sexta-feira, 7 de agosto de 2026
ALERTA

Risco de surto de sarampo mobiliza Goiás em meio ao aumento de casos no País

Com 21 casos confirmados no Brasil em 2025, sendo 16 no Tocantins, autoridades de saúde intensificam vacinação e vigilância para evitar avanço da doença em Goiás

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em
O sarampo pode evoluir de forma severa em crianças pequenas, levar à pneumonia, sequelas neurológicas e até óbito Foto: Divulgação
O sarampo pode evoluir de forma severa em crianças pequenas, levar à pneumonia, sequelas neurológicas e até óbito Foto: Divulgação

O Brasil registra um aumento preocupante de casos de sarampo em 2025. Até o início de agosto, o Ministério da Saúde confirmou 21 casos da doença, sendo 16 no Estado do Tocantins, dois no Rio de Janeiro, um no Distrito Federal, um em São Paulo e um no Rio Grande do Sul. 

Diante desse cenário, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia emitiu um alerta e reforçou a importância da vacinação como principal medida preventiva, principalmente pela proximidade com áreas de circulação ativa do vírus.

“É uma doença que se espalha pelo ar e a melhor forma de prevenção é a vacina. Por isso, convido todos os goianienses a atualizarem suas cadernetas de vacinação”, enfatiza o prefeito Sandro Mabel. A preocupação aumenta especialmente pela baixa cobertura vacinal em Goiânia. 

De acordo com dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), apenas 83,5% das crianças com 12 meses de idade receberam a primeira dose da tríplice viral. A cobertura da segunda dose, indicada para os 15 meses de idade, é ainda mais baixa: apenas 56,8%. O ideal, segundo o Ministério da Saúde, é alcançar 95% de cobertura vacinal em ambas as faixas etárias.

Para conter a propagação do vírus, a SMS disponibilizou a vacina tríplice viral em todas as salas de vacinação da Capital. A imunização é gratuita e essencial não só para crianças, mas também para adultos e profissionais da saúde. A baixa cobertura vacinal associada à circulação do vírus em Estados vizinhos aumenta o risco de reintrodução do sarampo em Goiás, onde não há casos confirmados desde 2020.

“Diante da circulação ativa do vírus no Tocantins e no Distrito Federal, intensificamos a vigilância em Goiânia e reforçamos a orientação à população. É fundamental que todos estejam com a vacinação em dia para evitar surtos”, afirma Luiz Pellizzer, secretário municipal de Saúde de Goiânia.

Entenda a doença e seus riscos

O infectologista Marcelo Daher explica que o sarampo é um vírus que causa uma doença sistêmica, ou seja, que acomete o corpo inteiro, caracterizada por febre, dor no corpo e uma fase inicial chamada de “fase catarral”, marcada por intensa secreção nasal e tosse. “Costuma ser uma doença autolimitada e benigna na maioria dos casos, mas como tem transmissão muito rápida e fácil, podem ocorrer quadros mais graves, como pneumonia, complicações neurológicas e até óbito”, alerta.

Segundo o médico, os principais sintomas incluem febre alta, manchas avermelhadas pelo corpo, tosse, coriza e conjuntivite. O intervalo entre a infecção e o surgimento dos sintomas varia de 7 a 15 dias, sendo mais comum em torno de uma semana. “As sequelas do sarampo não são muito comuns, mas podem acontecer complicações graves, especialmente em crianças pequenas e pessoas não vacinadas”, reforça.

A transmissão é feita de pessoa para pessoa, principalmente a partir de indivíduos não vacinados. Grupos vulneráveis incluem bebês de zero a um ano, que ainda não receberam a vacina — aplicada, em geral, a partir de 12 meses, podendo ser antecipada para seis meses em situações de surto.

A cidade de Campos Lindos, no Tocantins, tornou-se um epicentro recente da doença, com 21 casos notificados, 17 deles já confirmados. Outros municípios tocantinenses como Palmas, Porto Nacional, Araguaína e Gurupi também registraram casos suspeitos e confirmados. A proximidade geográfica e a circulação intensa de pessoas entre os Estados aumentam o risco para Goiás.

 

BR reforça vacinação para evitar retorno da doença e perda de certificação 

O Ministério da Saúde tem adotado diversas medidas para conter a reintrodução do sarampo. Uma das estratégias mais importantes é o reforço da vacinação. A tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para várias faixas etárias. Crianças entre 12 e 15 meses devem receber duas doses. 

Jovens e adultos até 29 anos que não foram vacinados ou têm esquema incompleto devem receber duas doses com intervalo de 30 dias. Pessoas entre 30 e 59 anos precisam de apenas uma dose, e profissionais da saúde, independentemente da idade, devem tomar duas doses.

Em locais de alto risco, como regiões fronteiriças ou com confirmação de casos, o Ministério recomenda a aplicação da chamada “dose zero” para crianças de 6 a 11 meses – uma medida emergencial fora do calendário de rotina.

Além da vacinação, a orientação é que pessoas com sintomas suspeitos de sarampo permaneçam em isolamento por, pelo menos, quatro dias a partir do aparecimento das manchas vermelhas na pele, para evitar a transmissão do vírus. A higiene das mãos, o uso de lenços descartáveis e a limpeza de superfícies também são recomendados.

Goiás, embora ainda não tenha registrado casos em 2025, reforçou as campanhas de imunização em cidades do norte do Estado, como Catalão, que disponibiliza doses em 12 postos de vacinação. Em nível nacional, o Programa Nacional de Imunizações prepara, para outubro, uma grande campanha de multivacinação com foco em crianças e adolescentes.

Marcelo Daher lembra que, apesar de o Brasil ainda manter a certificação de eliminação do sarampo concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a perda desse status é possível se os casos aumentarem. “Estamos vendo surtos importantes em outros países, como nos Estados Unidos, onde já houve mortes. Se não cuidarmos, o número de casos no Brasil pode crescer a ponto de comprometer nossa certificação”, adverte.

Segundo o Ministério da Saúde, os casos confirmados até agora têm ligação com viagens internacionais a países com circulação ativa do vírus, como Bolívia e Argentina. O governo federal, em resposta, enviou equipes técnicas ao Tocantins e intensificou ações de bloqueio vacinal e varredura em comunidades vulneráveis, sobretudo nas fronteiras.

O histórico do Brasil com o sarampo mostra altos e baixos. O País recebeu pela segunda vez, em 2024, o certificado de eliminação da doença pela Opas. Contudo, o risco de novos surtos segue sendo uma ameaça, especialmente devido à queda na cobertura vacinal observada nos últimos anos. Em 2020 e 2021, os índices de vacinação contra sarampo caíram para 75% na primeira dose e pouco mais de 50% na segunda.

Em 2019, o País enfrentou um surto que resultou em mais de 21 mil casos e 16 mortes. Agora, com um número ainda controlado de casos em 2025, a preocupação é evitar a formação de cadeias de transmissão locais.

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