Líderes da direita e centro buscam espaço fora do bolsonarismo
Com a fragilidade do movimento após a prisão de Jair Bolsonaro, atores políticos conservadores tentam se diferenciar, enquanto especialistas apontam que a unidade da direita será decisiva
Com a iminência da disputa eleitoral de 2026, o campo da direita brasileira atravessa um período de indefinição política e reorganização interna. A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) agravou a fragilidade do bolsonarismo como força hegemônica e abriu espaço para o surgimento de lideranças direitistas, que se identificam como conservadoras, mas buscam se distanciar do movimento político liderado pelo ex-chefe do Executivo.
Assim, surgem personagens políticos com uma identidade conservadora desvinculada do ex-presidente. Um dos exemplos é o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e ligado a pautas morais conservadoras, o parlamentar afirmou recentemente, em entrevista ao Correio Braziliense, que “a direita é maior do que o bolsonarismo, pois veio antes dele, e que o conservadorismo é maior do que a direita”.
A declaração do deputado instiga o debate sobre os limites conceituais entre direita, conservadorismo e bolsonarismo no Brasil contemporâneo. O sociólogo João Coelho concorda com a afirmação do deputado parcialmente, sobretudo na diferenciação do conservadorismo.
“O conservadorismo é uma filosofia política. Então, o conservadorismo se mantém nos países independentemente das correlações de força entre os partidos. Por outro lado, a direita existe em diversos campos de maneira distinta”, explicou Coelho em conversa com a reportagem do O HOJE.
O sociólogo alega que a direita se apresenta como um campo político plural, com manifestações distintas. “Nós temos uma direita mais democrática e uma direita mais radical, que atua também em movimentos antidemocráticos. O bolsonarismo está mais alinhado com uma direita radical, que é o caso, por exemplo, do movimento do 8 de janeiro”, avaliou o especialista, ao se referir aos atos antidemocráticos na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 2023.
Segundo João, o conservadorismo é “uma filosofia política que está acima da visão de direita e esquerda no Brasil”, enquanto o movimento bolsonarista é “um viés à direita que pode não existir daqui a dez anos”.
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Direita precisa se unir
Apesar da possibilidade de enfraquecimento do movimento liderado por Bolsonaro, Coelho destaca que, do ponto de vista da disputa eleitoral deste ano, a direita não pode abrir mão da unificação para ter chances de êxito na disputa com o campo progressista, chefiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Aliança com bolsonarismo
“Do ponto de vista eleitoral, não tem condições de vitória, em nenhum dos cenários que já apareceram em pesquisa, sem a unidade total da direita”, afirmou o especialista. O sociólogo entende que é preciso uma aliança entre o bolsonarismo e os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Júnior (PSD-PR) e Eduardo Leite (PSD-RS) — todos possíveis candidatos ao Palácio do Planalto — para haver chances de vitória no pleito presidencial.
Coelho ainda ressalta que a necessidade de união entre os representantes da direita se dá pelo cenário eleitoral atual. “Mesmo diante de todo esse cenário de unidade, ainda assim, segundo as pesquisas mais recentes, Lula consta na frente em todos os cenários”, frisa.