Moradores de comunidade enfrentam o abandono e a fome

Postado em: 11-06-2022 às 14h10
Por: Sabrina Vilela
Chefe das panelas, Carioca montou uma cozinha comunitária para garantir alimentação de centenas de famílias. | Foto: Pedro Pinheiro.

As ruas de terra e cascalho da comunidade Emanuelle, uma ocupação irregular no Jardim Novo Mundo II que abriga mais de 528 famílias, leva centenas de história de brasileiros que vivem a fome dia após dia. Conhecida na comunidade como Carioca, Rosângela Ribeiro Lopes, 56, abriu uma cozinha comunitária para distribuir alimentos, cestas básicas e matar a fome de quem tem necessidade.

No Brasil, 33 milhões de pessoas passam fome ou estão em situação de insegurança alimentar. Os dados foram levantados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Carioca chegou em Goiânia há 15 anos em busca de tratamento contra um câncer no útero. Ao lado dos seis filhos, ela acabou ficando na Capital após seu dinheiro ir praticamente inteiro no tratamento. Ela venceu o câncer, mas precisou enfrentar outra doença que aflige milhões de outros brasileiros, a fome. 

Carioca se tornou a voz, com o sotaque de quem nasceu e se criou no Rio de Janeiro, daquelas pessoas que não tinham mais forças para gritar. A comunidade existe há cerca de nove anos e nesse período ela começou a se mobilizar para conseguir doações de alimentos. Para aquelas pessoas ela se tornou uma heroína. 

Mas, apesar da vontade, nem sempre é fácil entregar os pratos de comida todos os dias. “É difícil porque tem alimento, mas não tem gás e quando tem gás não tem alimento”, lamenta. Carioca gasta por semana 1 botijão de gás, 3 pacotes de arroz, 20 quilos de mistura (carne, legume, verdura), 6 pacotes de feijão, 12 de macarrão e 8 de molho. “Aqui o trabalho é de formiguinha desde o início da invasão”, conta. As doações recebidas são também por meio da  Central Única das Favelas (Cufa), na qual a Carioca representa a liderança. 

Auxílios

A busca por auxílios para quem não tem endereço e, muitas vezes nem documento, é um caminho das pedras. Carioca buscou na OVG auxílio para conseguir doações, mas a burocracia impediu as ofertas pois, segundo ela, era preciso que uma ONG fosse registrada com CNPJ. “Para registrar Ong eu tenho que pagar em média R$ 4.200 fora os R$700 mensais que eu deveria pagar a um administrador. De onde eu vou tirar esse dinheiro?”, questiona indignada já que tudo o que consegue é voltado para a comunidade.

Algumas mulheres conseguiram se inscrever em benefícios sociais como o da prefeitura de Goiânia, mas o valor e a quantidade de parcelas é insuficiente para aliviar a fome.

Dayana Gabriela Malaquias,30, mora na comunidade com os seis filhos – de 0 a 12 anos –  e o marido. Ela reclama que a água do lugar não é boa e que ela só consegue sobreviver porque recebe as ajudas que a Carioca dá para os moradores. “A única renda fixa é o Auxílio Brasil de R$400, e de vez em quando meu marido consegue fazer alguns bicos”, explica.

Dayana conta que costuma pegar as doações fornecidas pela Carioca sempre para conseguir se manter junto com a família. “Inclusive meu bebê toma leite que a Carioca traz”. Para ela, se não existisse pessoa melhor. “A Carioca é muito boa. Se não fosse ela nem sei o que seria da gente”, desabafa. 

Ela e outros moradores reclamam da dificuldade de morar em um lugar completamente esquecido que mal consegue ter o endereço no mapa por se tratar de um lugar “sem habitação”. Por isso muitos moradores para conseguir benefícios do governo precisam “pedir emprestado” o endereço de amigos que moram fora da comunidade porque não existe forma de confirmar o endereço como é o caso de Joana Maria Ferreira de Paiva, 52, ela também começou a morar na comunidade desde que começou por não ter condições de pagar aluguel. Ela veio do Rio Grande do Norte para Goiás há 17 anos para mudar de vida. 

Ela conta que pega o endereço de amigos para servir de comprovante para conseguir benefícios e se precisar se deslocar de transporte por aplicativo simplesmente não aparece a localização correta. 

Além desse transtorno por conta do endereço ela sofre com infraestrutura. “Aqui falta luz, falta de água e tem muita sujeira”, conta a Joana que mora com o marido e a filha – de criação.

Esquecidos

Bianca Ferreira, 41,está há quatro anos em Emanuelle junto com os três filhos, o marido e o netinho. Ela assim como o resto das famílias passa por adversidades diariamente. “Minha renda está zerada, eu faço faxina e meu marido faz bicos para ajudar. Às vezes pego reciclagens para vender. Se não fosse a Carioca eu nem sei o que teria acontecido com a gente”, desabafa.

Ela não consegue receber mais o auxílio porque assinou a carteira ao trabalhar na área da limpeza em um grande shopping na Capital, mas ao desenvolver um problema de saúde foi afastada sem receber, mesmo com a carteira ainda assinada e isso fez com que perdesse os únicos R$ 400 que lhe daria uma esperança para se manter. “Para eu conseguir receber preciso fazer uma ressonância na coluna para ter um laudo médico atualizado. Mas, eu não tenho a mínima condição de fazer os exames”, relata.

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