sábado, 24 de outubro de 2026
Violência contra a mulher

Crimes caem em Goiás, mas feminicídio registra 59 casos em 2025

Mesmo com redução nos índices gerais de violência, Goiás registra aumento de casos contra mulheres, a maioria em ambientes privados e sem medidas protetivas

João César Almeidapor em
Goiás
75% dos casos aconteceram fora do alcance das forças de segurança pública, segundo secretário -Foto: Joédson Alves/ABr

Os indicadores de crimes no Estado de Goiás apresentaram uma queda expressiva no último índice apresentado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SSP-GO), nesta semana. Porém, em 2025, os casos de feminicídio tiveram um avanço de 6% em comparação com o ano de 2024, saindo de 56 para 59 casos. 

 

Segundo o secretário da SSP-GO, Renato Brum, 75% dos casos aconteceram em ambientes privados, onde a segurança pública não consegue atuar. Além disso, apenas 7 vítimas tinham medida protetiva. Os dados de feminicídios, de acordo com Brum, estão inseridos dentro dos homicídios neste último levantamento realizado.


O titular da pasta afirmou que o combate ao crime não é apenas um desafio no Estado, mas sim em todo Brasil. “De 2024 para 2025, esse foi o único índice criminal que teve um aumento”, finalizou.


Em 2018, Goiás registrou 36 casos de feminicídios, enquanto em 2025 foram 59. Porém, é preciso levar em consideração que a tipificação do crime é muito recente, dificultando o registro dos casos.

A tipificação do feminicídio como um  crime autônomo aconteceu apenas em 2024, com a sanção da Lei 14.994/2024, por conta disso os casos deste ano podem ser menores do que o ano subsequente. De acordo com o advogado criminalista, Pedro Paulo Medeiros, essa mudança penal recente não deve gerar uma expectativa imediata de redução. 

 

Outro ponto que o especialista traz é o local onde estes crimes acontecem. Como dito anteriormente pelo secretário de Segurança Pública de Goiás, a maioria dos feminicídios acontecem em ambiente privado e muitas vezes de confiança da vítima. Por conta dessa característica do crime, muitos agressores agem de forma descontrolada, onde a pena ou punição pelo crime não é pensada.

Além disso, segundo Medeiros, os dados recentes mostram que os principais autores são parceiros e ex-parceiros, dificultando o trabalho da segurança pública na proteção dessas mulheres.  

 

A realidade comprova essas estatísticas, em dezembro de 2025, 5 mulheres foram mortas em Goiás. 4 desses crimes foram praticados por companheiros e ex-companheiros, sempre com alto grau de violência e com justificativas passionais. Como o caso de Natali Vieira Batista, de 33 anos, em Goiânia, que foi esfaqueada pelo companheiro, Djanir Brito, após uma discussão acarretada por ciúmes, em dezembro do ano passado. Djanir Brito foi preso em flagrante por equipes do 9º Batalhão e do Giro. Ele está sendo investigado por por feminicídio e resistência à prisão, além de já possuir passagens por roubo, tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo e homicídio. 

 

Possibilidades de resolução em Goiás

 

O advogado explica que falhas de proteção e de implementação de medidas protetivas podem ser causas para aumento ou perpetuação desses crimes.  “Medidas protetivas podem não ser suficientes se não forem fiscalizadas e apoiadas. Há registros de mortes mesmo com medidas protetivas em vigor e elevado número de descumprimentos, o que indica que o gargalo pode estar na execução, monitoramento ou retaguarda”, acrescenta. 

 

O especialista aponta que gestão de risco e proteção imediata, podem ser fundamentais na proteção das vítimas. A partir disso, ele aponta que melhorar a velocidade e a qualidade da análise dos riscos, como histórico, reincidência, acesso a armas de fogo e ameaças, como também uma uma fiscalização mais efetiva e que integra outras forças, são pontos que podem ajudar a melhorar a situação. 

 

Outro ponto importante é a prevenção e mudança cultural. Medeiros destaca que a Lei Maria da Penha prevê campanhas educativas, formação continuada de profissionais e programas educacionais de prevenção. Isso inclui ações em escolas, serviços de saúde, assistência social e comunicação pública para reduzir a tolerância social à violência e aumentar a intervenção de terceiros.

 

Também é importante que os canais de denúncia se tornem mais acessíveis e um encaminhamento mais efetivo. Na visão do especialista, não é só “ter o canal”, mas garantir retorno rápido, acolhimento e encaminhamento.

 

Para finalizar, o advogado ainda coloca a possibilidade da criação de centros de educação e reabilitação para agressores, com a intenção de acabar com o ciclo de violência e reincidência, com monitoramento e avaliação dos avanços.

 

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