Segunda-feira, 15 de abril de 2024

Consumo de insetos pode ser a solução para problemas ambientais

Grilos domésticos e larvas do besouro cascudinho receberam sinal positivo da UE para serem vendidos como alimentos

Postado em: 27-01-2023 às 19h12
Por: Maria Gabriela Pimenta
Imagem Ilustrando a Notícia: Consumo de insetos pode ser a solução para problemas ambientais
Cerca de 35% a 60% do peso seco dos insetos é composto por proteína. | Foto: iStock

Como forma de incentivar e acelerar a mudança para dietas menos danosas ao meio ambiente, a União Europeia (UE) aprovou a comercialização para o consumo humano de alimentos à base de insetos. As larvas do besouro cascudinho e os grilos domésticos são o terceiro e quarto insetos a terem aval para serem vendidos como alimentos nos países da UE.

Na última terça-feira (24/1), foi autorizada a venda das larvas do cascudinho em pó, congeladas, em pasta e em formas secas. Já os grilos poderão ser vendidos em pó, parcialmente desengordurados. Ainda está em processo de análise a autorização para o consumo de mais oito insetos.

Apesar de causar asco na maioria das pessoas e não ser cultural no Ocidente, os insetos já são considerados iguarias por restaurantes da alta gastronomia. Inclusive, são ingredientes comuns nos cardápios em países como o México e Tailândia, por exemplo.

Continua após a publicidade

Benefícios

Os insetos atraíram a atenção dos pesquisadores por serem uma alternativa sustentável ao consumo excessivo de carne. A maior parte da emissão de gases do efeito estufa no setor alimentício, responsável por cerca de um quarto do aquecimento global, vem das carnes, leites e derivados. O gado arrota metano, gás com forte efeito estufa, e, para a criação de pastos e cultivo de soja (parte é destinada para a alimentação destes animais), florestas são derrubadas.

Portanto, substituir bifes e hambúrgueres por grilos, larvas de besouros e outros insetos, é um ato de sustentabilidade, cuidado com o ecossistema e uma reação positiva à mudança climática.

Por meio de relatório, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) afirma: “Uma das muitas maneiras de abordar a segurança alimentar é por meio da criação de insetos. Os insetos estão em toda parte e se reproduzem rapidamente, têm altas taxas de crescimento e conversão alimentar e baixa pegada ambiental durante todo o seu ciclo de vida”. No mesmo documento é possível observar a tentativa da FAO de desmistificar preconceitos à respeito do consumo de insetos.

Além disso, os insetos também oferecem benefícios nutricionais. Cerca de 35% a 60% do peso seco dos insetos é composto por proteína. A parte inferior oferece quantidade superior deste macronutriente do que a maioria das fontes de proteína vegetal e a parte superior é mais rica do que carnes e ovos.

Em estudo publicado na Critical Reviews in Food Science Nutrition, os autores compartilham os benefícios da ingestão de insetos para a saúde, destacando os altos níveis de vitamina B12, ferro, zinco, fibra, aminoácidos essenciais, ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 e antioxidantes.

“É um desafio muito grande lidar com a crescente demanda por produtos animais”, diz Tim Searchinger, diretor técnico do programa de alimentação do World Resources Institute, uma organização de pesquisa ambiental dos EUA. “Temos que buscar todas as alternativas.”

Baixa adesão

A decisão da Comissão Europeia de aprovar dois novos insetos como alimentos não faz parte de um impulso para mudar a alimentação, mas apenas um incentivo para o consumo, já que “contribui positivamente para o meio ambiente e para a saúde e a subsistência”. O objetivo é esclarecer que as larvas e os grilos são seguros e benéficos para a saúde.

Em publicação no Twitter, a Comissão Europeia enfatiza que “ninguém será obrigado a comer insetos”.

Três quartos dos consumidores europeus não estão dispostos a trocar as carnes por insetos e outros 13% estão indecisos, segundo um relatório de 2020 da Organização Europeia de Consumidores. Na Alemanha, 80% das pessoas dizem ter nojo da ideia de comer insetos, segundo um relatório de 2022 da agência ambiental da Alemanha, a UBA.

“O nojo é considerado o maior obstáculo para a introdução de insetos no mercado de alimentos do Ocidente”, escreveram os autores.

Atualmente, há pesquisas que procuram entender como seria possível superar essas barreiras, que impedem que as pessoas se abram para uma evolução alimentar. O nojo por insetos é irônico, já que alimentos associados à decomposição, como queijo gorgonzola e fungos, como os cogumelos, são normalmente aceitos e fazem parte de receitas tradicionais da culinária ocidental.

Segundo autores, convenções sociais são responsáveis pela a aceitação das pessoas em comer gafanhotos. Portanto, eles procuram explorar a natureza social dos seres humanos para aumentar e “normalizar” o consumo de insetos.

Leia também:

Veja Também