domingo, 30 de agosto de 2026
futuro da capital

Escolha entre árvores e asfalto aponta para futuro da paisagem urbana de Goiânia

Cidade vive um momento de encruzilhada urbana: preservar o verde que moldou sua identidade ou ceder espaço ao avanço da pavimentação e das novas vias

Anna Salgadopor em
Jardim Botânico
Foto: Jackson Rodrigues/Prefeitura de Goiânia

Goiânia, historicamente celebrada como a “capital verde” do Brasil, enfrenta um momento de tensão entre o legado ambiental que construiu sua identidade e o avanço acelerado de obras voltadas à expansão da infraestrutura viária. Detentora do título de cidade mais arborizada do mundo pelo programa Tree Cities of the World, da Organização das Nações Unidas (ONU), a capital goiana reúne números expressivos: mais de 1 milhão de árvores e 32 parques e bosques distribuídos pelo território urbano. Com 94 m² de área verde por habitante, o índice supera em quase oito vezes a recomendação mínima da ONU, de 12 m².

Apesar desses indicadores, que consolidaram a imagem de Goiânia como referência em arborização urbana, especialistas alertam que esse patrimônio ambiental passa a conviver com pressões crescentes. A expansão de obras viárias e a substituição de áreas verdes por pavimentação colocam em debate qual modelo de cidade está sendo construído e se a identidade que projetou Goiânia internacionalmente pode resistir a essa nova lógica de ocupação urbana.

Nos últimos anos, a Capital passou por um forte impulso de pavimentação. O programa “Asfalta Goiânia” estabeleceu a meta de recuperar até 800 km de vias, com investimento superior a R$ 111 milhões apenas em 2025. Até o final daquele ano, mais de 133 km de asfalto novo haviam sido executados, alcançando todas as regiões da cidade.

Embora as intervenções sejam frequentemente apresentadas como necessárias para melhorar a mobilidade e a segurança viária, a velocidade e a amplitude das obras alimentam críticas sobre o direcionamento do planejamento urbano. Para especialistas, a ampliação constante de vias pode reforçar um modelo centrado no automóvel, sem necessariamente resolver os problemas estruturais de mobilidade.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue observa que há uma orientação “automovelcêntrica” na condução das políticas urbanas, em que a redução de praças e canteiros para ampliar o fluxo de veículos passa a ser tratada como solução prioritária. Segundo ele, essa lógica ignora um dado relevante: a cidade já possui uma densidade de aproximadamente 1,5 veículo por habitante. Nesse cenário, retirar espaços públicos e áreas verdes para favorecer o transporte individual pode representar, na prática, uma perda coletiva de qualidade urbana.

Um dos episódios que evidenciam esse embate urbano envolve a proposta da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) de abrir uma rua de pista dupla cortando o Parque Flamboyant, no Jardim Goiás. O projeto pretende ligar as ruas 46 e 56 para desafogar o trânsito da região, mas prevê a pavimentação de 1,3 mil m² de área verde e o corte de dez árvores. A proposta encontrou resistência técnica. A Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) classificou a obra como “ambientalmente inviável”, destacando que a área possui proteção legal e que o entorno já apresenta elevado adensamento urbano.

O debate ganha profundidade com as análises de Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-graduação da Arquitetura da UFG e doutor em Geografia Urbana pela USP. Para o pesquisador, o planejamento urbano de Goiânia concentrou-se no núcleo original da cidade e, desde então, o crescimento ocorreu de forma fragmentada e muitas vezes desordenada.

Segundo ele, a expansão urbana tem avançado sobre as bordas da metrópole, frequentemente em áreas de cerrado, enquanto a presença do poder público costuma chegar tardiamente, marcada por uma lógica específica que ele define como “o combo asfalto e policiamento ostensivo”.

Nesse processo, afirma o pesquisador, as árvores passam a ser interpretadas como obstáculos ao desenvolvimento urbano. Em muitos casos, a vegetação deixa de ser vista como infraestrutura ambiental e passa a ser tratada como um problema a ser removido para viabilizar intervenções viárias.

