Beyoncé é destruidora mesmo

Com o lançamento do clipe Formation, a artista negra mais importante do mundo atualmente não se contenta apenas em cantar, dançar e atuar: Beyoncé quer também provocar

Postado em: 10-02-2016 às 15h31
Por: Redação
Com o lançamento do clipe Formation, a artista negra mais importante do mundo atualmente não se contenta apenas em cantar, dançar e atuar: Beyoncé quer também provocar

Júnior Bueno

Quem acompanha o noticiário da música pop sabe que o
lançamento de um clipe de Beyoncé é capaz de movimentar o mercado fonográfico,
a internet e a mídia de celebridades em um curto espaço de tempo. Some-se a
isso o fato que a cantora tem a mania de manter segredo sobre as novidades até
o último segundo. Em dezembro de 2013 o mundo acordou com o lançamento de um
álbum inteiro acompanhado de um videoclipe para cada música. E no último
sábado, ela fez de novo.

Já se sabia que Beyoncé faria uma participação no show de
Coldplay no intervalo do Superbowl, o programa de TV mais visto dos Estados
Unidos. E o planeta contava que ela faria com Chris Martin, vocalista do
Coldplay, um dueto em Hymn for the Weekend, participação dela no último álbum
da banda. Mas no sábado, véspera do Super Bowl, ela lançou do nada um clipe com
ares de superprodução de um single inédito, Formation. E não é só as imagens
que estão repercutindo e causando comoção. A letra já se tornou um hino da luta
contra o racismo.

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Beyoncé dirigiu sozinha o seu novo vídeo e  faz
referências históricas da luta da comunidade negra e honra suas origens. 
A cantora faz várias referências históricas e sociais, como um sample da voz de
Messy Mya, um negro morto vítima de racismo, faz referência ao episódio do
taxista negro, que foi torturado por policiais brancos em Los Angeles em 1991,
que teve tudo registrado por um cinegrafista amador.

A letra é fundamentalmente sobre o orgulho negro. Exalta
mulheres, a origem do negro americano, os Estados do sul do país incluindo o
Texas natal de Beyoncé, cita estereótipos sobre negros de forma orgulhosa,
comoo de ir ao restaurante Red Lobster, ou de andar com molho de pimenta na
bolsa, e, sobretudo, fala sobre a capacidade de todo negro nos EUA de assumir
poder: “Eu vejo algo, eu quero (…) eu sonho, eu trabalho, eu me esforço
até tê-lo. 

Além disso há a resposta bem humorada a rumores envolvendo
seu nome. Sobre a teoria da conspiração que afirma que a cantora e seu marido,
o rapper Jay-Z seriam da ordem secreta Iluminatti, ela brada na música:
“vocês, haters, estão estão passando vergonha com essa história de
Iluminatti.” Á cidadã novaiorquina que teve a pachorra de fazer uma
petição online exigindo que Beyoncé penteasse o cabelo da filha Blue Ivy, de
quatro anos, ela é mais direta: “eu gosto do meu bebê com seu cabelo afro
de bebê”. Blue também participa do clipe, exibindo sorridente seu cabelo
black power. E às críticas sobre sua estética “embranquecida”, a
cantora emenda: “Eu gosto do meu nariz como as narinas do Jackson 5.”

Beyoncé aparece, ainda com roupa de época, de luto em uma
espécie de velório em frente a uma casa, em seguida em uma sala de estar com um
grupo de mulheres negras vestidas como madames brancas. A cena pula para um
estacionamento em que Beyoncé e suas dançarinas exibem a coreografia do refão,
ao som de: “Eu destruo (gíria traduzida de slay, mas que também poderia
significar “eu mato”), okay. Okay, meninas, agora vamos entrar em formação. Eu
destruo”.

A abelha rainha aparece então novamente de luto mostrando o
dedo do meio e dizendo que “quando ele transa bem comigo, eu levo ele para o
Red Lobster”,  ou então deixa ele dar uma volta no seu helicóptero, ou
ainda permite que a música dele toque no rádio. E encerra dizendo que você e
ela “podem ser um Bill Gates negro em formação”. Entre uma cena de missa
batista frequentada por muitos negros e outra que mostra um jornal estampando o
ativista negro Martin Luther King na capa, começam a aparecer cenas atuais de
um garoto vestido de preto e usando um gorro e dançando em frente a um paredão
de policiais que então levantam as mãos para o alto e “se rendem”. 

