Mabel diz que “contador está assaltando o empresário” com mudança na NFS-e e CRC reage
Declaração de Mabel provocou reação do Conselho Regional de Contabilidade em meio à transição para o novo sistema nacional de emissão de notas fiscais em Goiânia
O Conselho Regional de Contabilidade (CRC) emitiu uma nota de repúdio contra as declarações do prefeito Sandro Mabel (União Brasil), proferidas durante entrevista à Rádio Terra FM nesta quinta-feira (12). Na ocasião, o chefe do Executivo municipal afirmou categoricamente que “o contador está assaltando o empresário”, referindo-se aos custos repassados para a emissão de Notas Fiscais de Serviços Eletrônicas (NFS-e) dentro do novo padrão nacional adotado pela Capital.
A fala de Mabel ocorre em um momento de transição tecnológica e legislativa sensível para o empresariado goianiense. Desde o final de 2025, Goiânia descontinuou seu emissor gratuito próprio, obrigando as empresas a adotarem sistemas privados ou de mercado para cumprir suas obrigações fiscais.
Falas de Mabel
Durante a entrevista, Mabel criticou duramente os valores que estariam sendo cobrados por escritórios de contabilidade. Segundo o prefeito, alguns profissionais estariam cobrando cerca de R$ 40 por nota emitida, valor que ele considera abusivo. “Um escritório de contabilidade, ele paga uma licença e vai emitir nota fiscal para mil empresas. Então sairia a 0,004 centavos. Mas ele está te cobrando 40 reais”, disparou.
Mabel argumentou que não deveria haver custo para o contribuinte nesse processo, alegando que o sistema é nacional e de fácil acesso. “Não tem custo isso daí. É um programa que não é na prefeitura. Você entra e baixa o programa. Não paga para nós, não paga guia para a prefeitura. Você paga para o programa”, afirmou, completando que a prefeitura está tentando “esclarecer os conceitos” para evitar o que chamou de prática de “assalto”.
O CRC classificou as falas de Mabel como “graves, desrespeitosas e injustas”. Em nota oficial, a entidade manifestou seu veemente repúdio, defendendo que os milhares de profissionais da contabilidade atuam de forma ética e técnica, cumprindo rigorosamente a legislação e orientando os empresários sobre as constantes mudanças impostas pelo próprio poder público.
Para o conselho, atribuir práticas abusivas à categoria demonstra um desconhecimento da realidade da profissão. “Os contadores são parceiros estratégicos dos empresários, contribuindo para a conformidade fiscal, organização financeira e desenvolvimento econômico”, destaca a nota. O órgão ressaltou ainda que a padronização nacional da nota fiscal é uma exigência governamental e que os contadores apenas operacionalizam essas obrigações acessórias.
O CRC também lembrou que, caso existam profissionais agindo de forma antiética ou com indevidas, cabe denúncia formal ao conselho para a devida apuração e punição, e não um ataque generalizado a toda a classe.
O pano de fundo desse conflito é a implementação do Sistema de Gestão, Fiscalização e Arrecadação do ISS (SGISS) em Goiânia, regulamentado pelo Decreto nº 2.824/2025. A medida visou modernizar a gestão do imposto e adequar o município à Lei Complementar nº 214/2025, que exige a padronização nacional no modelo ABRASF 2.04.
Com a mudança, a prefeitura de Goiânia deixou de oferecer o emissor gratuito em seu portal desde 1º de dezembro de 2025. A partir dessa data, os contribuintes passaram a ser responsáveis por contratar emissores de mercado ou adaptar seus sistemas próprios (ERPs). Essa transição, segundo especialistas, exige suporte técnico qualificado, requalificação de equipes e atualização constante de sistemas, tarefas que recaíram diretamente sobre os ombros dos contadores.
A própria gestão municipal havia admitido anteriormente que a mudança traria desafios, especialmente para pequenos negócios, mas defendia que o novo formato traria mais estabilidade e agilidade.
Diferente do que sugeriu Mabel em sua fala sobre o “baixo custo” do software, profissionais da área argumentam que a emissão da nota fiscal de serviços tornou-se uma peça estratégica de compliance. A nova sistemática unificada exige atenção redobrada com campos novos, detalhamento de alíquotas de tributos como IBS e CBS, e validações automatizadas em tempo real junto à Receita Federal.
“Com um sistema mais automatizado, os erros não passarão despercebidos. A malha fiscal eletrônica tende a ser ainda mais rigorosa”, aponta o especialista Daniel Sousa em fontes do setor. Assim, o valor cobrado pelos escritórios não se referiria apenas ao “clique” de emissão, mas a todo o suporte jurídico, fiscal e tecnológico necessário para evitar autuações e bloqueios de créditos tributários para os clientes.