Um ano depois de “Que horas ela volta?”, Anna Muylaert exibe novo filme em Berlim

A diretora retornou ao Festival de Berlim para apresentar o seu novo filme: “Mãe só há uma”

Postado em: 08-02-2016 às 08h52
Por: Redação
A diretora retornou ao Festival de Berlim para apresentar o seu novo filme: “Mãe só há uma”

Um
ano depois de exibir “Que horas ela volta?” no Festival de Berlim,
Anna Muylaert volta à capital alemã nesta semana com o filme “Mãe só há
uma”. Se no ano passado causou desconforto com a história da empregada que
acolhe a filha recém-chegada do Nordeste na casa dos patrões, a cineasta
paulista promete tirar o chão de quem for assistir ao seu novo trabalho, na
sexta (12) e no sábado (13), na mostra paralela Panorama, fora da competição
oficial. 

Inspirado
livremente no caso Pedrinho, que ficou conhecido em 2002, o longa mostra as
transformações pelas quais passa um adolescente que volta para a família
biológica após sua suposta mãe ser presa por sequestro de bebês em
maternidades.
O
corte final, que será exibido nos próximos dias, ficou pronto há pouco mais de
uma semana. 

Inicialmente, Anna não queria ir a Berlim. Pensava que teria de se superar
muito em relação a “Que horas ela volta?”, que ganhou o prêmio de
público da Panorama no ano passado. Mas mudou de ideia quando a curadoria da
seção pediu para assistir a “Mãe só há uma”.

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“Achava que um raio não cairia no mesmo lugar duas vezes”, disse em entrevista
ao Globo, na sede da Dezenove Sons e Imagens, coprodutora do filme, em São
Paulo. 

Matheus Nachtergaele faz o papel do pai biológico do personagem principal,
enquanto a atriz Dani Nefussi interpreta suas duas mães, a adotiva e a real.
Escolhido por meio de indicações, Naomi Nero encarna o menino, que muda de
casa, de escola e de nome quando troca de família. Pierre, que passa a se
chamar Felipe, sofre outras transformações de identidade, muito mais profundas.
Ele reage às mudanças e deixa mais claros os sinais de sua indefinição de
gênero e de orientação sexual.

Sobrinho de Alexandre Nero, Naomi vem de uma família de atores. Além disso, tem
um irmão que é transgênero e mudou o nome para Nicole. Segundo a diretora, essa
experiência pessoal foi importante para o ator.

“Depois de fazermos muitos testes, a gente estava desesperado”, conta Anna. “Não
é fácil encontrar atores bons nessa idade. Ele acabou sendo indicado, vem de
uma família de atores, também quer ser ator, tem uma energia suave. E por ter
um irmão que é transgênero, interpretou o papel com integridade, ele não ria
nunca quando estava no papel. Imagine você interpretar a história do seu irmão”,
completou.

A diretora conta que a história de Pedro Rosalino Braule Pinto e de Vilma
Martins Costa, que em 1986 o levou dos braços da mãe biológica em uma
maternidade de Brasília, sempre a fascinou. Menos por Vilma, que foi condenada
pelos sequestros do menino e sua irmã de criação, Roberta Jamilly Martins
Borges. E mais pela situação do adolescente, obrigado a mudar de vida
completamente, de uma hora para a outra.

“Eu sempre achei que o drama do filho era a grande história”, afirma. “Simbolicamente,
acho que toda criança que vira adolescente meio que muda de mãe. Na infância, a
gente tem uma mãe que ama tudo e aceita tudo e, de repente, viramos
adolescentes, e começam as restrições. Fiquei interessada quando achei que o
filme podia ser uma metáfora dessa situação pela qual todo adolescente passa. A
família da infância é um paraíso e, depois, vêm as diferenciações e começam os
conflitos”. 

A questão do gênero foi introduzida posteriormente, quando a cineasta havia
terminado “Que horas ela volta?” e se preparava para iniciar as
filmagens de “Mãe só há uma”. Os dois longas-metragens foram rodados
em 2014, o primeiro no início do ano e o segundo entre novembro e dezembro,
durante quatro semanas. O último custou R$ 1,8 milhão, parte dos quais de um
concurso federal para filmes de baixo orçamento.

“Essa é uma geração ‘queer’. É uma outra maneira de ver, que comecei a conhecer
nos últimos anos muito por meio de amigos e equipe jovem. Fiquei mãe durante 15
anos, não saía mais de casa à noite. Voltei a fazer isso com as equipes dos
filmes. Fui ver uma cena, uma sexualidade diferente de quando eu saía. É outra
coisa. Realmente tem uma fluidez, tanto de gênero quanto de orientação. Menina
fica com menina e não necessariamente elas são lésbicas, a mesma coisa acontece
com os meninos. É outra coisa. E queria trazer isso para o personagem, virou um
universo que ele traz e é bem contemporâneo”.

Para quem busca uma espécie de resposta ou definição sobre os temas de
identidade e gênero colocados em questão no filme, Anna avisa que não há
resoluções:

“A grande coisa do filme é que ele não deixa definido. Pra mim, foi o grande
choque quando entrei nesse mundo novo. Eu queria definir, e não tinha mais
definição. O filme é bem sobre a falta de definição. É difícil dizer. O
personagem é transgênero? Não. Ele não é? Não. Ele é gay? Não. Ele é hétero?
Não. Não tem definição”, declara a diretora.

A diretora enfatiza ainda que não faz “cinema para diversão pura”, o
que torna o debate dos temas propostos por ela em seus filmes tão importante
quanto as histórias que conta ou reviravoltas das tramas. (Agência O Globo) 

Foto: reprodução

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