General acusado do atentado no Riocentro e de destruir documentos secretos da ditadura morre aos 97 anos

Newton Cruz comandou o Serviço Nacional de Informações durante o golpe, que durou até 1985. Ele é conhecido na internet por ter mandado um jornalista calar a boca e agredir o profissional no Palácio do Planalto em 1983

Postado em: 16-04-2022 às 18h05
Por: Augusto Diniz
Newton Cruz comandou o Serviço Nacional de Informações durante o golpe, que durou até 1985. Ele é conhecido na internet por ter mandado um jornalista calar a boca e agredir o profissional no Palácio do Planalto em 1983 | Foto: Reprodução

Morreu aos 97 anos o general Newton Cruz na sexta-feira (15/4). Ele estava internado no Hospital Central do Exército, na zona norte do Rio de Janeiro. Sua morte foi confirmada pelo Comando Militar do Leste (CML). Newton Cruz comandou o Serviço Nacional de Informações (SNI) na ditadura militar (1964-1985), foi acusado de participar do atentado a bomba ao Riocentro em 1981 e de destruir mais de 19 mil documentos secretos do regime golpista.

Em nota, o Comando Militar do Leste escreveu que, “neste momento de consternação, os integrantes do CML solidarizam-se e rogam a Deus pelo conforto de familiares e amigos do general Newton Cruz”. O militar era contrário ao processo de abertura dos arquivos da ditadura. Foi um dos poucos integrantes de alta patente a ser acusado por crimes cometidos durante o período de 1964 a 1985.

Newton Cruz e mais cinco militares foram acusados do atentado a bomba ao Riocentro em 1981. A intenção da ditadura era estourar bombas durante evento do Dia do Trabalho em um centro de convenções na zona oeste do Rio de Janeiro e botar a culpa na oposição aos militares no poder. Só que o artefato explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu.

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Incialmente, a Justiça Militar culpou movimentos de esquerda pela morte do militar, ainda em 1981. Até hoje, mesmo com a mentira inventada pela ditadura revelada, ninguém foi punido. Em 1999, o general Newton Cruz foi acusado de falso testemunho na Justiça Militar. Depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu encerrar o caso.

Cruz foi acusado novamente em 2014, desta vez na Justiça Federal, por tentativa de homicídio doloso, associação criminosa, transporte de explosivos e favorecimento pessoal. Mas o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) entendeu que o crime já tinha prescrito.

Acusação pelo caso Riocentro

O Ministério Público Federal (MPF) acusou Newton Cruz de ter sido o coautor do atendado a bomba no Riocentro por não ter agido para evitar a tentativa dos militares de explodir bombas no evento de celebração ao Dia do Trabalho. Na denúncia, o MPF indiciou o general por ter conhecimento do plano e, mesmo assim, ter preferido se omitir da responsabilidade de evitar que pessoas fossem feridas ou morressem.

Newton Cruz assumiu em entrevista, ainda em 2014, que foi avisado duas horas antes que os militares deixariam a sede do Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio com a intenção de explodir uma bomba no Riocentro. À Folha de S.Paulo, o general afirmou que nada fez por achar que o atentado seria na casa de força do centro de eventos carioca e que estava em Brasília, na sede do SNI, o que o impediria de fazer qualquer coisa. Mas foram duras bombas. A segunda foi a que estourou no colo do sargento. Cruz disse que só sabia do plano para a primeira explosão.

“Em 30 de abril de 1981, era noitinha, mais ou menos 19 horas, o coronel Ary [Pereira de Carvalho], que era meu chefe de operações, recebeu um telefonema do Rio. O [capitão Freddie] Perdigão foi ao DOI [Codi] saber se havia alguma novidade. Quando chegou, viu um grupo que estava planejando partir para o Riocentro a fim de jogar uma bomba para marcar presença. Seria um protesto contra o que estava se passando lá. O Ary saiu dali: ‘Chefe, eu acabei de receber um telefonema’. Quando ele contou, eu raciocinei até dez. O que fazer? Avisar a quem?”

Newton Cruz chegou a afirmar na entrevista de 2014 que foi “escalado o bode expiatório” do golpe de 1964, que ele chamou de “revolução”. “Não havia nem celular nessa época. A bomba da casa de força não tinha possibilidade de prejudicar ninguém. Tanto que não foi nem ouvida no auditório. Foi um ato de presença. Não ia fazer nada.”

Morte de jornalista

Cruz também foi acusado de matar o jornalista Alexandre van Baumgarten, a esposa Jeanette Hansen e o banqueiro Manoel Valente em 1983. Baumgarten, sócio da revista O Cruzeiro, teria revelado a suspeita de lavagem de dinheiro no SNI por meio de um dossiê. O general foi absolvido na Justiça.

Responsável por destruir mais de 19 mil documentos secretos da ditadura militar produzidos pelo SNI, o general chamado de Nini disse que “não se deve falar mais nisso”. “Vão achar papéis esparsos, se houver alguma coisa ainda, o que conduzirá a coisas erradas e a generalizações. Se aparecer alguma coisa, não vai esclarecer a história, vai confundir a história”, disse em entrevista à Folha.

Constavam nos documentos informações de relatórios sobre pessoas como o arcebispo dom Helder Câmara, o poeta João Cabral de Melo Neto, o ex-governador do Rio Leonel Brizola e o poeta Vinicius de Moraes. Entre os papeis destruídos está um que se chamava “Tráfico de Influência de Parente do Presidente da República”, que tratava do ex-presidente da ditadura Emílio Garrastazu Médici, que ficou no poder de 1969 a 1974.

Candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PSD em 1994, Newton Cruz recebeu aproximadamente 874 mil votos e ficou na terceira posição. Para o general, tudo que ocorreu na ditadura era “de acordo com a lei da época”. “O SNI existia para assessorar o presidente da República na política do governo. É um órgão de informação, e a informação nascia de um processamento doutrinariamente resolvido. Ele cumpriu o papel dele e terminou aí”.

Nas redes

Nas redes sociais, as imagens do general agredindo um repórter ao vivo em dezembro de 1983, já nos anos finais da ditadura militar. Em diversas ocasiões, o presidente Jair Bolsonaro (PL) repetiu as agressões verbais do general Newton Cruz a jornalistas, quando mandou o repórter “calar a boca” há 38 anos.

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