terça-feira, 15 de setembro de 2026
MEIO AMBIENTE

Contaminação no Córrego Sussuapara expõe falhas no tratamento de esgoto em Bela Vista de Goiás

Relatórios da Semad e do projeto AquaCerrado identificaram poluição por esgoto, agrotóxicos e acrilamida, substância potencialmente cancerígena.

Micael Mourapor em
Córrego Sussuapara
Foto: Semad

O Córrego Sussuapara, em Bela Vista de Goiás, foi contaminado por esgoto e substâncias químicas, entre elas agrotóxicos e acrilamida, componente classificado como potencialmente cancerígeno. A poluição foi confirmada por dois relatórios técnicos elaborados em setembro pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e pelo projeto AquaCerrado, que identificaram falhas no tratamento de esgoto do município e resultaram em multa de R$ 2,755 milhões aplicada à Saneago.

Com coletas de amostras realizadas em intervalo inferior a dez dias, os documentos apontaram poluição química e biológica nas águas do córrego, às margens do qual nasceu Bela Vista de Goiás, a cerca de 50 quilômetros de Goiânia.

Substâncias tóxicas e contaminação fecal

Um dos relatórios, desenvolvido pelo projeto Rede de Pesquisa Águas do Cerrado (AquaCerrado), identificou a presença de acrilamida, substância considerada “provavelmente carcinogênica” pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc).

A má qualidade da água, provocada por bactérias, pesticidas e outros contaminantes, foi confirmada nos dois estudos, que analisaram amostras retiradas nas imediações da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Saneago.

O projeto AquaCerrado é conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade Federal de Jataí (UFJ), e foi acionado por ambientalistas que atuam na Bacia do Rio Paranaíba, da qual o Sussuapara é afluente do Rio Piracanjuba. Desde agosto, a Associação SOS Rio Piracanjuba e o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental (Idesa) investigam denúncias de mudanças na cor e no odor da água, especialmente nas proximidades da ETE.

Contaminação
Foto: Semad

Resultados das análises

As coletas ocorreram em 6 de setembro, em sete pontos distintos — urbanos, rurais e de preservação — e em duplicata, abrangendo áreas acima e abaixo da estação de tratamento. Os exames microbiológicos e químicos já foram concluídos; o de ecotoxicidade segue em andamento.

O relatório do AquaCerrado aponta coliformes totais em todas as amostras, indicando contaminação fecal generalizada. Em quatro pontos, foi detectada Escherichia coli, o que sugere poluição recente por esgoto doméstico. Os níveis mais altos ocorreram em trechos próximos à zona urbana e à ETE, evidenciando falhas no processo de depuração.

Também foi detectada a presença de agrotóxico 2,4-D acima do limite legal — substância associada a riscos neurológicos e renais. O laudo ainda destacou bactérias heterotróficas, indicativas de acúmulo de matéria orgânica e deficiências no tratamento.

“Mesmo pequenas quantidades de coliformes termotolerantes já são sinal de contaminação e representam risco à saúde”, destaca o relatório.

Espuma e índices fora do padrão

O relatório da Semad foi produzido após denúncia sobre formação de espuma no córrego. A fiscalização, realizada em 15 de setembro, incluiu quatro pontos de coleta — antes e depois do lançamento da ETE, além de amostras do esgoto bruto e do efluente tratado.

O documento confirmou a presença de espuma no ponto de lançamento e valores acima do permitido para E. coli e Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), indicador do nível de matéria orgânica na água.
Segundo a análise, a DBO foi quatro vezes superior ao limite legal, demonstrando sobrecarga de poluição.

Os técnicos ressaltam que o problema é agravado pela estiagem, quando o córrego tem menor capacidade de recuperação natural, e alertam para riscos à fauna aquática, à qualidade da água e à saúde da população.

Na conclusão, a Semad aponta “não conformidade nos lançamentos da ETE operada pela Saneago”, em desacordo com padrões ambientais. O laudo destaca que podem existir outras fontes de contaminação, mas cobra ação imediata da companhia e acompanhamento rigoroso da secretaria para evitar agravamento da situação.

O que diz a Saneago

Em nota enviada ao Jornal O Hoje, a Saneago afirmou que não utiliza acrilamida no processo de tratamento de esgoto em Bela Vista de Goiás. Segundo a empresa, o sistema local funciona por lagoas de estabilização, que utilizam processos biológicos naturais — como a ação de microrganismos, algas e luz solar — para decompor a matéria orgânica de forma “eficiente, econômica e sustentável”.

A companhia ressaltou que o parâmetro “acrilamida” não é exigido para análise da qualidade do efluente tratado nem do corpo receptor, na classe em que o Córrego Sussuapara se enquadra.

De acordo com a Saneago, os resultados a montante (antes) do lançamento foram superiores aos de jusante (depois), o que indicaria ausência de relação direta entre a ETE e a substância identificada, além de sugerir fontes de poluição difusa.

A empresa informou que a ETE opera “dentro dos parâmetros estabelecidos pelos órgãos ambientais”, com monitoramento contínuo da qualidade do efluente bruto e tratado. Também afirmou que realiza análises periódicas do córrego antes e depois do ponto de lançamento, e que os resultados “demonstram que o corpo hídrico possui capacidade de absorver o efluente tratado sem causar impacto significativo”.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Contaminação TRATAMENTO DE AGUA

Veja também

Cármen Lúcia diz estar em “profunda tristeza” com crise no STF

Judiciário

Cármen Lúcia diz estar em “profunda tristeza” com crise no STF

Cármen Lúcia pede desculpas ao povo durante sessão sobre Moraes
Rodovia em Goiás terá radar que calcula velocidade média; entenda

TIRE O PÉ DO ACELERADOR!

Rodovia em Goiás terá radar que calcula velocidade média; entenda

Sistema será testado em trechos da BR-414 durante pelo menos seis meses e observará a velocidade m...
RH

publieditorial

Como um sistema de RH pode transformar as rotinas administrativas do departamento?

Centralização de informações, automação de tarefas e integração entre processos alteram a fo...
Polícia mira esquema de notas falsas ligado a supermercados de Jataí

OPERAÇÃO POLICIAL

Polícia mira esquema de notas falsas ligado a supermercados de Jataí

Operação mira esquema que teria causado prejuízo de R$ 23 milhões em Goiás
Centro de Goiânia recebe 4ª promessa de revitalização em dois anos

REVITALIZAÇÃO

Centro de Goiânia recebe 4ª promessa de revitalização em dois anos

Prefeitura protocola plano para recuperar fachadas de 34 prédios na Rua 3, mas projeto ainda depend...
adolescente

JUSTIÇA

Justiça marca audiência de caso envolvendo adolescente que atropelou casal em Goiânia

Sessão está marcada para 30 de setembro e terá a oitiva de uma testemunha; adolescente está inte...
Greve chega ao fim e administrativos da Educação voltam ao trabalho em Goiânia

PROPOSTA ACEITA!

Greve chega ao fim e administrativos da Educação voltam ao trabalho em Goiânia

Categoria aprovou proposta da Prefeitura após 21 dias de paralisação; atividades serão retomadas...
Operação investiga rede de supermercados por sonegação de mais de R$ 23 milhões em Jataí (GO)

Crédito fantasma

Operação investiga rede de supermercados por sonegação de mais de R$ 23 milhões em Jataí (GO)

Polícia Civil apura uso de empresas de fachada para emissão de notas fiscais e obtenção irregula...