Passaporte para a especialização

Estudantes e profissionais goianos têm cada vez mais buscado qualificação com chancela de instituições de ensino estrangeiras

Postado em: 28-04-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Estudantes e profissionais goianos têm cada vez mais buscado qualificação com chancela de instituições de ensino estrangeiras

RHUDY CRISTHYAN

A mestranda em Economia Desirée Penãlba Machado, mesmo pela internet, vive no eixo Goiânia-Madrid-Cidade da Guatemala. Brasileira de nascimento e de sangue panamenho, por sua descendência, Desirée elegeu Espanha e Guatemala para chancelar juntas o diploma da especialização que está prestes a concluir. A estudante é uma dos 246,4 mil brasileiros, inclusive goianos, que buscaram se matricular em 2016 num curso oferecido por instituições de ensino estrangeiras. Aos 30 anos, a também advogada Desirée faz planos com o título de mestre concedido pela Faculdade Francisco Marroquín e a Universidade Omma.

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O investimento no curso aparece na balança com o peso que a formação no exterior impõe sobre o currículo profissional. Há dois anos, foram pagos, segundo Desirée, cerca de R$ 20 mil para a universidade hispano-latina. Ela garante que a aplicação no ensino internacional vale a pena. “Como especialista em políticas públicas, eu me indignava em não encontrar por aqui as soluções efetivas para as graves crises que enfrentamos. Hoje estou mais segura da necessidade de defender a redução de gastos públicos e a desregulamentação da economia para um definitivo crescimento econômico no país”, explica a advogada.

Desirée trabalha na construção da tese do mestrado. A estudante conta a razão de ter recorrido a uma universidade estrangeira para continuar seus estudos. “Escolhi o mestrado pelo conteúdo, isto é, pelas matérias ensinadas que não são trabalhadas nos cursos tradicionais de Economia no Brasil. A oportunidade que eu encontrei foi conhecer a ótica do pensamento econômico liberal e as implicações para o mundo dos negócios, o papel do governo e suas políticas públicas nas visões da Escola Austríaca, Escola de Chicago e Escola de Virgínia (Public Choice)”, esclarece.

A mestranda goiana está nas estatísticas da Brazilian Educational & Travel Association (Belta), entidade que aglutina agências de programas educacionais no exterior. A instituição contabilizou 62,8 mil brasileiros ingressando em cursos superiores de escolas estrangeiras em 2016. O número é 50% maior do que os 41,8 mil estudantes que saíram do País no ano anterior para buscar o diploma além das fronteiras do Brasil. Desirée Peñalba credita às “universidades muito engessadas do Brasil” a motivação para se matricular num curso lá fora.

Síndrome do vira-lata

Professor no campus Anápolis do Instituto Federal de Goiás (IFG), Paulo Roberto Ferreira de Aguiar Júnior também saiu de Goiânia para se qualificar no exterior. Entretanto, o próprio educador critica o valor dado à diplomação fora do Brasil em detrimento das instituições de ensino nacionais. “O diferencial de ter um certificado de uma universidade estrangeira é que dão mais credibilidade no que está sendo feito, pois ainda temos a síndrome do vira-lata, onde tudo lá fora é melhor”, lembra.

Paulo Aguiar, de 37 anos, guarda em casa um certificado do respeitado Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dos Estados Unidos; MIT, na abreviação em língua inglesa. Então como aluno da graduação em Geografia na Universidade Federal de Goiás (UFG), o hoje docente permaneceu na universidade norte-americana por dez dias, imerso num curso de aprendizagem criativa. “Esse curso foi gratuito, oriundo de um projeto que participo. A partir daí concorremos a financiamentos e ganhamos”, conta Paulo sobre as condições que o levaram à América do Norte.

A estadia nos EUA contemplou ainda visitas a escolas privadas e particulares. Paulo Roberto acredita que o diferencial do curso em comparação ao ensino no Brasil foi a intensidade nas atividades. “Começava às 8 horas e ia até às 19 horas, sendo que teve dois dias que se estendeu até às 22 horas. E enfim, o curso agregou muito, trazendo novos olhares para a atividade que eu já fazia no Brasil”, arremata. 

Imersão em língua estrangeira 

Destino tradicional de estudantes e profissionais goianos que investem no aprendizado da língua inglesa, Londres, na Grã-Bretanha, foi escolhida pelo empresário Caio das Chagas e Santos para sediar sua imersão no idioma. Ele permaneceu por seis meses na terra do Big Ben, em 2015. O empreendedor investiu aproximadamente R$ 40 mil para galgar um curso de inglês intensivo e outro, também na mesma língua, mas com um vocabulário específico para negócios, englobando temas como liderança, negociações e marketing.

Caio entende que o Brasil oferece bons cursos do idioma estrangeiro, mas mesmo assim optou pela Inglaterra apostando na experiência que viveria fora do País. “Acredito que no Brasil temos grandes cursos. O que pesou para mim foi viver uma nova realidade, conhecer uma nova cultura e aprender novos valores. São experiências que levo para o trabalho e para a vida”, compartilha Caio Santos.

Empresário do ramo da tecnologia jurídica, Caio foi buscar também nos Estados Unidos um contato mais próximo com o ensino estrangeiro, desta vez no campo acadêmico. Ele participou de eventos nas universidades de Stanford e Berkeley, ambas na Califórnia, onde afinou seus conhecimentos em direito e liderança motivacional. Caio Santos salienta que, além dos conteúdos específicos dos cursos, o networking é, segundo ele, um dos principais legados que trouxe para o Brasil.

De olho no conhecimento

A administradora de empresas Rebeca Soares Silva, atuante no ramo hoteleiro, explica que as corporações veem com bons olhos os profissionais formados no exterior. Essa admiração se dá, segundo ela, pelas soluções inovadoras trazidas de outros países junto com as qualificações do colaborador. “As empresas enxergam oportunidade de crescimento, expandindo os horizontes da organização com os conhecimentos adquiridos pelo colaborador que se especializou fora do Brasil com uma visão que trará soluções e ideias inovadoras para a companhia”, diz Rebeca.

Na avaliação da administradora, o know-how que acompanha profissionais experimentados fora do Brasil tem atenção redobrada dos empregadores pelo fato de servir, esse conhecimento, como diferencial da empresa perante a concorrência. Rebeca acrescenta que “a bagagem adquirida no exterior traz um passo a frente para a organização, por fazer com que sua possibilidade de crescimento esteja adiante de seus concorrentes”. Ela conclui dizendo que são comuns os casos em que os profissionais, por intermédio da experiência de intercâmbio internacional, acrescentam às empresas ideias consideradas visionárias no mercado brasileiro.

Contraponto

Apesar do aumento de 50% no número de brasileiros que deixaram o País em 2016 para estudar fora, isso na comparação com o ano anterior, ainda é incipiente a parcela de estudantes que cursam universidade no exterior. Pesquisa divulgada no semestre passado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que, no conjunto de brasileiros que estão na universidade, apenas 0,5% deles estão matriculados em instituições de ensino estrangeiras. A média global é de 6%.

O Censo da Educação Superior aponta que em 2016 o número de matrículas em cursos no exterior experimentou leve alta, de apenas 0,2%. Esse mesmo levantamento sinaliza que os ingressantes em universidades estrangeiras passaram a ocupar cadeiras sobretudo na rede privada, que agrupa 88% das instituições procuradas pelos estudantes brasileiros. 

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