sexta-feira, 2 de outubro de 2026
CONSUMO E EXCLUSÃO

Junho Verde expõe dilema do consumo consciente em um país com fome

Enquanto produtos sustentáveis seguem inacessíveis para milhões em situação de pobreza, campanha ambiental escancara a urgência de integrar justiça social à agenda ecológica

Luana Avelarpor em
Junho Verde expõe dilema do consumo consciente em um país com fome

Celebrado como o mês da conscientização ambiental, o Junho Verde tem como objetivo mobilizar a sociedade em torno de práticas mais sustentáveis. A proposta, que inclui ações de educação ambiental, estímulo ao consumo consciente e preservação dos recursos naturais, encontra forte adesão entre empresas e instituições. No entanto, no Brasil de 2025, onde mais de 62 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar, a sustentabilidade ainda é privilégio de poucos.

Com o crescimento do mercado verde, alimentos orgânicos, vestuário ecológico, produtos biodegradáveis e veículos elétricos se tornaram sinônimos de uma nova ética de consumo. No discurso, a responsabilidade ambiental ganha contornos de dever cívico. Na prática, no entanto, a possibilidade de escolha está condicionada à renda. Sem dinheiro para garantir refeições básicas, grande parte da população consome o que cabe no orçamento — sem margem para considerar a pegada ecológica do que leva à mesa.

O paradoxo está no centro de uma crítica cada vez mais frequente: não se pode responsabilizar populações empobrecidas por não aderirem a práticas ambientalmente corretas. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a erradicação da pobreza é o primeiro passo entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A razão é simples: a sobrevivência imediata anula qualquer possibilidade de escolha crítica.

Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) apontam que, em 2023, cerca de 30% dos domicílios brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Nesse cenário, comprar alimentos livres de agrotóxicos ou apoiar marcas com responsabilidade ambiental torna-se inviável. A busca não é por selos verdes, mas por comida.

A exclusão econômica impacta também a mobilidade urbana, o acesso à energia limpa e os hábitos de consumo. Produtos com apelo ecológico, como itens biodegradáveis ou de menor emissão de carbono, continuam sendo vendidos a preços incompatíveis com a realidade da maioria. Estudo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), publicado em 2024, mostrou que alimentos orgânicos chegam a custar até 300% a mais que os convencionais, o que os torna inacessíveis para boa parte dos consumidores.

“Sustentabilidade é essencial para garantir qualidade de vida, mas não há justiça social, tampouco ambiental, quando se acumula capital à custa dos ecossistemas, enquanto a pobreza segue exposta à doença e à violência nos espaços de convívio”, afirma a gestora ambiental Sandra Oliveira Santos. Para ela, a ideia de um futuro verde perde força quando não contempla também quem ainda não tem o que comer hoje.

No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e os debates sobre ESG tentam alinhar responsabilidade ambiental e inclusão social, mas os efeitos ainda são localizados. A ausência de medidas estruturantes mantém o discurso ecológico distante da vida da maioria. Como destacou o Programa Mundial de Alimentos da ONU em 2023, “não há sustentabilidade possível com desigualdade tão acentuada”.

Enquanto isso, o Junho Verde, ainda que importante para ampliar a discussão, corre o risco de se tornar uma celebração restrita — mais presente nos discursos publicitários das marcas do que na mesa das famílias brasileiras. Sem a democratização do acesso, a consciência ambiental será sempre uma escolha possível apenas para quem pode escolher.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Cine Ferroviário tem programação gratuita com documentário sobre Marília Pêra e sessão infantil

CINEMA

Cine Ferroviário tem programação gratuita com documentário sobre Marília Pêra e sessão infantil

Programação acontece na sexta e no sábado com filmes para diferentes públicos; documentário re�...
Aos 15, João Caetano transforma geladinho em negócio e conta como tudo começou no Manda Vê

Manda Vê COM ELAS

Aos 15, João Caetano transforma geladinho em negócio e conta como tudo começou no Manda Vê

Depois de dois planos frustrados, adolescente encontrou no geladinho a porta de entrada para aprende...
AVC em jovens: hábitos comuns e condições silenciosas aumentam o risco

SAÚDE

AVC em jovens: hábitos comuns e condições silenciosas aumentam o risco

Cerca de 18% dos casos no Brasil atingem pessoas entre 18 e 45 anos; reconhecimento dos sinais e ate...
Horóscopo do dia (01/10): veja as previsões para o seu signo

ASTROS

Horóscopo do dia (01/10): veja as previsões para o seu signo

O primeiro dia do mês pede diálogo, cautela financeira e coragem para mudar; confira as previsões...
Jabuti 2026 anuncia semifinalistas com Itamar Vieira Junior, Adélia Prado e Contardo Calligaris

68ª edição

Jabuti 2026 anuncia semifinalistas com Itamar Vieira Junior, Adélia Prado e Contardo Calligaris

68ª edição do prêmio literário mais tradicional do Brasil inclui categoria de Cultura Digital c...
Prato variado vale mais que dieta da moda; saiba quais padrões alimentares reduzem a inflamação

SAÚDE E NUTRIÇÃO

Prato variado vale mais que dieta da moda; saiba quais padrões alimentares reduzem a inflamação

Padrão alimentar rico em vegetais, grãos integrais, castanhas, azeite e peixes está associado a m...
Pet pesa no bolso? Veja onde economizar sem colocar a saúde do animal em risco

PRA BANCAR OS LUXOS DO AU-MIGO

Pet pesa no bolso? Veja onde economizar sem colocar a saúde do animal em risco

Organização permite reduzir despesas com banho, brinquedos, roupas e petiscos sem cortar alimenta�...
Horóscopo do dia (02/10): veja as previsões para o seu signo

ASTROS

Horóscopo do dia (30/09): veja as previsões para o seu signo

Entrada de Mercúrio em Escorpião favorece conversas profundas, pesquisas e esclarecimentos, mas ex...