segunda-feira, 5 de outubro de 2026
atividade física

Academia e corrida lideram a busca por atividade física no início do ano

Após os excessos das festas de fim de ano, academias, ruas e parques registram alta de até 30% na procura por atividade física

Anna Salgadopor em
academia
Foto: Jose Cruz/ABr

Todo início de ano, o cenário se repete nas cidades brasileiras. Após o período de festas e excessos gastronômicos em dezembro, as academias registram um aumento expressivo na procura por matrículas, impulsionado pelas tradicionais metas de Ano Novo e pelo desejo de adotar um estilo de vida mais ativo. 

Esse movimento, muitas vezes associado ao chamado “projeto verão”, reflete uma busca imediata por bem-estar e mudanças físicas rápidas, mas também traz desafios importantes relacionados à constância e à segurança física dos praticantes.

Em 2025, essa tendência ganhou contornos ainda mais evidentes, liderada por uma modalidade que extrapolou os muros das academias e conquistou as ruas: a corrida. Hoje, ela ocupa o topo das preferências nacionais quando o assunto é atividade física. 

De acordo com gestores do setor fitness, o aumento no volume de novos alunos em janeiro pode chegar a 30% em comparação ao final do ano anterior. O crescimento é impulsionado, sobretudo, pela tentativa de compensar o sedentarismo e a alimentação desregrada do período de férias, com foco em resultados estéticos e de saúde em curto prazo.

Além da sazonalidade típica do mês, a cultura fitness passou a contar com uma projeção inédita por meio dos influenciadores digitais. Personalidades como Manu Cit, que mobilizam milhões de seguidores ao compartilhar rotinas de treino e hábitos saudáveis, inspiram uma legião de jovens a buscar as academias. 

Especialistas, no entanto, alertam que a motivação vinda das redes sociais nem sempre se sustenta ao longo do tempo. Um estudo revelou que apenas 3,7% dos alunos conseguem manter uma rotina de treinos por pelo menos um ano, evidenciando a dificuldade de transformar o entusiasmo inicial em um hábito consolidado.

Se as academias ficam mais cheias em janeiro, ruas e parques também vivem um “hype” sem precedentes. Dados do Panorama Setorial Fitness Brasil mostram que, em 2025, a corrida e a caminhada se tornaram as atividades físicas mais praticadas no País, representando 28% das práticas esportivas e superando, pela primeira vez, a musculação, que ficou com 26%.

Com mais de 13 milhões de praticantes periódicos, a corrida consolidou-se como o quarto esporte mais popular do Brasil, atrás apenas do futebol, da musculação, considerada como modalidade específica, e da caminhada. O crescimento de 9% na adesão em relação ao ano anterior é atribuído à maior valorização de experiências ao ar livre e à acessibilidade da prática, que dispensa mensalidades e equipamentos sofisticados para o início.

O entusiasmo pela atividade física vai além de uma tendência passageira e encontra respaldo em evidências científicas. Estudos recentes apresentados em congressos globais de oncologia apontam que a prática regular de atividades aeróbicas, como a corrida, pode reduzir em até 28% o risco de retorno de cânceres colorretais e em 37% a mortalidade por qualquer causa entre pacientes tratados.

Além do impacto no combate ao câncer, o exercício vigoroso está associado a uma série de benefícios, como a melhora da função pulmonar e o fortalecimento do coração, fatores fundamentais para um envelhecimento com qualidade. Também contribui para o aumento do VO₂ máximo, elevando a resistência contra doenças cardiovasculares, diabetes e acidentes vasculares cerebrais. 

No campo da saúde mental, a liberação de endorfina e serotonina auxilia na regulação emocional, combatendo quadros de ansiedade e depressão. Outro ponto relevante é o enfrentamento da sarcopenia, especialmente entre idosos. O público acima de 65 anos registrou um aumento de 57% nas matrículas em academias, motivado pela busca por autonomia em atividades básicas, como levantar de uma cadeira ou carregar compras.

Apesar dos benefícios amplamente reconhecidos, o “desespero” para recuperar o tempo perdido pode se transformar em um inimigo silencioso. Fisioterapeutas relatam que a empolgação excessiva leva muitos iniciantes a cometer erros nas primeiras semanas de treino, como excesso de carga, falta de aquecimento adequado e ausência de planejamento.

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academia
Foto: Tania Rego/ABr

Pressa nos treinos aumenta risco de lesões e abandono nas academias

As lesões mais comuns nesse período incluem estiramentos musculares, tendinites, bursites e dores intensas nas articulações do joelho e da coluna. O corpo humano, especialmente após períodos prolongados de sedentarismo, exige uma progressão gradual e individualizada. Profissionais de educação física reforçam que pular etapas compromete a adaptação funcional e aumenta o risco de abandono da prática devido a dores persistentes.

Para enfrentar a alta taxa de desistência, o mercado fitness tem investido em atendimento personalizado e tecnologia além das academias. Em cidades como Curitiba, onde o número de academias cresceu quase 50% em uma década, o diferencial tem sido a oferta de ambientes variados — como artes marciais, pilates e dança — além do funcionamento 24 horas, que reduz barreiras relacionadas à rotina e aos horários.

Entre as inovações em expansão está o uso de testes genéticos para orientar os treinos. Esses exames avaliam a predisposição individual para força ou resistência, metabolismo e tempo de recuperação, permitindo ajustes mais precisos na intensidade dos exercícios. A proposta é maximizar resultados e reduzir o risco de lesões com base no DNA do aluno.

Para os novos adeptos da corrida de rua, um alerta adicional vem de estudos sobre a qualidade do ar. Pesquisas internacionais indicam que a exposição a altos níveis de poluição pode reduzir significativamente os benefícios do exercício físico. 

Em áreas com ar tóxico, os ganhos para a saúde podem cair pela metade, embora a prática ainda seja preferível à inatividade. A recomendação é optar por rotas mais limpas, acompanhar os índices de qualidade do ar e, em dias críticos, priorizar ambientes internos.

O movimento típico do início do ano representa um ponto de partida importante, mas o verdadeiro segredo da saúde duradoura está na constância e na definição de objetivos claros. Seja pela estética, pela saúde mental ou pela longevidade, o acompanhamento de profissionais qualificados e a atenção aos limites do próprio corpo são essenciais para que a matrícula de janeiro não se transforme apenas em mais um número nas estatísticas de abandono em março.

Mais do que uma resposta aos excessos do fim de ano, a atividade física deve ser encarada como um investimento contínuo na qualidade de vida.

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