segunda-feira, 6 de julho de 2026
Economia regional

Goiás entra no mapa global das Terras Raras com investimento bilionário dos Estados Unidos

Financiamento de US$ 465 milhões da DFC reforça a posição da Serra Verde, em Minaçu, e impulsiona a economia goiana na corrida por minerais estratégicos

Letícia Leitepor Letícia Leite em 13 de novembro de 2025
Goiás entra no mapa global das Terras Raras com investimento bilionário dos Estados Unidos
Única produtora do mercado mundial de terras raras fora da Ásia fica em Goiás. Foto: Divulgação/Serra Verde

Instalada no município de Minaçu, no norte de Goiás, a mineradora Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM) alcançou em 2024 um marco histórico ao iniciar sua produção comercial de terras raras, tornando-se, oficialmente, a única produtora em escala do mundo fora do continente asiático. A operação, que teve início em sua planta de processamento e mina localizadas na região, já movimenta o setor com estimativas robustas de crescimento e consolida Goiás como novo protagonista na cadeia global de minerais críticos.

Agora, a companhia dá um passo ainda mais decisivo. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC), agência de investimento vinculada ao Departamento de Estado norte-americano, aprovou um financiamento de até US$ 465 milhões para a Serra Verde. 

O aporte será utilizado na ampliação da produção da mina Pela Ema, com vida útil estimada em 25 anos, além de cobrir custos operacionais, refinanciamento de dívidas, formação de reservas e despesas associadas à transação.

O financiamento integra a estratégia norte-americana de diversificar as rotas de fornecimento de minerais estratégicos, reduzindo a dependência da China, responsável por mais de 60% da produção mundial e 90% do refino de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Investimento em Goiás também pode representar um novo fôlego à economia norte-americana

O investimento em Goiás também pode representar um novo fôlego à economia norte-americana, que enfrenta restrições crescentes para atuar no setor chinês. O ex-presidente Donald Trump, criador da DFC em 2019, chegou a ameaçar elevar para 200% as tarifas sobre exportações chinesas, caso Pequim impusesse barreiras às negociações envolvendo minerais estratégicos.

Na contramão dessa tensão, o projeto goiano surge como alternativa segura e ambientalmente responsável para o abastecimento ocidental. A Serra Verde extrai e processa um concentrado com alta proporção de neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb) — quatro elementos magnéticos essenciais para a fabricação de ímãs permanentes, utilizados em carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, smartphones e equipamentos militares.

Com o investimento, Goiás deve experimentar efeitos diretos na economia regional. O projeto promete gerar centenas de empregos diretos e indiretos, fortalecer cadeias logísticas e de serviços, aumentar a arrecadação local e atrair novas empresas da cadeia de transformação mineral, ampliando a industrialização e o desenvolvimento tecnológico do Estado.

A Serra Verde, que conta com o apoio de fundos internacionais como Denham Capital, Vision Blue Resources e Energy and Minerals Group, projeta aumentar sua produção anual para entre 4.800 e 6.500 toneladas métricas até 2027. Atualmente, os óxidos são exportados para processamento no exterior, mas há planos de verticalização da cadeia produtiva no Brasil, com o objetivo de agregar valor e fortalecer o setor de alta tecnologia nacional.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o interesse norte-americano nos minerais críticos e estratégicos brasileiros (MCEs) reforça a importância do País na transição energética global.

A extração na mina Pela Ema também chama atenção pelo baixo impacto ambiental. O depósito de argila iônica permite processos de lavra e beneficiamento com menor consumo de água e energia, reduzindo significativamente resíduos e danos ao solo, um diferencial que aproxima o projeto dos padrões internacionais de sustentabilidade.

A Serra Verde informou que o financiamento “ainda está passando por etapas e revisões antes de ser encerrado”, mas é importante reforçar que a iniciativa representa um avanço importante na consolidação de uma cadeia de fornecimento diversificada e sustentável de terras raras no País.

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, de acordo com o USGS. Com a ampliação do projeto goiano, o País se aproxima de uma nova fase de protagonismo global, com Goiás na linha de frente da produção de insumos estratégicos para a economia verde e digital.

Mais do que um marco para a mineração, o investimento da DFC simboliza um reposicionamento geopolítico do Brasil e um salto de desenvolvimento para o Estado goiano, que passa a integrar de forma definitiva o mapa das potências responsáveis pelo futuro energético e tecnológico do planeta.

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