Tratado nuclear entre EUA e Rússia pode ser extendido
Negociações em Abu Dhabi buscam manter por seis meses limites nucleares após expiração do acordo nuclear bilateral
Estados Unidos e Rússia discutem uma solução provisória para manter vivo o principal acordo bilateral de controle de armas nucleares, segundo informou o site norte-americano “Axios”, nesta quinta-feira (5). A proposta em debate prevê que os dois países continuem seguindo os parâmetros do tratado New START por mais seis meses, mesmo após o vencimento formal do acordo, ocorrido na quarta-feira (4).
O tratado estabelecia limites para os arsenais estratégicos das duas potências. Pelo texto, cada lado podia manter até 1.550 ogivas nucleares estratégicas e 700 vetores de lançamento, entre mísseis e bombardeiros de longo alcance. Também havia regras para a implantação desses sistemas e a previsão de inspeções presenciais para verificação do cumprimento das metas.
Fontes norte-americanas ouvidas pelo site relataram que as conversas mais recentes ocorreram em Abu Dhabi e se estenderam até a noite de quarta-feira. Apesar do avanço das discussões, não houve definição antes do prazo final. Um eventual entendimento ainda dependeria de aval político dos presidentes Donald Trump e Vladimir Putin.
A presença de representantes dos dois países nos Emirados Árabes Unidos também está ligada às negociações sobre à guerra na Ucrânia. Nesse contexto, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou que Moscou permanece aberta ao diálogo, desde que Washington responda de forma “construtiva” à proposta russa de continuar respeitando os limites previstos no New START.

Axios aponta também incerteza sobre a forma jurídica de uma eventual prorrogação informal. Outro dado citado é que as tratativas não contam com participação ativa de integrantes do Departamento de Estado especializados em controle de armamentos. Pelo lado norte-americano, as negociações estão a cargo do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner.
Fim do acordo nuclear é grave para segurança internacional
Ainda, o fim do tratado provocou reação na Organização das Nações Unidas. O secretário-geral António Guterres afirmou que o momento é grave para a segurança internacional e defendeu a retomada urgente das negociações entre as duas potências nucleares.
“Pela primeira vez em mais de meio século, enfrentamos um mundo sem quaisquer limites vinculativos para os arsenais nucleares estratégicos da Federação Russa e dos Estados Unidos da América — os dois Estados que detêm a esmagadora maioria do estoque global de armas nucleares”, disse Guterres em comunicado.
Ele avaliou que a perda dos mecanismos de controle ocorre em um cenário de risco elevado. Segundo o secretário-geral, a dissolução de décadas de acordos “não poderia ocorrer em pior momento — o risco de uma arma nuclear ser usada é o mais alto em décadas”. Ainda assim, apontou uma possibilidade de reconstrução de um novo modelo de regulação internacional.

“O mundo agora espera que a Federação Russa e os Estados Unidos transformem palavras em ações”, expressou Guterres. “Exorto ambos os Estados a retornarem à mesa de negociações sem demora e a concordarem com uma estrutura sucessora que restabeleça limites verificáveis, reduza os riscos e fortaleça nossa segurança comum”
O New START estava em vigor desde 2011 e havia sido prorrogado em 2021 por mais cinco anos. O acordo também permitia inspeções mútuas, limitadas a 18 por ano para cada país. Essas visitas foram interrompidas em março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Havia previsão de retomada das negociações sobre as inspeções em novembro de 2022, no Egito, mas a reunião foi adiada pela Rússia e não houve nova data definida.