Monumento do abandono

Postado em: 27-03-2018 às 06h00
Promotora diz que artista deve reembolsar R$ 1 milhão aos cofres públicos. Valor seria o estimado pelas irregularidades em repasse de verba

Marcus Vinícius Beck*

O processo judicial contra o artista plástico Siron Franco, idealizador do Monumento das Nações, em Aparecida de Goiânia, está em fase adiantada. Em entrevista ao Hoje, a promotora de Justiça Villis Marra afirmou que o artista teve seus bens bloqueados pela Justiça e sua sentença por “dano ao erário” provocado por irregularidades em repasse de verba para reforma pode sair em breve. “Ele e Linda Monteiro (presidente da Agetul na época dos repasses) estão sendo julgados por impropriedade administrativa e, nos últimos dias, a Justiça convocou os dois para apresentarem suas defesas”, diz.

Sobre a quantia que o artista tem de voltar aos cofres públicos, Marra afirmou que Siron precisa reembolsar algo em torno de R$ 1 milhão, contando os juros que vem sendo acumulado desde o princípio das reformas. Esse montante, de acordo com a promotora, seria por conta dos prejuízos gerados pelas irregularidades que houve durante as negociações para a reforma do Monumento, em 2008. “É um crime o abandono do monumento, uma vez que ele simboliza o zelo para com a civilização de nosso Estado”, afirma.

Siron Franco, questionado pelo Hoje sobre o processo que tramita na Justiça contra o repasse da verba para dar continuidade à reforma do Monumento das Nações, afirmou que o Ministério Público está travando sua vida. “Eu já tenho todas as colunas prontas para colocar no monumento e prosseguir com as obras de reforma, mas a Justiça está complicando minha vida”, frisa. “Doei um patrimônio riquíssimo do ponto de vista civilizatório para a cidade de Aparecida de Goiânia, e agora eles me fazem isso”.

Novela

O Ministério Público de Goiás (MP-GO) foi informado de que o Monumento das Nações estava destruído pelo vandalismo e descaso do Poder Público. A promotora Villis Marra solicitou maior detalhamento à Agência Municipal de Turismo, Eventos e Lazer (Agetul) sobre um possível tombamento e estado da obra. Em resposta, Nars Chaul, também ex-presidente da Agetul, disse que o processo de tombamento já havia dado os primeiros passos e que a obra estava em reforma, desde o final de 2003, custando R$ 400 mil, de acordo com o contrato firmado entre o Estado e Siron Franco.

Deste valor, o artista acrescentou que houve um repasse de mais de R$ 100 mil a ele, em fevereiro de 2004, o que correspondeu a 50% da quantia, descontadas as taxas legais. Conforme informações do ex-presidente da Agetul, a outra parcela seria destinada para depois da execução dos serviços. Em 2005, a Secretaria de Ação Urbana e Meio Ambiente de Aparecida de Goiânia afirmou à promotoria que o monumento estava destruído. De acordo com a pasta, isso foi o estopim para que a Secretaria de Cultura e Turismo de Aparecida de Goiânia entrasse na jogada.

Em seguida, o MP pediu à então presidente da Agetul, Linda Monteiro, informações sobre os valores repassados a Siron. O órgão ainda cobrou esclarecimentos sobre o tombamento do monumento pelo Estado, em 2010. Relatórios e vistoria ao monumento foram pedidos à Secretaria de Cultura de Aparecida, mas a pasta disse que a obra não foi tombada pelo município porque seria de propriedade de uma instituição que seria representada pelo próprio artista. Linda Monteiro afirmou que teria repassado ao artista, em 2013, um total de R$ 240 mil e que o processo de tombamento ainda estava em andamento.

Monumento

Construído com a finalidade de saudar os 500 anos do Brasil, a obra é formada por 500 colunas feitas com placas de cimento que formam o mapa do Brasil e que nunca chegou a ser concluída por falta de recursos. A obra chegou a ser inaugurada como parte da programação da conferência Rio Eco 92 e foi uma iniciativa do próprio artista, que na época investiu cerca de US$ 150 mil do próprio bolso para dar andamento ao projeto.

O Monumento consiste na disposição de 500 colunas de 2,10 metros de altura, feitas com placas de cimento. No projeto original, metade seria feita com três placas de cimento e a outra metade com quatro chapas formando base quadrada. Três mil cópias de objetos indígenas, 3.500 inscrições rupestes e 500 inscrições nas tampas que fecham cada coluna estariam dispostas entre as colunas. 

Monumento das Nações vira paraíso para usuários de drogas 

“O Monumento das Nações virou paraíso para usuários de drogas se esbaldarem durante à luz do dia”. A frase da costureira Maria dos Reis, 39, traduz o sentimento de moradores do Setor Buriti Sereno em Aparecida de Goiânia. Desde que as obras de reforma do Monumento ficaram estagnadas, a violência só aumentou na região. “A obra é linda, mas o Poder Público não dá a mínima assistência para o que vem ocorrendo aqui. Não sei nem dizer quando foi que houve a última poda de árvore”, diz.

A mesma queixa é compartilhada pelo garçom José Roberto Moreira, 45. Morador do Setor Buriti Sereno há 10 anos, ele disse que o mato nunca foi podado, tampouco houve alguma ação por parte do Poder Público para asfaltar as ruas da região. “Na verdade, o grande problema disso tudo é que esse monumento do jeito que está vem atrapalhando a vida da população”, lamenta. “Da forma que está, ninguém abre comércio aqui”.

A reportagem de O Hoje andou pelo Setor Buriti Sereno e constatou que o matagal tomou conta da região. Poças de água viraram abrigo para o mosquito Aedes aegypti. Três jovens fumavam maconha sentado numa das pistas do monumento. Um deles olhou para a equipe e disse que não queria conversar: “não ‘tô’ a fim de sair em jornal, não”. Minutos depois, outros jovens também subiram na pista do monumento e ficaram se drogando. “Queremos segurança”, desabafa a costureira Maria dos Reis, 39. 

Famoso, o Monumento das Nações Indígenas é um dos símbolos nacionais fruto da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. Siron Franco foi convidado por índios carajás que integravam o comitê do evento ambientalista Rio Eco 92 para realizar uma homenagem. Com 126 dias, o artista se lembrou de uma moeda de 1 Cruzeiro com o mapa do Brasil estampado e resolveu fazer essa representação em 60 metros de diâmetro em um local próximo ao seu ateliê. (Marcus Vinícius Beck é estagiário do jornal O Hoje, sob orientação do editor de Cidades Rhudy Cryshtian) 

Por: Sheyla Sousa
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