Berna Reale denuncia agressão no Centro de Criminalística de Belém

Postado em: 21-02-2016 às 00h00
Por: Redação
Artista paraense tem trabalhos que lidam com injustiça e violência; ela foi agredia pelo seu superior

Conhecida por trabalhos que lidam com temas como injustiça e violência, a artista paraense Berna Reale diz ter sido alvo de agres­são no Centro de Perícias Científicas (CPC) de Be­lém (PA), onde trabalha como perita criminal. Na tarde de quarta-feira, conta a artista, ela relatou irregularidades ao diretor do Instituto de Criminalística do órgão, Silvio An­dré Lima da Conceição. Berna diz que havia levado as queixas ao setor de Recursos Humanos do órgão e, quando re­tornava à sua sala, foi acua­da pelo diretor.

“Ele gritava tanto que as pessoas começaram a sair de suas salas para ver o que estava acontecendo. Ele botou o dedo no meu nariz e tentou me levar à força para dentro, dizen­do que ia me ensinar como respeitá-lo. Ele estava trans­tornado e só me deixou quando percebeu que havia muita gente observando a ce­na”, dis­se Berna ao Globo, por telefone.

Perita há seis anos (e servidora pública do Pará há 31), a artista conta que denunciou o fato de muitos peritos do órgão serem servidores em outros Estados e, portanto, aparecerem raramente nas de­pen­dências do CPC.

“Juntei provas disso, fiz um dossiê e levei à Corregedoria. Nada aconteceu. Ontem, questionei o diretor: ‘Por que o senhor não faz nada a respeito?’, e ele reagiu de forma agressi­va”. 

Uma das artistas representantes do Brasil na última Bienal de Veneza, a mais importante exposição de arte do mun­do, Berna costuma criar trabalhos que lidam justamente com a violência – seja a policial, seja aquela praticada contra as mulheres ou em decorrência da miséria. 

“Eu sou uma artista que fala sobre violência, não posso me calar. Não posso mais”, com­pletou, aos prantos. “Não tenho mais como fazer minha arte se não for honesta comigo mesma. Não posso fazer o que faço e me calar diante disso”.

O outro (e cínico) lado

Procurado pelo Globo, o diretor do Instituto de Criminalística negou que tenha sido violento e disse que Berna estava “desestabilizada emocionalmente”.

“Ela adentrou minha sala questionando um ato meu que transferia um funcionário pa­ra outro lugar. Ela não é gerente, não tem esse poder. Quando disse isso a ela, ela sa­iu da sala desestabilizada. Quan­do a encontrei no corredor, eu disse apenas que, se ela quisesse insultar alguém, que ficasse no lugar para ouvir a resposta. Ela me chamou de machista e covarde, mas eu não a agredi”, afirmou o diretor.

Quando a reportagem perguntou sobre as testemunhas que presenciaram a cena, Li­ma da Conceição disse: “Vamos esperar para ver se ela vai conseguir reunir testemunhas”. 

Berna, por sua sua vez, listou os nomes dos funcionários presentes e completou: “Você acha que eles vão depor? Há um corporativismo muito grande na polícia. Você acha que, quando alguém de poder o agride, os subalternos vão sair contra essa pessoa? Você sabe o que é uma mulher se revoltar contra o diretor de criminalística do Estado? Eu não tenho forças, preciso de toda a ajuda, e por isso vim a públi­co. Não vou mais me calar”.

Berna contou que passou quase três horas na delegacia à espera de que fosse feito um boletim de ocorrência.

“Quando cheguei à delegacia, eles já sabiam que eu iria lá para fazer o boletim e me deixaram esperando por horas. Só aceitaram ouvir meu depoimento porque perceberam que eu não iria embora”, afirma. A artista seguia na quinta-feira em sua sala: “Pre­ciso dar meu plantão, porque é meu trabalho, não quero perdê-lo”, finaliza Berna. (Agência O Globo)

 Foto: reprodução

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