Após restrições da China, Japão mira Goiás como alternativa estratégica para terras raras
Estado concentra cerca de 25% das reservas mundiais de óxidos de terras raras e pode se tornar parceiro-chave do governo japonês
O Japão, recentemente afetado por restrições impostas pela China à exportação de terras raras, já vinha buscando alternativas para diversificar seus fornecedores desses insumos estratégicos, e o Brasil, especialmente Goiás, entrou no radar.
Na última terça-feira (6), o governo chinês proibiu a exportação de determinados elementos de terras raras e de outros itens ao Japão que podem ter uso militar, o que acirrou ainda mais as tensões diplomáticas entre os dois países. A medida ocorre após declarações recentes do governo japonês sobre Taiwan, tema considerado sensível por Pequim.
Dados da Agência Internacional de Energia mostram o grau de dependência global da China nesse setor. Atualmente, 91% do refino mundial de terras raras é realizado por empresas chinesas, que também respondem por cerca de 94% da produção global de ímãs permanentes — componentes essenciais para turbinas eólicas, motores elétricos, veículos híbridos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
Nesse cenário, Goiás surge como uma das principais alternativas para a estratégia de diversificação japonesa. As tratativas tiveram início no começo de 2025, quando o governador Ronaldo Caiado viajou ao Japão e se reuniu com investidores e autoridades do governo japonês para discutir parcerias na área de minerais críticos.
Em agosto do ano passado, Caiado recebeu, no Palácio Pedro Ludovico Teixeira, em Goiânia, uma comitiva da Embaixada do Japão no Brasil para tratar especificamente da exploração de terras raras em Goiás. Ao final do encontro, o embaixador Teiji Hayashi afirmou, em tom otimista, que houve avanço concreto e real para o acerto de uma parceria entre o Estado e o governo japonês.
O principal objetivo da reunião foi discutir estratégias para a exploração de óxidos de terras raras (OTR) em território goiano. As reservas localizadas no Estado representam cerca de 25% da disponibilidade mundial desse tipo de minério, considerado insumo indispensável para o desenvolvimento tecnológico e a transição energética global. Ao fim do encontro, ficou definido que a interlocução entre Goiás e o Japão será conduzida oficialmente pela Embaixada do Japão em Brasília.
Caiado destacou que as conversas avançaram para além da extração do minério. “Chegamos a um entendimento para avançar na cooperação entre Goiás e o governo japonês, não apenas na exploração, mas também no processamento das terras raras”, afirmou o governador, ressaltando o interesse em agregar valor à cadeia produtiva dentro do próprio Estado.
O embaixador Teiji Hayashi reforçou que a visita teve como foco ampliar os laços econômicos entre os dois países. “Veio a equipe completa do governo japonês para discutir e aprofundar nossos laços e colaborações na área de terras raras”, declarou.
Atualmente, Goiás já conta com operações em andamento. Em Minaçu, no Norte do Estado, a mineradora Serra Verde realiza mineração e processamento de terras raras, com investimentos bilionários provenientes dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. Além de Minaçu, municípios como Nova Roma, Catalão e a Província Estanífera de Goiás também concentram grandes reservas deste tipo de minério.
Ainda em 2025, o governador sancionou a lei que criou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos. O novo órgão será responsável pela formulação de políticas públicas voltadas à pesquisa, exploração, refino, industrialização, transporte e comercialização dos minerais críticos existentes em Goiás.
A legislação também autoriza a criação de Zonas Especiais de Minerais Críticos, áreas com potencial estratégico que poderão receber benefícios econômicos, fiscais e creditícios, além de investimentos prioritários em infraestrutura de transporte, logística e energia. Outro ponto previsto é a instituição do Fundo Estadual de Desenvolvimento dos Minerais Críticos, destinado a financiar projetos e iniciativas ligadas ao setor.
Com reservas expressivas, estrutura regulatória em formação e interesse internacional crescente, Goiás se consolida como peça-chave na disputa global por terras raras e pode ganhar protagonismo em um mercado cada vez mais estratégico para a economia e a geopolítica mundial.