias químicas que intoxicam a planta. Pouco tempo depois ela morre. Este tipo de crime é quase imperceptível pois há dificuldade em perceber que a árvore foi envenenada”, relatou o engenheiro. O mais comum, inclusive como teve início ao processo de morte da gameleira do Marista, é o corte ilegal de árvores. 

Para qualquer intervenção em um exemplar arbóreo, localizado em passeio público, seja poda ou corte, é necessário ter a autorização do órgão ambiental responsável, no caso a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). Corte de árvores ou podas sem autorizações, são crimes e podem ser suscetíveis a sanções penais, levando até a prisão de acordo com a legislação federal (LEI Nº 9.605, DE 12 DE FEVEREIRO DE 1998).  

Segundo a Amma, a retirada tem sido feita pela Comurg. “A Comurg só realiza a retirada de árvores mediante avaliação do corpo técnico da Amma, que avalia riscos e saúde da árvore, além de recomendar a compensação do plantio de duas novas mudas”, disse, em nota.

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