quinta-feira, 6 de agosto de 2026
futuro da capital

Escolha entre árvores e asfalto aponta para futuro da paisagem urbana de Goiânia

Cidade vive um momento de encruzilhada urbana: preservar o verde que moldou sua identidade ou ceder espaço ao avanço da pavimentação e das novas vias

Anna Salgadopor Anna Salgado em
Jardim Botânico
Foto: Jackson Rodrigues/Prefeitura de Goiânia

Goiânia, historicamente celebrada como a “capital verde” do Brasil, enfrenta um momento de tensão entre o legado ambiental que construiu sua identidade e o avanço acelerado de obras voltadas à expansão da infraestrutura viária. Detentora do título de cidade mais arborizada do mundo pelo programa Tree Cities of the World, da Organização das Nações Unidas (ONU), a capital goiana reúne números expressivos: mais de 1 milhão de árvores e 32 parques e bosques distribuídos pelo território urbano. Com 94 m² de área verde por habitante, o índice supera em quase oito vezes a recomendação mínima da ONU, de 12 m².

Apesar desses indicadores, que consolidaram a imagem de Goiânia como referência em arborização urbana, especialistas alertam que esse patrimônio ambiental passa a conviver com pressões crescentes. A expansão de obras viárias e a substituição de áreas verdes por pavimentação colocam em debate qual modelo de cidade está sendo construído e se a identidade que projetou Goiânia internacionalmente pode resistir a essa nova lógica de ocupação urbana.

Nos últimos anos, a Capital passou por um forte impulso de pavimentação. O programa “Asfalta Goiânia” estabeleceu a meta de recuperar até 800 km de vias, com investimento superior a R$ 111 milhões apenas em 2025. Até o final daquele ano, mais de 133 km de asfalto novo haviam sido executados, alcançando todas as regiões da cidade.

Embora as intervenções sejam frequentemente apresentadas como necessárias para melhorar a mobilidade e a segurança viária, a velocidade e a amplitude das obras alimentam críticas sobre o direcionamento do planejamento urbano. Para especialistas, a ampliação constante de vias pode reforçar um modelo centrado no automóvel, sem necessariamente resolver os problemas estruturais de mobilidade.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue observa que há uma orientação “automovelcêntrica” na condução das políticas urbanas, em que a redução de praças e canteiros para ampliar o fluxo de veículos passa a ser tratada como solução prioritária. Segundo ele, essa lógica ignora um dado relevante: a cidade já possui uma densidade de aproximadamente 1,5 veículo por habitante. Nesse cenário, retirar espaços públicos e áreas verdes para favorecer o transporte individual pode representar, na prática, uma perda coletiva de qualidade urbana.

Um dos episódios que evidenciam esse embate urbano envolve a proposta da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) de abrir uma rua de pista dupla cortando o Parque Flamboyant, no Jardim Goiás. O projeto pretende ligar as ruas 46 e 56 para desafogar o trânsito da região, mas prevê a pavimentação de 1,3 mil m² de área verde e o corte de dez árvores. A proposta encontrou resistência técnica. A Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) classificou a obra como “ambientalmente inviável”, destacando que a área possui proteção legal e que o entorno já apresenta elevado adensamento urbano.

O debate ganha profundidade com as análises de Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-graduação da Arquitetura da UFG e doutor em Geografia Urbana pela USP. Para o pesquisador, o planejamento urbano de Goiânia concentrou-se no núcleo original da cidade e, desde então, o crescimento ocorreu de forma fragmentada e muitas vezes desordenada.

Segundo ele, a expansão urbana tem avançado sobre as bordas da metrópole, frequentemente em áreas de cerrado, enquanto a presença do poder público costuma chegar tardiamente, marcada por uma lógica específica que ele define como “o combo asfalto e policiamento ostensivo”.

Nesse processo, afirma o pesquisador, as árvores passam a ser interpretadas como obstáculos ao desenvolvimento urbano. Em muitos casos, a vegetação deixa de ser vista como infraestrutura ambiental e passa a ser tratada como um problema a ser removido para viabilizar intervenções viárias.

Consequências da impermeabilização e o futuro

Ao tratar da mobilidade, Glauco é categórico ao afirmar que apostar exclusivamente no modelo rodoviário é uma estratégia “ineficaz e desprovida de inteligência há muitas décadas”. Para ele, cidades contemporâneas que enfrentam desafios semelhantes têm investido em sistemas integrados que priorizam transporte coletivo, ciclomobilidade e deslocamentos a pé.

O professor também chama atenção para o papel ecológico das árvores no ambiente urbano. “Cada árvore é por si só uma usina de serviços ambientais para a cidade”, afirma, destacando funções como redução da temperatura, absorção de água da chuva e mitigação de enchentes.

Na avaliação do pesquisador, a retirada sistemática de vegetação urbana tende a intensificar problemas climáticos e ambientais. Ele afirma que “Goiânia vai com toda velocidade na contramão de tudo que precisa ser feito no que tange à sua arborização” e critica o que define como um processo em que as árvores estão sendo “brutalmente assassinadas pela prefeitura”. Para ele, a abertura de uma via dentro de um parque urbano em pleno século XXI levanta questionamentos sobre os rumos do planejamento urbano local e representa uma proposta raramente observada em cidades que buscam ampliar suas áreas verdes.

O caso do Parque Flamboyant não é o único a gerar debate sobre o equilíbrio entre urbanização e preservação. Outros projetos também levantam questionamentos entre especialistas e órgãos de controle.

No Parque Vaca Brava, discute-se a implantação de um mercado público moderno na orla da área verde por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). Técnicos alertam que a região abriga nascentes importantes e que construções de grande porte podem afetar o lençol freático.

Já no Parque das Laranjeiras, um projeto propôs a redução de calçadas para a criação de 190 vagas de estacionamento na Avenida dos Flamboyants. Embora se sustente que não haveria impacto direto sobre áreas verdes, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) analisa possíveis alterações na destinação do espaço e eventuais efeitos na drenagem urbana.

O avanço do asfalto sobre áreas anteriormente permeáveis produz efeitos diretos na dinâmica ambiental da cidade. A impermeabilização do solo reduz a capacidade natural de absorção da água da chuva, aumentando a pressão sobre sistemas de drenagem e ampliando o risco de alagamentos.

Ao mesmo tempo, a redução da cobertura vegetal intensifica o fenômeno das ilhas de calor, elevando as temperaturas em um ambiente urbano que já enfrenta calor intenso durante boa parte do ano, com máximas frequentemente superiores a 35 °C.

Curiosamente, os dados indicam que Goiânia ampliou sua cobertura vegetal em 1.657 hectares entre 2003 e 2023. Ainda assim, o debate atual revela que esses ganhos convivem com pressões constantes, sobretudo em áreas estratégicas da cidade.

Para especialistas, a arborização urbana não pode ser tratada apenas como elemento paisagístico. Ela funciona como infraestrutura ambiental essencial para o equilíbrio climático, a drenagem urbana e a qualidade de vida da população.

Como aponta Glauco Gonçalves, enfrentar os desafios do crescimento urbano exige planejamento estratégico, capaz de proteger áreas sensíveis e transformá-las em parques e corredores verdes que contribuam para o microclima e para o escoamento das chuvas.

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