Sexta-feira, 03 de fevereiro de 2023

‘Especulação imobiliária’ da fé no Morro da Serrinha; há 40 anos local é ocupado por acampamentos de missionários

Pouco a pouco construções surgem em cima do Morro da Serrinha, frequentado tanto por religiosos como traficantes e falsos profetas

Postado em: 06-03-2022 às 16h58
Por: Yago Sales
Pouco a pouco construções surgem em cima do Morro da Serrinha, frequentado tanto por religiosos como traficantes e falsos profetas | Foto: Pedro Pinheiro

A pé ou de carro, o sobe e desce no Morro do Serrinha, em Goiânia, não para de dia ou de noite, com sol ou chuva. O local de concentração de oração há mais de 40 anos, passou a ser ocupado por acampamentos de missionários com duração de até 21 dias – as chamadas campanhas de Daniel. Nos últimos oito anos, no entanto, sem-tetos se aproveitaram da movimentação ininterrupta para erguer barracas e reivindicarem moradia. Pelo menos oito edificações de madeira, lona e metais retorcidos se espalharam pela área cercada por vegetação nativa do Cerrado. 

Paralelamente, o Morro da Serrinha passou a ser ponto de uso e tráfico de drogas nas partes mais isoladas. A reportagem do Hoje flagrou parte desta rotina em meio à fé de religiosos em duas visitas na semana passada. Sob efeito de drogas, alguns usuários frequentemente buscam ajuda espiritual e, agora, contam com estruturas construídas por materiais reciclados e até alvenaria mantidas por pastores na área sob responsabilidade do Estado de Goiás. Havia uma proposta que transferiria a área para o Município. Com as construções de alvenaria, a Prefeitura não deverá pegar a responsabilidade por conta da judicialização. 

Os líderes negam, mas tudo ali lembra comunidades terapêuticas, quando dependentes químicos são acolhidos para tratamento baseado, ali, na fé. A principal igreja montada lá em cima do morro, “Primeiro é Deus”, tem até um alojamento improvisado ao lado de uma tenda de teto de lona e piso de cimento. A edificação é uma mistura de madeira, ferro e alvenaria. Tudo parece bem organizado para receber centenas de religiosos em cultos durante o dia e, no que se chama de vigílias, na madrugada. 

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Deitada em uma rede, a pastora Elizabeth disse à reportagem que tem uma casa, onde vive, mas que fica normalmente durante o dia monitorando “aqueles que não têm família”. A regra ali é bem clara: “Não pode ficar zanzando pelo monte. Tem muitos drogados por aí e quem realmente quer mudar precisa ficar aqui, cantando, orando, lendo a Bíblia e jejuando”. Na sexta-feira, a reportagem flagrou dois desses acolhidos capinando o matagal em uma área em frente à igreja “Primeiro Deus”. 

Enquanto conversa com a reportagem, duas irmãs da igreja parecem incomodadas com a câmera do jornal. “Não gastei nem um real aqui. Tudo foi doação de irmãos que queriam um lugar para orar”, disse ela, que conta com a ajuda de outros dois pastores. “Sou mulher, não posso ficar sozinha porque a gente recebe homens com problemas com o drogas. Tenho até amigos da polícia que orientam e até fazem uma pesquisa no nome para saber se não tem problema com a Justiça”. Ela conta que já recebeu, em sua tenda, um foragido da Justiça. “A gente pediu para ele se entregar, pagar tudo. Ele ficou preso três meses e depois voltou”. Ela é servida com um copo com água, bebe e lembra: “Quando alguém está numa situação mais difícil a gente leva para clínica psiquiátrica”. 

Elizabeth atribui a edificação a um propósito de Deus. “Foi Deus que me escolheu. A obra é de Deus. Por isso a gente chama este local de ‘Primeiro é Deus’. É Deus acima de tudo”, acredita, antes de explicar porque existe uma bandeira de Israel no altar. “A gente sempre ora por eles. E também pela Ucrânia”, diz. 

“Fico até Deus quiser”, diz pastor

O apóstolo Jobsom José Bispo, de 44 anos, é o nome mais conhecido lá em cima. Ele fundou o  Grupo de Resgate de Almas para Cristo, o Grac, que estampa a entrada de um barraco com paredes de metal, piso de concreto e colunas de metal. Parte do teto é feita de chapa de acm alveolar. Jobsom  abre a porta emperrada e revela que, por dentro, o barraco na verdade é uma igreja com púlpito, área para músicos e pastores. 

Os cultos são transmitidos ao vivo por quatro celulares. “A gente dá um jeito”, desconversa ele sobre de onde vem a energia que chega ao templo por meio de fios, com tomadas expostas. “Já veio até bombeiro aqui”, diz ele, que escapa da pergunta sobre os riscos de um incêndio. “Tem duas portas”, diz, sem citar a principal que dá trabalho para abrir. 

