Brasil concentra maioria dos casos de hanseníase nas Américas
Janeiro Roxo reacende debate sobre subdiagnóstico e sequelas evitáveis
A hanseníase segue como um desafio estrutural da saúde pública brasileira, apesar de ser uma doença com cura e tratamento gratuito. No Janeiro Roxo, campanha dedicada à conscientização e ao combate à hanseníase, dados recentes reforçam a urgência do tema: o Brasil permanece entre os três países com maior número de novos casos no mundo, ao lado da Índia e da Indonésia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, foram registrados 172.717 novos casos da doença em 2024 no mundo, uma redução de 5,5% em relação ao ano anterior. No Brasil, porém, a queda foi discreta. O país notificou 22.129 novos casos no mesmo período, mantendo-se como o segundo em números absolutos, atrás apenas da Índia. Em 2023, haviam sido 22.773 registros.
Fatores sociais mantêm a hanseníase ativa
A persistência da hanseníase no país está associada a desigualdades históricas. O infectologista Américo Calzavara Neto, aponta que o cenário brasileiro reflete condições sociais que favorecem a transmissão e o diagnóstico tardio.
“O período de incubação longo para quem está com a doença é em média de 2 a 7 anos. Isso faz com que muitos casos atuais reflitam cadeias de transmissão estabelecidas há anos, especialmente em famílias com casos não tratados ou diagnosticados tardiamente. Apesar da cobertura da Atenção Primária, ainda há subdiagnóstico devido à falta de treinamento de profissionais, rotatividade de equipes e dificuldade em reconhecer as formas iniciais, muitas vezes discretas, resultando em maior número de casos com lesões neurais avançadas”.
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde indicam que mais de 90% dos casos registrados nas Américas em 2023 ocorreram em território brasileiro. Outro ponto de alerta é o diagnóstico tardio, medido pelo Grau 2 de Incapacidade.
“O Grau 2 de Incapacidade representa deformidades visíveis, como úlceras tróficas, retrações, amputações, mão em garra, pé caído e cegueira, sendo um indicador sensível de diagnóstico tardio. Além disso, medo, preconceito e desinformação fazem com que muitas pessoas demorem a procurar atendimento, escondam as lesões ou abandonem o tratamento. Por fim, a hanseníase exige uma rede capaz de oferecer diagnóstico dermatoneurológico, poliquimioterapia (MDT), manejo de reações e reabilitação, mas em muitos municípios esses serviços são fragmentados ou concentrados em poucos pontos de referência, dificultando o acesso oportuno”, esclarece o infectologista.
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Manchas na pele e perda de sensibilidade
A identificação precoce da hanseníase é considerada fundamental para evitar sequelas e interromper a cadeia de transmissão. A dermatologista Maria de Fátima Maklouf Amorim, detalha os sinais iniciais da doença.
“É importante observar a ausência de sensibilidade, mesmo que não haja manchas visíveis. Nas áreas afetadas, pode ocorrer também ausência de pelos ou redução da sudorese. A falta de coceira é outra característica relevante. Qualquer mancha com perda de sensibilidade deve ser avaliada por um médico. Em fases mais avançadas, podem surgir manchas ou nódulos avermelhados”.
Segundo a especialista, o diagnóstico exige avaliação médica criteriosa, já que a hanseníase pode ser confundida com outras condições dermatológicas.
“O diagnóstico da hanseníase baseia-se no exame clínico das lesões de pele e em testes de sensibilidade, que avaliam a perda de percepção de calor e frio, como o teste com algodão e éter ou álcool, o teste da dor com agulha e o teste com fios (monofilamentos) para verificar a sensibilidade tátil. A palpação dos nervos também é fundamental para identificar espessamentos. Outros exames podem auxiliar no diagnóstico, como o Teste Rápido (TR) para anticorpos IgM, a baciloscopia (pesquisa de bacilos em linfa) e, quando houver dúvida, a biópsia”, conclui a dermatologista.
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