Setor Central guarda história de Goiânia em meio a mudanças urbanas
Primeiro núcleo da Capital, região reúne patrimônio Art Déco e edifícios históricos, mas enfrenta esvaziamento residencial, mudanças no comércio e desafios para preservar construções antigas
O Setor Central de Goiânia reúne edifícios históricos, espaços comerciais e marcos da formação urbana da Capital, mas também enfrenta mudanças no uso dos imóveis, esvaziamento residencial e dificuldades na execução de projetos de revitalização. Projetada na década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas, a região foi o núcleo inicial da nova capital de Goiás e se consolidou como centro administrativo, financeiro e comercial do Estado.
Ao longo de quase um século, o bairro passou por transformações na ocupação e na dinâmica econômica. Embora concentre parte do principal conjunto de edifícios Art Déco do País, a região enfrenta a migração de atividades comerciais, a redução da presença de moradores e a necessidade de investimentos em infraestrutura e preservação. Pesquisas acadêmicas e relatos de representantes de entidades e comerciantes apontam diferentes perspectivas sobre os problemas e as possibilidades de reocupação do espaço.
A gênese e o traçado de Attílio Corrêa Lima
A criação de Goiânia foi oficializada pelo Decreto nº 3.359, de 18 de maio de 1933, assinado por Pedro Ludovico Teixeira. A pedra fundamental da cidade foi lançada em 24 de outubro daquele ano. O planejamento da nova capital, inicialmente dimensionada para 50 mil habitantes, ficou a cargo do urbanista Attílio Corrêa Lima.
O desenho do Setor Central recebeu influências de modelos urbanísticos monumentais europeus e norte-americanos. Leyla Elena Láscar Alarcón descreve essas referências: “O núcleo central de Goiânia foi projetado pelo urbanista Attílio Corrêa Lima, em 1933. O desenho da malha urbana recebeu influências dos traçados de Versalhes, Karlsrure e Washintong, onde predominava o efeito monumental e absolutista, que se traduzia num urbanismo barroco. O traço comum dessas cidades é o asterisco, ou seja, a convergência de diversas vias de circulação sobre uma praça”.
A Praça Cívica ocupa posição central nesse traçado, de onde partem as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins. A Avenida Anhanguera, por sua vez, atravessa essas vias e se consolidou como um dos principais eixos de transporte e comércio da cidade. Posteriormente, Armando Augusto de Godoy assumiu o projeto urbanístico e incorporou conceitos das cidades-jardins à configuração definitiva da Capital.
Da Rua 20 ao Centro Cívico
A ocupação inicial de Goiânia começou pela Rua 20, considerada a primeira via da Capital. Em 1935, o local recebeu as primeiras casas e repartições públicas. Registros do Centro de Informação, Documentação e Arquivo da Universidade Federal de Goiás (Cidarq/UFG) apontam que dez prédios foram construídos rapidamente na rua para abrigar estruturas administrativas, incluindo o Palácio Provisório, enquanto o Palácio das Esmeraldas estava em construção.
Em artigo publicado na Revista Jatobá, da UFG, em 2024, Letícia Soares Martins Ribeiro e Christine Ramos Mahler destacam a importância histórica e arquitetônica da via. “A Rua 20 reúne conteúdos históricos, arquitetônicos e simbólicos relacionados ao núcleo pioneiro da cidade. Ao mesmo tempo, parte dessas referências desaparece conforme novas construções ocupam os lotes.”
As pesquisadoras apontam que demolições sucessivas modificaram a paisagem da rua. Entre as construções que permanecem estão a Casa da Memória e a antiga residência de Colemar Natal e Silva, que atualmente abriga a Academia Goiana de Letras.

O patrimônio Art Déco no centro das decisões
Entre as décadas de 1930 e 1950, o Art Déco marcou a arquitetura de Goiânia com formas geométricas e elementos associados à modernidade. Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico e urbanístico da Capital, que reúne 22 bens protegidos, considerado o maior conjunto do estilo no Brasil.
Onze desses bens estão na Praça Cívica, entre os quais o Palácio das Esmeraldas, a Secretaria Geral e o Coreto. O conjunto protegido também inclui o Teatro Goiânia, o Lyceu, o Grande Hotel e a Estação Ferroviária.
Localizado na Avenida Goiás, o Grande Hotel recebeu bailes e reuniões da elite que participou dos primeiros anos da Capital. Para o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO), Lamartine Moreira, a preservação dos imóveis poderia ampliar o interesse turístico pela região. “Se tivéssemos todos os prédios preservados, como é na Cidade de Goiás, estaria lotado de turistas. Poderia ter visitas guiadas, como é feito em cidades na Europa.”
Além da relevância arquitetônica, o Setor Central se consolidou como polo financeiro, jurídico e comercial, com bancos, cartórios, hotéis e cinemas que atendiam à população da Capital.
Expansão urbana e mudanças na ocupação
A partir da década de 1950, a expansão de Goiânia contribuiu para redistribuir investimentos e atividades econômicas pela cidade. Em sua análise sobre a formação urbana da Capital, Moysés caracteriza o período de 1933 a 1950 como a fase de afirmação do plano original e o intervalo de 1951 a 1979 como a transição “do sonho ao pesadelo”.
Nesse processo, os setores Sul e Oeste atraíram moradores de maior poder aquisitivo, enquanto o uso residencial do Centro perdeu espaço. Ao recuperar a análise, Ivan Oliveira de Grande aponta a especulação imobiliária como um dos fatores relacionados à mudança. “A partir dos anos 70, o processo especulativo de ocupação urbana tomou conta de Goiânia. […] Assim, o centro vai gradativamente sendo abandonado pelos moradores e ocupado por prestadores de serviços e comércio.”
Na década de 1980, a inauguração do Shopping Flamboyant, em 1981, e o avanço do uso do automóvel contribuíram para deslocar parte do público das ruas comerciais tradicionais. A Praça Cívica também passou a ser utilizada como estacionamento.
Outras mudanças atingiram a organização dos espaços comerciais. Becos originalmente concebidos por Attílio Corrêa Lima para atender à logística do comércio passaram a ser fechados com portões por particulares. Disputas pelo uso dos espaços também acompanharam a transferência da Feira Hippie para a Praça dos Trabalhadores e a instalação do camelódromo da Paranaíba.
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