Em uma sala dentro da igreja a reportagem repara alguns colchões. Do lado de fora do monumento religioso, uns jovens preparam o almoço. “São obreiros”, diz o apóstolo, interrompendo o raciocínio sobre como ele chegou ali. “Eu vim orar para conseguir dinheiro, mas Deus me escolheu e eu decidi ficar”, diz e logo lamenta: “minha família me chama de louco. Até arranjou um psiquiatra para mim”. 

Bacharel em direito, ex-dono de imobiliária, o apóstolo usa argumentos bíblicos para justificar o uso, por parte da comunidade religiosa, do monte. Monte é uma expressão utilizada pelos evangélicos muito associada a locais sagrados citados pela Bíblia, como o Monte de Sião, onde foi edificado o Templo de Salomão. Foi para um monte que Ló de Zoar habitou. Moisés subiu ao monte de Sinai, onde Deus lhe deu a missão de libertar os israelitas do cativeiro do Egito. Foi no monte de Gerizim onde ocorreu o encontro entre Jesus e a mulher samaritana.

Por outro lado, defende a construção de um prédio em área pública como missão divina. “Basta você ver lá no livro de Isaías 2. No livro disse que, nos últimos tempos, o povo ia construir igrejas em cima dos montes”, disse. Sobre a possibilidade de uma liminar determinar a retirada, ele tem uma carta na manga. “A gente tem a missão de proteger as árvores. O nosso templo respeitou cada uma das espécies. Quando chove, a água escorre pelo caule”, diz, ao lado de uma goiabeira. Aliás, a arquitetura nem um pouco convencional preserva duas espécies de cagaita e outra de murici. 

Depois de divagar sobre o papel do cristianismo em tempos que ele considera ser os derradeiros, reclama da falta de apoio de deputados e vereadores eleitos com votos evangélicos. “O prefeito é evangélico, mas nada de ajudar a gente”, reclama, ao se referir a Rogério Cruz, pastor licenciado da Igreja Universal. 

Ciente de que a área onde ergueu um templo religioso é propriedade do Estado, ele respira, olha para o altar e repete: “Quem me trouxe aqui foi Deus. Apenas ele pode me tirar. Claro, se for permissão Dele, e um juiz determinar a nossa saída, eu vou acatar. Enquanto isso, vou permanecer cuidando das pessoas e replantando árvores”. Mais tarde, enquanto esta reportagem era finalizada, o apóstolo envia uma selfie durante um culto dentro da igreja, ao lado de outros dois pastores. 

Jejum, oração e carne assada

Sem pensar na tentação que pode causar aos evangélicos que tiraram a sexta-feira, dia 4, para o jejum e consagração espiritual, pastores e missionários,  debaixo de uma tenda, bebem refrigerante e degustam carne assada, preparada em uma churrasqueira sob o som de Rose Nascimento e Mara Lima. 

A fumaça se alastra junto ao cheiro do churrasco e chega até um grupo de mulheres que cantam e oram a dez metros dali. Um dos homens, mastigando uma asa de frango, se incomoda com o fotógrafo Pedro Pinheiro, que registra o cotidiano do monte. Por ali, às vezes para receber uma oração a pessoa pode dar ofertas, forma sutil de cobrança. Mas não são todos. Alguns que “revelam o profundo e o escondido”. 

Enquanto funcionários de uma empresa de mídias especializada em comunicação visual sobem o morro para vender, a R$100, lonas usadas a pastores, dois jovens passam pela reportagem, a caminho da área conhecida como ponto de uso de drogas. 

Logo ao lado, uma área foi cercada com madeira e trancada com um cadeado. Em frente, outro terreno também foi cercado. “A gente fez isso porque aqui tem muita gente que fuma droga”, disse uma das frequentadoras. 

Problema, Monte e Serrinha

Maria Isabel dos Santos interrompeu umas das músicas da Bruna Karla para bisbilhotar a expedição do jornal pelo monte. “Estou feliz. Amanhã é sábado, né? Quantos anos acha que eu tenho?”, pergunta ao repórter, que responde, desinteressado: “50”. Ela ri. “Claro que não. Amanhã completo 75 anos. Minha filha está vindo me buscar para comemorar. Disse para eu me arrumar e estou linda”, diz, a caminho do barraco dela, em um dos lugares mais distantes do morro. 

Sem dar permissão para a reportagem entrar no barraco de madeira e lona, apresenta os dois cãezinhos que encontrou perdidos por ali. “Esse aqui é o Monte, aquele é o Serrinha e esse aqui é o”, interrompe. “Para de anotar isso aí”, diz, sorrindo. “Não anota. Esse aqui é o Problema”, conta ela, que mora no local há mais de 4 anos. “Não quero moradia. Não quero lote. Quero apenas ficar pertinho da natureza e ficar aqui orando”.

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