Corpos em potência

Postado em: 23-02-2016 às 00h00
Por: Redação
Procena começa debate sobre acessibilidade com espetáculo ‘Sem Conservantes’, de Natal, Rio Grande do Norte

José Abrão

Começa hoje a primeira edição do Procena, evento de quatro dias que vai debater a acessibilidade, direitos dos portadores de necessidades especiais e promover uma reflexão em geral sobre inclusão, promoção e acessibilidade da pessoa com deficiência no meio artístico. Para abrir a roda de debates, a companhia Giradança, de Natal (RN) vai se apresentar. Há dez anos, a companhia trabalha com o conceito de corpos diferenciados. “Fugindo de um padrão conservador na dança, trabalhamos com bailarinos altos, baixos, gordinhos, evitando essa ideia piegas e de coitadinho”, conta Anderson Leão, diretor do espetáculo Sem Conservantes, em cartaz hoje às 20h no Teatro Escola Basileu França.

O evento é uma parceria da Nós Duas Produções com o Núcleo de Arte e Inclusão do Basileu França. “Este é o primeiro encontro em Goiânia com essa temática de acessibilidade e atividade cultural e produção do artista e pessoa com deficiência e também do público com deficiência”, conta Ana Lúcia Alves, uma das produtoras do evento. O Procena é o resultado de um trabalho acadêmico de quase dois anos da primeira turma de produção cênica do Instituto Tecnológico do Estado de Goiás (Itego). “Foi trabalhando no núcleo de inclusão do Basileu França que a gente pensou no público como um todo, em todas as pessoas. Des­de na forma de como a pessoa com deficiência vai chegar ao local de um evento até como ela vai consumir aquela obra, além de políticas culturais, tecnologias assistidas e muito mais”, comenta Alves.

Ela inclusive destaca o trabalho da Giradança. “Eles são referência na atividade cultural no Brasil e trabalham como qualquer companhia. Porque os artistas com deficiência es­tão aí, mas não se fala nisso, não se vê esse trabalho. São artistas que muitas vezes ficam à margem”. “Para este evento, os temas foram escolhidos a partir das pautas mais importantes sobre acessibilidade e os convidados das mesas redondas são pessoas de renome na área”, explica Maressa Ste­phany, outra produtora do evento. Ela conta que as inscrições para as mesas e palestras podem ser feitas gratuitamente pelo Facebook e que o público esperado é de 150 a 200 pessoas por debate e cerca de 600 pessoas na noite do espetáculo.

E Stephany já espera a próxima edição. “Os nossos parceiros no evento já prezam pela continuidade e veem a necessidade dessa discussão no meio cultural. Acessibilidade é um dos maiores desafios do produtor e gestor cultural. A pessoa com deficiência chega no evento e não tem audiodescrição, não tem intérprete em libras… O gestor tem que pensar em tudo isso”. 

Anderson Leão, diretor de Sem Conservantes, contou sobre a fundação da Giradança que já atua há 10 anos. “O grupo surgiu com a proposta de trabalhar corpos diferenciados na dança contemporânea para quebrar esse paradigma de corpos perfeitos. Com esse objetivo, a gente busca criar possibilidades para a dança usando corpos diversos”.

Um dos pontos que Leão mais repete é a necessidade de mudar o olhar sobre a pessoa com deficiência, não a vendo como uma vítima, mas como uma pessoa completa e capaz. “Os bailarinos não precisam de reabilitação, é a plateia que precisa ser reabilitada”, disse. Neste trabalho em Goiânia, se apresentam cinco bailarinos, um deles com nanismo, um cadeirante e um com Síndrome de Down, além de duas pessoas sem deficiência. No resto da companhia também estão uma bailarina cega e outras três pessoas com paralisia cerebral.

Ele comentou sobre como os artistas portadores de alguma deficiência têm dificuldade de encontrar trabalho. “Tem essas dificuldades, especialmente na dança, em que geralmente as companhias não trabalham com outros tipos de corpos. Muitas vezes, eles são tratados de uma forma piegas, assistencialista. Nós não, nós viemos para potencializá-los”.

O espetáculo Sem Conservantes estreou no ano passado e foi coreografado por dois profissionais convidados de São Paulo. “Eles trabalharam em cima de suas pesquisas com fotografia em que desenvolveram com os meninos uma coreografia e uma dramaturgia em cima de fotos, transformando aquilo em movimento”, contou Leão. Para ele, a proposta é que “as pessoas assistam com naturalidade, que vejam os bailarinos como os artistas que eles são e não co­mo pessoas deficientes se superando. Não é isso. Eles são uma companhia de dança como qualquer outra”.

Para o diretor, o Procena é um evento de grande significado: “Acho extremamente importante um evento com essa temática para abrir os olhos das pessoas com e sem deficiência. Serve para mudar o foco, para se enxergar estes corpos como potência. Para mostrar que o trabalho deve ser feito para todas as pessoas. Não é exatamente inclusão, é convivência, é ir além da deficiência. Espero que este even­to abra a mente das pessoas e mostre formas diferentes de pensar”, disse. 

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