OPINIÃO

Votos de centro e esquerda serão decisivos para governadoriáveis

Daniel, Marconi e Wilder são da direita, uns com menos, outro com mais vocação bolsonarista, porém os demais campos estão abertos, sem representantes e sem pré-campanha que os alcancem

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 3 de março de 2026
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Lula da Silva obteve 41,29% dos votos e ainda elegeu três dos 17 deputados federais - Foto: Ricardo Stuckert/PR

No 2º turno de 2022, 99% das lideranças políticas de Goiás apoiaram a reeleição de Jair Bolsonaro (PL). Apesar da imensidão pró-direita, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, obteve 41,29% dos votos e ainda elegeu três dos 17 deputados federais. O Estado é território dos produtores rurais, os chamados bolsonaristas-raízes, e na Capital do Agro, Rio Verde, Lula teve 38,1%. Apesar disso, agora, os três pré-candidatos ao Governo do Estado preferidos nas pesquisas (o vice-governador Daniel Vilela, do MDB; o ex-governador Marconi Perillo, do PSDB; o senador Wilder Morais, do PL) repetem o roteiro da eleição anterior: são bolsonaristas. E do lado de Lula? Ninguém até agora.

O engraçado, se não fosse trágico para a política, é que os mesmos partidos avessos a Lula em Goiás estão em sua equipe no Governo Federal, inclusive no primeiríssimo escalão. Lideranças de PSD, MDB, União Brasil, PP e até PDT transitam pelos 246 municípios goianos como se nada tivessem com a esquerda. E têm tudo, até ministérios, vários deles. E não retribuem em votos no Congresso. Um exemplo é o deputado federal José Nelto, que já foi filiado a diversos partidos, eleito em 2022 no PP, pulou para o União Brasil e repartiu com o senador Vanderlan Cardoso o butim da Codevasf para entregar maquinário comprado por Lula.

Esfinge que finge ao mudar de partido

Vanderlan é outra esfinge parecida com Nelto, que também finge: já foi filiado a trocentas siglas, eleito no PP, está no PSD e não massifica nas bases o seu lulismo. Ambos estiveram no bolsonarismo fanático, estão no lulismo e muito antes pelo contrário. O eleitor de Lula fica perplexo, pois a rigor são fiéis ao governo na Câmara dos Deputados apenas os dois deputados do PT, Adriana Accorsi e Rubens Otoni, e a do PDT, Flávia Morais. Os demais conseguem os recursos com Lula e não pronunciam seu nome nem de boca fechada.

Entende-se o temor de quem está com os pés em duas canoas furadas, mas apenas quanto às opções pelos candidatos a presidente. Por que rejeitar o eleitor de Lula? Na manifestação bolsonarista deste domingo na Avenida Paulista, em São Paulo, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apontou o caminho do sucesso: ir a quem votou na esquerda e explicar por que a direita é melhor.

1,5 milhão de goianos votaram em Lula

Em Goiás, o conselho do deputado mineiro viria a calhar, pois os políticos locais agem como se os 1.542.115 que votaram em Lula para presidente tivessem mudado de Goiás para Nárnia ou Marte. E não, esse milhão e meio de goianos estão por aí, com título eleitoral em dia, aguardando a hora de digitar na urna eletrônica. Se Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quiser conquistar parte deles, precisa dizer por que sua gestão vai ser melhor que a de Lula. Que Flávio demore a trilhar a estrada proposta por Nikolas, é compreensível, pois precisa cuidar da campanha em um país continental. Difícil compreender os motivos de os que almejam o Palácio das Esmeraldas, sede do Poder Executivo estadual, não dedicarem tempo algum à busca desse tesouro.

A votação de Lula em Goiás foi mais de 500 vezes superior à de Bolsonaro em Nova Crixás, no Vale do Araguaia, que é terra do boi e onde Ronaldo Caiado tem terra e boi, além de ser seu domicílio eleitoral. Lula venceu Bolsonaro ali e não há sequer vestígios das pegadas dos três principais candidatos, só se forem três Curupiras, aquele personagem do folclore que tem os pés contrários ao restante do corpo, com os calcanhares para frente.

Quem rejeita esquerda e direita vai de centro

Além da esquerda, sem representante para granjear os votos de seus fãs, outro que está esquecido é o centro. Não, não é o Centro de Goiânia, que todo candidato a prefeito da Capital jura que vai revitalizar. A referência aqui é àquele que rejeita esquerda e direita, mas vai votar. Na eleição passada, quem encarnou esse papel foi Geraldo Alckmin, o vice de Lula, daí alguns lhe creditarem a vitória presidencial. Atualmente, nenhum pré-candidato a presidente da República ou a vice pode se dizer centrista, nem o próprio Alckmin, rendido à esquerda.

Como o poder não deixa vácuo, o campo está escancarado e Flávio começou a fishing expedition, a pesca probatória famosa nas lides jurídicas e temida nas hostes políticas. Ao partir para fisgar o centro, o filho de Bolsonaro quer que a esquerda prove do próprio veneno. É o tal do nem contra nem a favor, muito antes pelo contrário, só combatem um ao outro.

A esquerda dificilmente vai votar em Wilder para governador, que para compensar é mais palatável ao centro. Daniel e Marconi são mais prováveis. Em 2024, essa opção foi fundamental para a vitória de Sandro Mabel em Goiânia e Leandro Vilela em Aparecida. Ao que tudo indica, será decisivo também para o governo estadual. (Especial para O HOJE)

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