Assassinato de jornalista Givanildo Oliveira a tiros no Ceará assusta profissionais de imprensa

A Polícia Civil no Ceará ainda não deu detalhes das investigações que poderiam explicar motivos e autores da morte

Postado em: 10-02-2022 às 10h29
Por: Stéfany Fonseca
A Polícia Civil no Ceará ainda não deu detalhes das investigações que poderiam explicar motivos e autores da morte | Foto: Reprodução

O assassinato a tiros de Givanildo Oliveira, de 46 anos, interrompeu a publicação de notícias do bairro em que morava e que inspirou o nome de seu site, “Pirambu News”, em Fortaleza, capital do Ceará. Um bairro na região praieira que perdeu um veículo independente quando Givanildo foi morto a tiros enquanto caminhava pelo bairro. O crime é um mistério. 

O caso reacende o debate sobre a violência contra jornalistas no Brasil. O documentário “Boca Fechada”, lançado recentemente em uma plataforma de streaming, mostra a violência contra os comunicadores no Brasil. A produção aponta que 64 comunicadores foram assassinados no Brasil entre 1995 e 2018 devido a profissão. 

Embora tratado como blogueiro, influencer ou apenas comunicador, Givanildo ocupava o legítimo papel de jornalista em sua região para contar o que acontecia nas ruas de sua cidade. Segundo sites locais, a morte teria sido motivada após a publicação sobre a prisão de um criminoso do bairro.

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Um relatório divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em janeiro aponta um aumento de 0,47% de casos em 2021, comparados com o ano anterior. O número alerta para a manutenção da violência. Em 2020, foram 428 casos.

A censura e o descrédito à imprensa foram as violências mais recorrentes. Dos 430 casos, 140 foram de censuras, sendo 138 praticadas dentro da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Na sequência aparecem 131 casos que desqualificam a informação jornalística. Ainda de acordo com o relatório, o presidente Jair Bolsonaro foi o responsável pela maioria dos ataques à imprensa, foram 129 episódios.

Os números são alarmantes. Segundo a presidente da Fenaj, Maria José Braga, esses assassinatos estão ligados ao impedimento da livre circulação de informação. A descredibilização da imprensa também é evidente. “Nós associamos claramente a partir de 2019 com o crescimento da extrema direita e a ascensão do presidente Jair Bolsonaro”, disse ela ao jornal O Hoje.

Repórter investigativo e um dos mais premiados do Ceará, Melquíades Júnior, afirma ao jornal O Hoje que o caso é preocupante. “Não importa se é um blog, se é uma emissora de rádio ou um grande veículo de comunicação. Mas trata-se de um profissional de comunicação”. Para o jornalista, existe uma deficiência enorme na cobertura da violência na periferia e o veículo de Givanildo Oliveira tapava esse buraco. “Esses veículos locais, independentes, têm lições fundamentais. A morte dele foi uma tentativa de silenciar um profissional que mostrava as mazelas. Tudo isso por ocupações de territórios por milícias, traficantes ou até mesmo aparato armado do Estado, que deveria também chegar à economia”, descreve. 

Mortes

Com medo de também sofrer retaliações, o “Portal de Fortaleza” divulgou que não faz mais parte da linha editorial do veículo publicar pautas relacionadas a notícias policiais. A decisão foi tomada para “preservar a integridade da equipe de rua” do Portal.

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) condenou o crime. “É inadmissível que um jornalista seja morto ao exercer sua profissão. Também preocupa o grave efeito de tais ataques à democracia, como a suspensão, por parte de um site regional, do noticiário policial, medida adotada pelo Portal Fortaleza para preservar a integridade física de sua equipe”.

Um caso semelhante já aconteceu, em Goiânia, quando o radialista esportivo Valério Luiz, foi morto na porta da então Rádio 820, após o expediente. A denúncia feita pelo Ministério Público, à época, aponta que o assassinato foi motivado pelas críticas de Valério Luiz à diretoria do Atlético. Os envolvidos no crime vão a júri popular no dia 14 de março de 2022.

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