Quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Aversão a pessoas pobres é ensinada às crianças pelos adultos

Padre Júlio Lancellotti dois livros infantis sobre o tema e fala sobre maneiras de lidar com esse preconceito

Postado em: 25-10-2023 às 17h12
Por: Cecília Epifânio
Imagem Ilustrando a Notícia: Aversão a pessoas pobres é ensinada às crianças pelos adultos
Ilustração do livro 'Aporofobia', parceria da escritora Blandina Franco e o ilustrador José Carlos Lollo e padre Júlio Lancellotti | Foto: Divulgação

Subir o vidro do carro quando alguém se aproxima, trocar de calçada quando uma pessoa vem da direção oposta são atitudes que ficaram comuns nas grandes cidades do mundo. E, por terem ficado comuns, essas atitudes acabam parecendo corretas, até porque, quem teria coragem de se arriscar em uma possível situação de perigo?

Mas será que é realmente um momento de perigo? Essas pessoas que se aproximam dos carros ou de pedestres sempre são vistos como criminosos violentos. Não seriam elas… diferentes? O sentimento de ter “medo:” de pessoas empobrecidas ou que estão em situação de rua, ou simplesmente não gostar delas, tem um nome: aporofobia.

Por mais que seja uma palavra complicada e até mesmo pouco conhecida e falada, muita gente sabe a sensação de se sentir assim, desconfiado e desconfortável com quem tem menos oportunidades na vida. Não é algo bonito de se admitir, mas é um assunto que precisa sim ser falado.

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E para debater sobre esse tema, a escritora Blandina Franco e o ilustrador José Carlos Lollo fizeram dois livros sobre, “Aporofobia” e “Os Pombos“, já disponíveis para venda e pré-venda.

No livro ‘Os Pombos’ as pessoas em situação de rua são retratadas como aves | Foto: Divulgação

“Acho que todo mundo já passou por uma dessas situações, a gente passa pelos moradores de rua, os vê espalhados e vê as coisas acontecendo, algumas vezes nós mesmos nos comportamos dessa maneira”, diz Blandina, contando que a ideia dos projetos partiu do padre Júlio Lancellotti, que cuida de pessoas em situação de rua e as apresentou a ela e a José.

“Não foi difícil encontrar situações de aporofobia, mas deu um certo trabalho escolher dentre tantas. Algumas foram escolhidas pelos próprios moradores de rua, como por exemplo a frase ‘Eles são uns infelizes’, que foi uma sugestão de um deles”, completa o ilustrador.

No livro “Aporofobia”, existem algumas colocações como as citadas acima. De um lado, as pessoas apontam para três personagens e dizem que eles são fedidos, estão sujando a cidade, fingem sentir fome e que só estão naquela situação porque fizeram “más escolhas”. Um fato curioso é que não existem diferenças visíveis entre os dois grupos, exceto que os que escutam as ofensas vão ficando cada vez menores.

“Essa visão de que eles fizeram más escolhas já é aporofóbica”, diz padre Júlio Lancellotti. “Más escolhas dependem de quem olha a escolha, para achar se ela é boa ou má. Em geral, as pessoas escolhem coisas que elas acham que são boas para elas, mas que depois podem se revelar más. Acontece na vida de todo mundo. Só que, como eu não gosto daquelas pessoas, digo que elas fizeram más escolhas.”

E esse “não gostar” é gratuito, vem “do nada”, porque estas pessoas que são pobres e às vezes precisam ir viver nas ruas nem conhecem aqueles que as ofendem, que dirá terem feito algum tipo de mal para eles. Padre Júlio acha que quem não gosta dos pobres não gosta deles porque eles são “diferentes”.

“E, além de ser diferente, essa pessoa não me gera confiança. Eu tenho medo dela. Eu não a conheço. Os grupos familiares ensinam as crianças a não gostarem daquelas pessoas. Dizem para não brincar com aquelas crianças, não ficar lá com eles, tomar cuidado”, afirma. “Como não faz parte do mundo em que você vive, você tem medo. E esse medo acaba gerando ódio.”

“É claro que aquele homem pode ser fedido. Mas aí o adulto diz para a criança que ele é fedido, mas não diz por que. É como se ele tivesse escolhido estar daquele jeito”, diz o padre Júlio Lancellotti.

O padre convive com pessoas em situação de vulnerabilidade. Sendo assim, ele sabe como elas podem chegar à ruína material e, em outros casos, não têm acesso à comida (tendo que revirar sacos de lixo), água potável (por isso acabam pedindo ajuda para se hidratar) e nem água para se lavar (por isso acabam ficando dias sem tomar banho).

Diversos motivos levam as pessoas a viver nas ruas: dificuldades econômicas, de relacionamento com membros da família, violência e outros mais. “São razões muito variadas. Mas o motivo, em geral, é alguma perda. São pessoas que vão perdendo. Perdendo afeto, amizade, laço, condições de subsistir”, afirma o padre Júlio.

Para ele, as crianças não nascem aporofóbicas. Elas aprendem isso com os adultos de seu dia a dia. Eles não ensinam com a palavra, mas sim com as atitudes! E, mesmo quando são adultos que têm consciência sobre as desigualdades do mundo, Padre Júlio acha que eles podem sentir dificuldade de explicá-las aos mais novos.

Segundo ele, a solução para este preconceito começa por questionar a ordem das coisas. “As crianças devem pensar por que elas podem tomar um sorvete caro e a outra criança não pode nem chupar o palito. Refletir sempre. Por que nós achamos que pensar do jeito que nós pensamos é o certo?”, sugere.

“Nós lutamos contra a aporofobia sempre que não achamos que a situação é imutável do jeito que está. Porque ela não é, a gente sempre pode mudá-la.”

Para Blandina, seus livros podem ajudar a trazer um foco sobre o assunto. “Falar sobre esse preconceito é o primeiro passo para mudarmos nosso pensamento e enxergarmos essas pessoas em situação de rua como realmente são: pessoas”, diz.

“Entendendo o que acontece com eles, o que eles sentem, coisas que ninguém se preocupa muito em pensar e entender, podemos ter um olhar menos preconceituoso e mais humano com relação ao problema.”

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