Assessores de Gabriel Monteiro eram usados para gravar adversários em vídeos para o YouTube, diz ex-funcionário

Postado em: 07-04-2022 às 17h44
Por: Augusto Diniz
O ex-assessor parlamentar Vinícius Hayden Witeze disse em depoimento à Polícia Civil que fazia parte do grupo que registrava políticos escolhidos pelo então chefe Gabriel Monteiro (foto) para usar os vídeos no YouTube e ganhar retorno financeiro com o conteúdo | Foto: Reprodução/TV Globo

O ex-assessor parlamentar Vinícius Hayden Witeze, que trabalhava no gabinete do vereador Gabriel Monteiro (PL), do Rio de Janeiro, disse em depoimento à Polícia Civil que fazia parte de um grupo de servidores do parlamentar que, a mando de Gabriel, investigava pessoas escolhidas para gravar vídeos que eram usados no canal de YouTube. De acordo com Witeze, o conteúdo deveria agradar o público do vereador na plataforma de vídeos para render uma boa monetização das publicações.

Witeze é um dos sete alvos de mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça cumpridos nesta quinta-feira (7/4) em operação da 42ª Delegacia de Polícia do Rio, no Recreio dos Bandeirantes. Um dos investigados é o vereador Gabriel Monteiro, que teria dado a ordem para o ex-funcionários e outros servidores do gabinete investigarem políticos adversários do parlamentar do PL, como deputados estaduais, secretários municipais e do governo fluminense.

Um dos vídeos citados por Witeze que deram a Gabriel Monteiro grande visibilidade, inclusive na imprensa, foi uma das gravações feitas pelo grupo que investigava adversários do parlamentar. O ex-assessor citou as imagens que mostram o vereador enquanto ele aborda o coronel Íbis Souza Pereira e insinua que o oficial tinha algum tipo de relação com traficantes de drogas. Além disso, no vídeo, Monteiro alega que o militar teria feito parte de evento realizado no Complexo da Maré, que fica na Zona Norte do Rio. O vídeo foi divulgado em março de 2020.

De acordo com o depoimento de Witeze, o vídeo com o coronel Íbis Souza Pereira fez Gabriel Monteiro ter um crescimento considerável em seguidores nas redes sociais e no número de visualizações de seus vídeos no YouTube, o que teria garantido ao vereador um alto retorno financeiro com o sistema de monetização da plataforma.

O “novo coronel Íbis”

A partir desse vídeo, Gabriel Monteiro teria ficado sempre a procura de um “novo coronel Íbis” para lucrar com as visualizações no YouTube. A próxima ordem do vereador, de acordo com o investigado, foi investigar a secretária municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, Laura Carneiro, o ex-titular da Secretaria Estadual de Saúde fluminense, Edmar Santos, e o deputado estadual Gustavo Schimidt. O vereador queria que o grupo de assessores de seu gabinete encontrasse algo que tivesse potencial midiático para ser usado contra os investigados de Gabriel Monteiro.

A ordem para investigar e gravar o deputado estadual Gustavo Schimidt chegou para Witeze por meio de mensagem no WhatsApp, contou em depoimento o ex-assessor. O antigo funcionário de Gabriel Monteiro disse na delegacia que o vereador raramente ia ao gabinete na Câmara do Rio. De acordo com Witeze, os funcionários do parlamentar trabalhavam exaustivamente, sem direito respeitado o horário de expediente ou intervalo para almoço ou lanche.

No depimento, Witeze afirmou que Gabriel Monteiro não autorizava que os servidores de seu gabinete a almoçar. Do grupo de “investigação”, o vereador cobrava a publicação diária de vídeos, o que garantia uma monetização no YouTube que chegava a R$ 300 mil por mês.

Violência sexual

Ao ser perguntado sobre as denúncias de crimes sexuais supostamente cometidos pelo vereador, Witeze disse que o parlamentar fazia brincadeiras, inclusive dizia que abriria uma creche. O ex-assessor de Gabriel Monteiro afirmou que festas com orgia eram comuns na casa do parlamentar. A maioria das convidadas tinha menos de 18 anos, descreveu o ex-funcionário no depoimento.

Witeze declarou que Gabriel Monteiro transava com as adolescentes nas festas realizadas na residência do vereador. E relatou que, em uma das ocasiões, viu uma das garotas sair da casa do parlamentar enquanto chorava, o que, para o investigado, aparentava sinais possível vítima de estupro.

O depoente afirmou à Polícia Civil que recebeu no WhatsApp dois vídeos pornográficos nos quais apareciam duas meninas enquanto mantinham relações sexuais enviados pelo vereador. Ele também relatou que Gabriel Monteiro tinha o hábito de mostrar imagens com cenas íntimas para servidores e seguranças para contar vantagem.

Buscas

A casa de Gabriel Monteiro, assim como seu gabinete na Câmara do Rio, foram alvo de busca e apreensão na manhã de hoje. A Polícia Civil cumpriu também mandados nas residências de assessores e ex-parlamentares do vereador, o que incluiu o investigado que prestou depoimento. Empresários ligados a Gabriel Monteiro estão entre os alvos da operação. O parlamentar é investigado por suspeitas de estupro, assedio moral, sexual, transar com adolescentes e enviar vídeos com cenas de sexo que envolvem menores.

O juiz Gilherme Grandmasson Ferreira Chaves, do plantão da Justiça do Rio, autorizou a apreensão de material que possa ter indício de relação com os crimes investigados pelo delegado Luís Armond, da 42ª Delegacia de Polícia carioca. Entre os itens que podem ser apreendidos na operação estão computadores, laptops, celulares, tablets, kindles, smartphones, HDs, pendrives, CDs e DVDs. Também foram alvo das buscas e apreensões Heitor Monteiro de Narazé Neto, Matheus Souza de Oliveira, Fábio Neder Fernandes Di Leta, Rick Mamede Dantas e Rafael Sorrilha.

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