País flerta com descalabro na saúde e na economia ao não conter o vírus

Postado em: 05-03-2021 às 23h59
Por: Sheyla Sousa
Confira a coluna Econômica, por Lauro Veiga, deste fim de semana (6 e 7/3)

O
avanço descontrolado da pandemia, com projeções oficiais indicando que o total
de mortos poderá alcançar 3,0 mil por dia ainda neste mês, deverá derrubar a
atividade econômica neste primeiro trimestre do ano, levando a novo agravamento
do desemprego e minando as possibilidades de alguma retomada no trimestre
seguinte. Parece duvidoso, até aqui, que o tímido auxílio emergencial recentemente
aprovado possa compensar os efeitos da crise humanitária como ocorreu em 2020.
Basta lembrar que o valor previsto, perto de R$ 44,0 bilhões, a serem pagos
entre março e junho, equivale a menos de um mês do auxílio pago no ano passado.
Além disso, desta vez, não estão programados novos programas de apoio a
empresas, que, por consequência, têm se tornado um foco de resistência às
medidas necessárias para contenção da pandemia.

Os
movimentos orquestrados por terraplanistas e seus seguidores contra o
distanciamento social e a suspensão das atividades em setores não essenciais
vão se mostrar inócuos em medida inversa à escalada do número de casos e de
mortes. O motivo parece óbvio, para alguns ao menos: o colapso antecipado do
sistema de saúde tende a levar a uma paralisação forçada e ainda mais dramática
da economia do que um distanciamento planejado, que poderia ainda evitar um
desastre mais completo. Para ser mais claro, para aqueles que não demonstram
empatia maior em relação ao desastre humanitário a transcorrer diante dos olhos
de todos, a ausência dessas medidas (e não sua aplicação) torna-se, neste
momento, a maior ameaça às empresas e aos seus negócios,

Como
analistas, consultores e assessores da equipe econômica pretendem manter a
atividade econômica com caos na saúde, falta de UTI e mortes aos milhares sem
nenhuma coordenação e zero planejamento nas duas pontas, na economia e na
saúde? Com as tais reformas? Ainda que respeitassem os legítimos interesses do
País, tivessem mérito e propósito, seus efeitos apenas começariam a ser
percebidos a médio ou no longo prazo. O Brasil precisa de medidas urgentes que
este desgoverno já deu mostras suficientes de ser incapaz de pensar e executar.

Timidez na
indústria

A
produção industrial iniciou o ano com alguma expansão, mas em nítida
desaceleração, observa o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial
(Iedi). Alguns indicadores antecipam um mês de fevereiro até mais complicado,
num momento em que a crise sanitária ainda não havia entrado em sua pior fase. Um
quinto do crescimento de 2,0% registrado pela indústria em janeiro, comparado
ao mesmo mês de 2020, veio do setor de veículos, que havia experimentado alta
de 4,8% no mesmo período, conforme dados da pesquisa mensal sobre a produção
industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em
fevereiro, agora tomando emprestado os números da Associação Nacional de
Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção caiu 3,5% frente a
igual período do ano passado, saindo de 20,206 mil unidades para 197,035 mil.
Para deixar anotado, a produção no segundo mês deste ano apresentava retração
de 23,6% em relação a fevereiro de 2019.

Balanço

·  
Na
saída de dezembro de 2020 para janeiro de 2021, a produção registrou variação
de apenas 0,4% (metade da taxa observada entre novembro e dezembro do ano
passado). “Em janeiro de 2021, a indústria continuou se expandindo, mas sem
evitar razoável desaceleração, em função de um quadro econômico mais
desafiador, com o aumento de casos de Covid-19, fim dos programas emergenciais
e níveis muito altos de desemprego. (…) Foi um início de ano que pode ser
considerado fraco”, registra o Iedi.

·  
A
transição de taxas mais encorpadas em agosto, setembro, outubro, novembro e
dezembro (com altas, pela ordem, de 3,4%, 2,8%, 1,0% 1,1% e 0,8%), mas já com
algum desaquecimento, para uma variação bem mais modesta em janeiro deste ano,
sinaliza “um movimento de acomodação no dinamismo industrial”.

·  
Um
complicador adicional, observa ainda o instituto, veio na forma de uma redução
no número de segmentos da indústria com taxas positivas em janeiro. O Iedi
lembra que 17 setores chegaram a apresentar crescimento em dezembro, número
reduzido para 11 em janeiro deste ano, ou seja, “menos da metade da indústria”.

·  
Na
comparação com o mesmo período do ano passado, a indústria de bens de capital,
que fabrica máquinas, equipamentos, guindastes, caminhões, ônibus, computadores
e softwares, entre outros utilizados para produzir bens finais, foi o destaque,
com salto de 17,0% em relação a janeiro de 2020. O aumento foi puxado pelo
salto na fabricação de bens de capital destinados aos setores da construção e
da agricultura, com altas de 59,7% e de 26,0%.

·  
O
desempenho veio na sequência de resultados muito negativos, já que a produção
do setor, por conta da pandemia, havia despencado 38,5% e 10,3% no segundo e no
terceiro trimestres do ano passado (comparados aos mesmos intervalos de 2019).
Desde o seu melhor momento, verificado em setembro de 2013, persiste uma queda
de 21,1% na produção de bens de capital no País.

·  
Pelos
dados do Produto Interno Bruto (PIB), o investimento encerrou 2020 com ligeira
alta de 0,8%. A produção de bens de capital entra na conta do investimento e,
muito obviamente, sua evolução influencia nos resultados consolidados do setor
nas contas nacionais (quer dizer, no PIB). Essa variação, observaSílvia Matos,
coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getúlio Vargas (Ibre/FGV), foi influenciada pela entrada no País de plataformas
de petróleo. “A partir dos indicadores de comércio exterior do Ibre, calculamos
que sem as plataformas a queda dos investimentos seria de 8%”, estima a
economista.

·  
Ao
contrário do que ocorreu após a recessão anterior, entre 2015 e 2016, o
comportamento do investimento sofreu ainda a influência de uma recuperação mais
rápida do que a usual no setor da construção civil.

 

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