Crise Venezuela–EUA chega à ONU após captura de Maduro
Prisão do presidente venezuelano em operação militar americana provoca reação de Caracas, críticas da China e debate de emergência em Nova York
A sessão marcou a retomada dos trabalhos legislativos após a captura do líder chavista e reuniu forte apoio da base governista. Aplaudido pela maioria dos deputados, Maduro Guerra afirmou que a operação representa uma “regressão perigosa” e acusou Washington de violar o direito internacional. Segundo ele, a normalização da prisão de um chefe de Estado coloca todas as nações em risco. “Se aceitarmos o sequestro de um presidente, nenhum país está seguro”, declarou, ao classificar a ação como imperialista.
No discurso, o deputado também criticou diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, responsabilizando a Casa Branca pelo agravamento da crise e pelo que chamou de ruptura grave das regras internacionais. Ele lembrou que, além de seu pai, Cilia Flores, esposa de Maduro, também foi detida e levada para os Estados Unidos durante a operação.
Maduro Guerra rejeitou as acusações feitas pelas autoridades norte-americanas contra o presidente venezuelano, afirmando que os Estados Unidos mentem sobre os supostos crimes. Para ele, a narrativa apresentada por Washington não encontra respaldo interno. “O povo bolivariano não é manipulável”, disse, ao sustentar que a ofensiva faz parte de uma estratégia de desestabilização política.
O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) realizou, nesta segunda-feira (5), em Nova York, uma reunião de emergência para debater o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrido no último fim de semana, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas. A operação, conduzida por forças especiais norte-americanas, ampliou a crise diplomática internacional e levou o governo venezuelano a reagir com medidas judiciais e políticas contra os envolvidos.
Na madrugada de sábado, 3, militares dos Estados Unidos prenderam Maduro durante uma ação que provocou apagões em áreas da capital venezuelana e atingiu instalações militares estratégicas. O presidente foi levado para solo norte-americano, onde permanece detido. Ainda nesta segunda-feira, ele deve ser apresentado à Justiça federal em Nova York, diante do juiz Alvin K. Hellerstein, no Tribunal Distrital Federal de Manhattan. Cilia Flores, que também foi detida na operação, deve acompanhar o marido na audiência.
Em paralelo ao avanço do processo judicial nos Estados Unidos, o governo da Venezuela anunciou uma resposta interna imediata. O Executivo determinou que as forças de segurança iniciem a busca e captura, em todo o território nacional, de todos os responsáveis pela promoção ou apoio ao ataque armado norte-americano. A decisão foi formalizada por decreto, em vigor desde sábado, mas divulgado integralmente apenas nesta segunda-feira.
As autoridades norte-americanas justificam a operação com base em acusações de narcotráfico contra Maduro. Segundo a Casa Branca, o presidente venezuelano lideraria o chamado Cartel de los Soles, grupo acusado de transportar drogas da América do Sul para os Estados Unidos e de atuar para desestabilizar instituições do país. O governo dos EUA enquadrou organizações de tráfico como grupos terroristas, o que abriu caminho para a ação militar.
No âmbito diplomático, a ofensiva norte-americana provocou forte reação internacional. Durante a sessão do Conselho de Segurança, o embaixador da China na ONU, Fu Cong, afirmou que o país está “chocado” com a invasão e condenou a captura de Maduro, pedindo sua libertação imediata. Segundo o diplomata, os Estados Unidos desrespeitaram reiteradamente a comunidade internacional ao impor sanções e ameaçar o uso da força contra a Venezuela.
Fu Cong também criticou o fato de Washington, como membro permanente do Conselho de Segurança, não ter considerado os alertas internacionais e, segundo ele, ter violado a Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial e a independência política de Estados soberanos. Atualmente, a organização reúne 193 países-membros.
Ao final de sua intervenção, o representante chinês solicitou garantias de segurança e a libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores, ressaltando que ambos foram detidos enquanto dormiam e levados aos Estados Unidos. Em Nova York, a audiência de custódia deve definir os próximos passos do processo, incluindo a manifestação dos réus sobre culpa ou inocência.
Nessa fase inicial, é comum que a defesa tente obter a liberdade provisória mediante pagamento de fiança. A decisão judicial, no entanto, considera principalmente o risco de fuga e a possibilidade de ameaça à comunidade, fatores que podem influenciar o futuro do caso e o desdobramento da crise entre Washington e Caracas.