Quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Halloween: conheça a origem da famosa data

Muito antes da cultura de pedir doces, o Halloween era uma festividade para celebrar o encerramento do ano

Postado em: 31-10-2023 às 15h38
Por: Cecília Epifânio
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Halloween: conheça a origem da famosa data | Foto: iStock

Há dois mil anos, os Celtas comemoravam o ano novo em um dia que corresponde, aproximadamente, ao 1º de novembro. Para esses povos que habitavam as regiões, hoje conhecidas como Irlanda, Reino Unido e também a França, a data marcava o fim do verão e início do inverno.

Naquela época, eram as estações do ano que determinavam os ciclos da agricultura, com um espaço muito pequeno para intervenções humanas, como temos hoje, e que o sucesso das colheitas definia o tamanho da despensa das pessoas, a data era crucial. Sendo assim, nada mais justo escolher a data para encerrar um ano e começar um novo, pois seria o fim do período solar, vivo e encalorado, para dar início a uma nova era fira, longa e de trevas, como era o inverno.

Às vésperas desse dia, os Celtas viam uma mistura no plano dos vivos e dos mortos. A noite de 31 de outubro não possuía barreiras entre os que ainda estavam presentes na terra com os que já partiram, eles deram o nome de samhain. No samhain, os fantasmas dominavam a terra, destruíam as plantações e causavam arruaças.

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Em contrapartida, a presença deles acabava facilitando o trabalho dos druidas, os sacerdotes celtas, de fazer previsões. Profecias eram um abraço quente, acolhedor e necessário no rigoroso inverno que se iniciava – não muito diferente do apego contemporâneo ao horóscopo todo começo de mês.

Como dito anteriormente, os druidas apenas previam, não evitavam ataques de um povo muito mais poderoso e violento que os celtas: os romanos. Em 43, o Império Romano deu início ao domínio de terras batizadas por eles de Britânia. Nos séculos seguintes, os costumes celtas acabaram se misturando aos romanos.

Feralia é uma festa romana que celebrava a partida dos mortos, e era realizada no final de outubro, naturalmente se aclimatou no norte e deu novas cores ao samhain. Outra festividade incorporada pelos nortenhos celebrava Pomona, a deusa dos pomares, cujo a simbologia da maça explique, em partes, a antiga brincadeira de pegar maçãs com a boca.

As terras dos povos Celtas seguiram sendo um lugar distante do centro do poder até que o Império Romano se dividiu e, ao oeste, foi pulverizado. No dia 13 de maio de 609, a Ingreja Católica mandava e desmandava. O então papa, Bonifácio IV, oficializou um costume que antigos cristãos no Oriente já estavam acostumados a realizar: honrar os mártires.

E para deixar esse recado bem claro, o papa decidiu pegar um antigo templo romano, o Panteão, para dedicar àqueles que morreram por Jesus. Logo, o templo de todos os deuses romanos passou a ser o templo dos mártires.

Mais tarde, o papa Gregório III decidiu expandir a festividade a todos os santos, mudando a data para 1º de novembro. No ano 1000, a Igreja criou mais uma data para essa sequência de festividades. Sendo assim, nascia o 2 de novembro, data criada para honrar os mortos.

A escolha estratégica foi uma ideia de substituir o samhain nas ilhas celtas, onde a palavra de Jesus dava os primeiros sinais de se firmar. Assim, as paradas, fogueiras e fantasias de santos e demônios do samhain acabariam sendo incorporadas por outra celebração, sancionada por Roma.

Agora, a Igreja tinha um dia para todos os santos e outro para todas as almas, que no Brasil é chamado Dia de Finados. Ambos pegaram, mas o 2 de novembro não eliminou o 31 de outubro, apenas o fez mudar de nome e se adaptar. O Dia de Todos os Santos era chamado, em inglês, de “All-hallows”. A noite da véspera era, portanto, “All-hallows Eve”. Com o passar dos tempos o termo mudou e acabou virando “Halloween”.

Já na segunda metade do século 19, os Estados Unidos, já colonizados por cristãos das antigas terras celtas, receberam imigrantes vindos da Irlanda, que na época sofriam com a crise de fome. Na bagagem os irlandeses levaram roupas e o costume ancestral do Halloween.

Nas décadas seguintes a festa acabou ganhando novos contornos. O gesto de pedir comida ou dinheiro no dia de todas as almas na Inglaterra, em troca de oração para os mortos da família, acabou originando no “gostosuras ou travessuras”.

Ao mesmo tempo, o senso de comunidade tirou espaço do medo real de fantasmas. Na virada para o século 20, o Halloween já tinha perdido grande parte do caráter supersticioso. As máscaras e fantasias, que serviam para enganar os espíritos, viraram uma brincadeira para enganar um vizinho desatento. Deixar comida na porta de casa, que servia para afastar os fantasmas do lar, virou uma forma de interação entre a comunidade

Mas, tudo isso nos Estados Unidos. Outros povos comemoram as festividades à sua maneira. No México, o dia dos mortos, tradição anterior à colonização espanhola, ganhou elementos cristãos e segue ainda hoje firme como uma das festas mais famosas do mundo.

Os austríacos decoram túmulos de entes queridos com lanternas. Filipinos cantam de casa em casa pelas almas do purgatório. Chineses queimam pequenos botes de papel. Brasileiros levam flores ao cemitério, aproveitam o feriadão para pegar trânsito na estrada e, mais recentemente, incorporaram o Halloween americano – algo que não é exclusivo. Até a França, tão protetora da cultura local, começou a adotar a festa da abóbora decorada nos anos 90.

O Halloween, Dia de Todos os Santos e Dia de Finados são evoluções de festividades realizadas por diversos povos, que aproveitavam as mudanças das estações para se lembrar de como a vida passa rápido e que devemos honrar os mortos, sempre. Por mais que a origem tenha se desvanecido na história, não somos tão diferentes dos os celtas que faziam festa quando o calor dava lugar ao frio.

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