Setor Sul em Goiânia tem história marcada por mudanças no projeto original
Planejado sob o modelo de cidade-jardim, bairro teve áreas verdes afetadas por obras viárias e passou por esvaziamento residencial e expansão comercial
O Setor Sul, em Goiânia, passou por transformações urbanísticas desde sua concepção, na década de 1930, quando foi planejado sob a influência do modelo anglo-saxão de cidades-jardim. Ao longo de nove décadas, o bairro teve áreas verdes afetadas por intervenções viárias, passou por um processo de esvaziamento residencial e ampliou a presença de estabelecimentos comerciais e de serviços. Atualmente, medidas de proteção urbanística e iniciativas comunitárias buscam preservar as características históricas da região.
A história do Setor Sul está relacionada à fundação de Goiânia. A pedra fundamental da capital foi lançada em 24 de outubro de 1933 pelo interventor federal Pedro Ludovico Teixeira. O arquiteto Attílio Corrêa Lima foi contratado para projetar a cidade e concebeu a zona sul como um subúrbio residencial de baixa densidade, com traçado retilíneo adaptado à topografia local. O projeto seguia princípios do urbanismo funcionalista, associados à Carta de Atenas. Desentendimentos relacionados às pressões imobiliárias levaram à saída do urbanista em 1935.
A coordenação das obras passou pelo escritório Coimbra Bueno & Cia. Ltda., liderado pelos engenheiros Jerônymo e Abelardo Coimbra Bueno. A empresa convocou o engenheiro-urbanista Armando Augusto de Godoy como consultor técnico. Entre 1935 e 1937, Godoy reformulou o projeto do Setor Sul com referências ao conceito de cidade-jardim, desenvolvido por Ebenezer Howard, e ao modelo de Radburn, concebido por Clarence Stein, nos Estados Unidos, em 1929.
O novo desenho adotou traçado orgânico, ruas sem saída e quadras irregulares. O plano previa a separação entre o tráfego de veículos e a circulação de pedestres. As residências deveriam ter duas frentes: uma voltada para as vias de automóveis e outra aberta para parques coletivos internos às quadras.
O projeto reservou 564.298 metros quadrados para áreas verdes públicas, equivalentes a 17,33% da área total do bairro e a aproximadamente 14,72 metros quadrados por habitante. Os espaços foram distribuídos em 28 áreas verdes internas às quadras, destinadas ao convívio comunitário e à instalação de escolas, equipamentos culturais e estruturas de lazer.
A estrutura viária foi organizada em formato radioconcêntrico. As avenidas 83, 84 e 85 convergiam para o centro administrativo, na Praça Cívica, enquanto a Praça Germano Roriz, conhecida como Praça do Cruzeiro, funcionava como outro ponto de articulação urbana.
Ocupação e falta de infraestrutura
O Setor Sul foi oficializado pelo Decreto-Lei nº 90-A, de 30 de julho de 1938. A planta do bairro foi utilizada pelo governo estadual e pela empresa Coimbra Bueno como instrumento de divulgação da nova capital e de atração de investidores para a compra de lotes. Apesar disso, o setor foi definido como uma reserva de terras suburbana, cuja ocupação e infraestrutura deveriam ser liberadas após os setores Central e Norte atingirem 15 mil habitantes.
Em 1947, o Decreto-Lei nº 574 ampliou a zona urbana de Goiânia e permitiu a comercialização de loteamentos privados. Diante da crise habitacional e do fluxo migratório, proprietários pressionaram o governo, e a ocupação do Setor Sul foi autorizada formalmente em 1950.
A implantação do bairro, no entanto, ocorreu sem a infraestrutura básica prevista. Durante as décadas de 1950 e 1960, faltavam pavimentação, abastecimento de água e saneamento. Trabalhadores e migrantes sem recursos formaram ocupações informais nas margens do Córrego Botafogo, no limite leste do setor. Os parques internos às quadras também não receberam a urbanização e os equipamentos previstos, permanecendo como terrenos baldios cobertos pela vegetação.

Como ST Sul se transformou ao longos das décadas
O crescimento de Goiânia em direção à região sul transformou o Setor Sul em um ponto de circulação metropolitana. Em 1957, a construção do Conjunto Lar Brasileiro motivou o primeiro convênio para pavimentação asfáltica da Rua 84. No ano seguinte, estudos conduzidos pelo topógrafo Ewald Janssen promoveram alterações no traçado do bairro, incluindo o alargamento e o realinhamento da Rua 90 para conectar o setor ao Setor Pedro Ludovico.
A transferência do controle do solo urbano do Estado para a Prefeitura de Goiânia foi formalizada pelo Decreto Estadual nº 164, de 1961, concedendo ao município autonomia para administrar o zoneamento. O Plano de Desenvolvimento Integrado de Goiânia (PDIG), de 1969, e a Lei nº 4.523, de 1972, buscaram manter o Setor Sul como zona estritamente residencial, mas o crescimento urbano alterou essa dinâmica.
Na década de 1970, o bairro foi escolhido como área-piloto do Projeto Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada (CURA), financiado por recursos federais do Banco Nacional da Habitação (BNH). Implementada entre 1977 e 1978, a iniciativa previa melhorias na infraestrutura de áreas centrais subaproveitadas, incluindo pavimentação de vias e implantação de praças. A execução parcial e a falta de adesão comunitária, porém, não reverteram a degradação das áreas verdes internas às quadras.
Outras intervenções modificaram a configuração urbana do setor. Projetada na década de 1970, a Avenida 136 foi aberta para conectar a região sudoeste ao Estádio Serra Dourada, construído entre 1973 e 1975, e ao Jardim Goiás. A obra atingiu áreas verdes e levou à desapropriação de dezenas de lotes consolidados. Posteriormente, a avenida se tornou um corredor comercial e financeiro.
A Rua 90 também passou por mudanças e foi convertida em eixo de transporte público coletivo, recebendo posteriormente faixas exclusivas e estações de BRT. A intervenção alterou a circulação no bairro e estabeleceu uma divisão entre as porções leste e oeste.
Em 1996, a Prefeitura abriu a Avenida Cora Coralina sobre áreas verdes das quadras F16, F19, F23 e F25 para conectar as ruas 87 e 82. O prolongamento da Rua Dona Maria Joana também suprimiu trechos das quadras F14 e F18.
Mudanças no perfil residencial e comercial
A partir das décadas de 1980 e 1990, o perfil socioeconômico do Setor Sul passou por novas mudanças. O surgimento de condomínios horizontais fechados na periferia e a verticalização de bairros próximos, como os setores Bueno e Marista e o entorno do Parque Flamboyant, no Jardim Goiás, atraíram famílias de alta renda que tradicionalmente residiam nas mansões do Setor Sul.
Com a desocupação de antigas residências unifamiliares, parte dos imóveis foi adaptada para atividades do setor terciário. A localização e a conexão com importantes vias favoreceram a expansão de estabelecimentos comerciais e de serviços.
Levantamentos oficiais apontam que o bairro passou a reunir mais de 6.101 estabelecimentos prestadores de serviços, além de 1.538 profissionais autônomos e 1.534 pontos comerciais. A região concentra clínicas médicas, escritórios de advocacia, órgãos públicos, espaços de economia criativa e instituições de ensino superior, como a Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e a UniGoiás.
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