Chocolate acumula inflação de 24,77% e pesa no bolso do consumidor goiano
Alta do cacau no mercado internacional eleva preços e muda comportamento do consumidor em Goiás
Quem passou pelos corredores de supermercados em Goiânia nas últimas semanas percebeu que a tradição da Páscoa vai custar mais caro em 2026. Isso porque o chocolate acumulou inflação de 24,77% nos 12 meses encerrados em janeiro, segundo o IPCA, índice oficial medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual é muito superior à inflação geral do período, de 4,44%, e já impacta diretamente o bolso do consumidor goiano.
A alta ocorre justamente no período que antecede a Páscoa, quando a procura por ovos e caixas de bombom aumenta. Em Goiás, a elevação acompanha a tendência nacional e tem provocado mudança de comportamento nas compras.
A estudante e garçonete Eduarda Franca conta que ficou surpresa ao conferir os valores nas prateleiras. “Fui ao supermercado e vi os ovos já expostos. Um que comprei no ano passado por cerca de R$ 125 agora está R$ 160. Muito caro. Acho que este ano vamos fazer nossos próprios ovos em casa”, relata.
A percepção de Eduarda reflete um movimento mais amplo. Bombons e barras também registraram alta expressiva, superior ao dobro da inflação geral. O cenário leva consumidores a trocar marcas tradicionais por versões mais econômicas, optar por barras no lugar de ovos ou até substituir por produtos artesanais.
Crise no cacau explica disparada dos valores do chocolate
O economista Leonardo Ferraz afirma que o principal responsável pelo aumento é o encarecimento do cacau no mercado internacional. “A matéria-prima subiu quase 190% na média dos últimos 12 meses. Isso ocorreu por problemas climáticos na África, que é a principal região produtora mundial, além de doenças nas lavouras e redução na oferta global”, explica.
Segundo ele, o impacto do cacau pesa muito mais do que custos logísticos. “A alta foi na principal composição do chocolate. O preço hoje é muito mais puxado pela matéria-prima do que pelo transporte”, afirma. A valorização do dólar frente ao real também encarece as importações e eleva os custos de produção, inclusive de embalagens.
Ferraz ressalta que o aumento não deve ser visto apenas como efeito sazonal da Páscoa. “A data pressiona a demanda no curto prazo, mas o problema do cacau é estrutural. A oferta global foi reduzida, então não é apenas uma alta momentânea”, avalia. Ele ainda alerta que, embora possam surgir promoções pontuais próximas à data, não se deve esperar preços semelhantes aos de anos anteriores.
Com renda média próxima à nacional, as famílias goianas sentem o impacto no orçamento. Alimentação já representa parcela significativa das despesas mensais. “O chocolate passa a ser considerado item supérfluo. Quando o preço sobe muito, o consumidor substitui por alternativas mais baratas ou reduz a quantidade consumida. Isso é um comportamento clássico da economia”, explica o economista.
Enquanto o chocolate dispara, outros itens básicos apresentaram queda no mesmo período, como arroz e feijão. O contraste evidencia como fatores internacionais podem afetar produtos específicos de maneira intensa.
A antecipação da venda também divide opiniões. Para o varejo, expor os produtos mais cedo ajuda a evitar estoques elevados e facilita negociações com fornecedores. Para o consumidor, porém, a exposição logo após as despesas de fim de ano e do material escolar reforça a sensação de que “não há um dia de paz” para o orçamento familiar.
Procon orienta pesquisa e fiscalização
O Procon Goiás monitora os preços e orienta os consumidores a pesquisarem em pelo menos três estabelecimentos antes de efetuar a compra. O órgão reforça que os preços são livres, mas aumentos abusivos e sem justificativa podem ser investigados com base no Código de Defesa do Consumidor.
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 151, pelo site Procon Web ou presencialmente nas unidades do Vapt Vupt. Para formalizar a reclamação, é importante apresentar o nome do estabelecimento, endereço e comprovante do preço, como nota fiscal ou foto da etiqueta.
Apesar do cenário de alta, a expectativa do comércio em Goiás é de manutenção no volume de vendas, ainda que com perfil mais cauteloso. A tendência é de maior procura por produtos menores, versões com menos cacau e ovos artesanais.
Em meio à inflação elevada e à pressão internacional sobre o cacau, a Páscoa de 2026 deve exigir planejamento redobrado dos consumidores goianos. Mais do que tradição, a data se tornou também um exercício de pesquisa, adaptação e equilíbrio no orçamento doméstico.
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