O vídeo foi gravado em Nova Orleans, no sul dos EUA, a
região Sul foi a última região a abolir a escravidão dos negros americanos,
também é uma região conhecida por vários conflitos raciais. O clipe faz
referência ao período colonial, aonde muitos negros eram escravizados e
humilhados, os figurinos, os cenários, os dançarinos tudo fazem referência a
esse período. em certo momento uma pichação no muro diz ” Pare de atirar
em nós .” 

A frase é claramente um desabafo sobre os jovens negros
mortos por polícias nos últimos anos. A polícia também não escapa das críticas:
em todo vídeo Beyoncé está em cima de uma viatura no meio de um rio, uma alusão
ao Furacão Katrina, que devastou o estado em 2005. No fim do vídeo ambos
afundam, Beyoncé, uma mulher negra levada pela viatura.

E então temos a participação da cantora no evento mais
assistido da América. E tome polêmicas. Beyoncé aparece no gramado do estádio
da final do Super Bowl vestida com uma jaqueta inspirada em uma famosa roupa de
Michael Jackson, logo após uma banda militar abrir alas para ela entrar. Suas
dançarinas estão todas vestidas de preto com boinas também pretas, em
referência aos Panteras Negras, organização política negra ativa nos anos 1960
e 70, famosa por sua atuação armada defendendo guetos negros da violência da
polícia, considerada racista. Foi o bastante para Beyoncé ofucar o Coldplay e
Bruno Mars, outro convidado da banda anfitriã.

A união de letra, clipe e apresentação revoltaram os
defensores da polícia e quem, em geral, não vê no racismo o fato que motiva as
mortes de negros pobres nos Estados Unidos. Faz parte dessa linha de pensamento
o grupo partidário da campanha All Lives Matter (todas as vidas importam), uma
resposta à campanha Black Lives Matter (a vida dos negros importa), criada na
internet em 2013 por ativistas negros após a morte do jovem Travyon Martin,
baleado por um vigilante na Flórida.

Após o show, posts no Facebook e no Twitter passaram a pedir
o boicote à artista, ao campeonato de futebol americano e sobrou até para a
Pepsi, empresa patrocinadora dos shows no Super Bowl. Do outro lado, Formation
parece ter sido bem recebida pelos fãs. Poucos minutos depois da apresentação,
foi anunciada a turnê The Formation World Tour, com a qual Beyoncé deve viajar
pela América do Norte e Europa a partir do dia 27 de abril. Interessados se
apressaram em acessar o site de vendas de ingressos que, devido ao volume
excessivo de visitantes, chegou a ficar fora do ar.

Com uma carreira de sucesso desde a girlband Destiny Child,
no fim dos anos 90, Beyoncé é, neste século, a artista negra mais importante do
mundo, com marcas e êxitos ainda não igualados. Seu sucesso abriu as portas da
indústria para outras cantoras como Rihanna e Nick Minaj. Sua voz,
inconfundível embalou, ao longo de uma década baladas açucaradas e músicas
“bate-cabelo.” Seu império também passou pelo cinema, em elogiadas
participações em DreamGirls e Austin Powers, entre outros filmes. 

Nos últimos anos, Beyoncé apresentou uma interessante
guinada nas letras de suas músicas, como um teor feminista em canções poderosas
como Flawless e Pretty Hurts. Mas em se tratando de se posicionar politicamente
sobre a atual questão racial nos EUA – e no mundo -, Formation é o ponto alto
da carreira da cantora. Desde Nina Simone não se via uma cantora negra fazer
algo tão grandioso contra o racismo naquele País. E isso mostra o poder na
música pop como instrumento de modificação social. Como diria aquele meme,
 Beyoncé, “a senhora é destruidora mesmo, hein!”.

Foto: reprodução

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