Aterro Sanitário de Goiânia vira centro de disputa entre prefeitura e governo
Semad planeja recorrer de decisão judicial que autorizou a abertura do registro entre o aterro e a ETE
O Aterro Sanitário de Goiânia está no centro de uma disputa entre o município de Goiânia e o Estado de Goiás. No dia 4 de dezembro de 2025, o chorume, proveniente da decomposição da matéria orgânica depositada no aterro, deixou de ser direcionado e tratado na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), por conta da proibição da Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).
O chorume estava sendo armazenado em lagoas dentro do aterro, porém com o início do período de chuvas e o aumento de resíduos sendo direcionados o local começou a operar sob o que relatórios internos classificam como um “risco ambiental e sanitário de magnitude excepcional”.
Na tentativa de conter os danos, a prefeitura de Goiânia realizou a contratação emergencial da empresa mineira Solos Solution, ao custo de R$ 2,15 milhões, para a instalação de uma biofábrica no próprio aterro. O sistema prevê o uso de biorremediação acelerada para o tratamento do chorume no local.
No entanto, os efeitos não são imediatos: a empresa estima cerca de 60 dias para resultados significativos e até 280 dias para o cumprimento integral das metas de tratamento.
Essa situação ganhou novos contornos quando a Justiça de Goiás, autorizou na última sexta-feira (2), a abertura do registro que interliga uma das lagoas de chorume à ETE, situada no setor Goiânia 2. A justificativa foi o risco ambiental e sanitário de magnitude excepcional, caso o chorume continuasse sendo acumulado nas três lagoas do Aterro.
Em nota a Semad, disse que irá recorrer da decisão judicial, que liberou envio do efluente para a ETE pelo prazo de 120 dias. Além disso, a pasta estadual explicou que a Saneago está em processo de renovação da licença da ETE e, atualmente, a licença vigente funciona exclusivamente para tratamento do esgoto doméstico.
A secretaria reitera que “o chorume gerado em aterros sanitários possui características e carga poluidora significativamente distintas, exigindo estrutura e licenciamento específicos para seu tratamento” e que o envio representa riscos ambientais, já que o chorume é tratado por estrutura inadequada.
Além da decisão, a Semad comentou que a Saneago chegou a solicitar a alteração da licença para permitir o tratamento de chorume. Foi pedido uma comprovação técnica da capacidade operacional da ETE para tratar esse tipo de efluente, sem atrapalhar o tratamento do esgoto doméstico já realizado, porém não foi comprovada.
Ainda em relação ao tratamento de resíduos da Capital, a secretaria informa que existe “outra liminar judicial relacionada à definição da competência para o licenciamento ambiental do lixão de Goiânia”, que limita as medidas administrativas possíveis, submetendo a Semad ao cumprimento das determinações judiciais.

Negociações sobre o chorume do Aterro Sanitário
Nesta segunda-feira (5), a prefeitura de Goiânia realizou uma reunião com a Saneago para discutir o que poderia ser feito no cenário atual. Em nota ao jornal O HOJE, a Saneago informou que durante o encontro reiterou a disponibilidade para auxiliar e acompanhar tecnicamente os trabalhos da empresa contratada para o tratamento do chorume.
A companhia esclareceu que o recebimento do efluente do aterro pela ETE sempre aconteceu em caráter excepcional, como uma forma de mitigar o risco ambiental, já que não existia uma solução para o tratamento, por parte do município. Para finalizar, reafirmou que segue cumprindo as decisões do poder judiciário.
A Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) e a Prefeitura de Goiânia foram procuradas, mas não apresentaram resposta até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
Danos ambientais
A bióloga Raquel Pires Sales explica que o chorume é um dos resíduos mais agressivos gerados em aterros sanitários e, quando não controlado adequadamente, representa um grave risco ambiental.
Sem sistemas eficientes de impermeabilização, drenagem e coleta, esse líquido altamente poluente pode infiltrar no solo e atingir aquíferos e poços, provocando contaminação subterrânea de difícil reversão. Além disso, a degradação do solo causada pelo chorume leva à alteração do pH, salinização e perda da fertilidade, comprometendo a vegetação e a microbiota local.
Quando lançado de forma inadequada em rios, córregos ou áreas naturais, o chorume provoca impactos imediatos e severos nos corpos hídricos. Sales aponta que sua carga orgânica aumenta drasticamente a demanda por oxigênio, reduzindo o oxigênio dissolvido na água e podendo causar a morte de peixes e o colapso de ecossistemas aquáticos.
Além disso, o excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, favorece a eutrofização, com proliferação de algas, mau cheiro e degradação da qualidade da água.
A presença de amônia, metais e compostos orgânicos persistentes também gera toxicidade à fauna aquática e pode resultar em bioacumulação ao longo da cadeia alimentar.
Em um evento agudo, como o transbordamento das lagoas, os danos do chorume sem tratamento no solo causam queima de vegetação, perda de microbiota, alteração de pH, salinização, aumento de nitrogênio amoniacal e mobilização de metais. Nesse caso, também pode causar danos a cidades, como transbordamentos em bocas de lobo, valas e córregos.
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