Consequências da impermeabilização e o futuro

Ao tratar da mobilidade, Glauco é categórico ao afirmar que apostar exclusivamente no modelo rodoviário é uma estratégia “ineficaz e desprovida de inteligência há muitas décadas”. Para ele, cidades contemporâneas que enfrentam desafios semelhantes têm investido em sistemas integrados que priorizam transporte coletivo, ciclomobilidade e deslocamentos a pé.

O professor também chama atenção para o papel ecológico das árvores no ambiente urbano. “Cada árvore é por si só uma usina de serviços ambientais para a cidade”, afirma, destacando funções como redução da temperatura, absorção de água da chuva e mitigação de enchentes.

Na avaliação do pesquisador, a retirada sistemática de vegetação urbana tende a intensificar problemas climáticos e ambientais. Ele afirma que “Goiânia vai com toda velocidade na contramão de tudo que precisa ser feito no que tange à sua arborização” e critica o que define como um processo em que as árvores estão sendo “brutalmente assassinadas pela prefeitura”. Para ele, a abertura de uma via dentro de um parque urbano em pleno século XXI levanta questionamentos sobre os rumos do planejamento urbano local e representa uma proposta raramente observada em cidades que buscam ampliar suas áreas verdes.

O caso do Parque Flamboyant não é o único a gerar debate sobre o equilíbrio entre urbanização e preservação. Outros projetos também levantam questionamentos entre especialistas e órgãos de controle.

No Parque Vaca Brava, discute-se a implantação de um mercado público moderno na orla da área verde por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). Técnicos alertam que a região abriga nascentes importantes e que construções de grande porte podem afetar o lençol freático.

Já no Parque das Laranjeiras, um projeto propôs a redução de calçadas para a criação de 190 vagas de estacionamento na Avenida dos Flamboyants. Embora se sustente que não haveria impacto direto sobre áreas verdes, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) analisa possíveis alterações na destinação do espaço e eventuais efeitos na drenagem urbana.

O avanço do asfalto sobre áreas anteriormente permeáveis produz efeitos diretos na dinâmica ambiental da cidade. A impermeabilização do solo reduz a capacidade natural de absorção da água da chuva, aumentando a pressão sobre sistemas de drenagem e ampliando o risco de alagamentos.

Ao mesmo tempo, a redução da cobertura vegetal intensifica o fenômeno das ilhas de calor, elevando as temperaturas em um ambiente urbano que já enfrenta calor intenso durante boa parte do ano, com máximas frequentemente superiores a 35 °C.

Curiosamente, os dados indicam que Goiânia ampliou sua cobertura vegetal em 1.657 hectares entre 2003 e 2023. Ainda assim, o debate atual revela que esses ganhos convivem com pressões constantes, sobretudo em áreas estratégicas da cidade.

Para especialistas, a arborização urbana não pode ser tratada apenas como elemento paisagístico. Ela funciona como infraestrutura ambiental essencial para o equilíbrio climático, a drenagem urbana e a qualidade de vida da população.

Como aponta Glauco Gonçalves, enfrentar os desafios do crescimento urbano exige planejamento estratégico, capaz de proteger áreas sensíveis e transformá-las em parques e corredores verdes que contribuam para o microclima e para o escoamento das chuvas.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
alagamentos em Goiânia capital verde

Veja também

mega-sena

Concurso 3051

Duas apostas do DF acertam a quina da Mega-Sena e levam mais de R$ 55 mil cada

Ninguém acertou as seis dezenas do concurso 3051, e prêmio principal acumulou para R$ 36 milhões
Colisão entre veículos deixa oito pessoas feridas na zona rural de Ceilândia (DF)

colisão grave

Colisão entre veículos deixa oito pessoas feridas na zona rural de Ceilândia (DF)

Vítimas estavam conscientes e foram levadas a unidades hospitalares após acidente registrado no N�...
Justiça arquiva processo contra advogado preso por porte ilegal de arma em Goiânia

Arquivamento

Justiça arquiva processo contra advogado preso por porte ilegal de arma em Goiânia

Ministério Público apontou ausência de justa causa para ação penal; homem havia sido detido ap�...
Mega sena

Mega-sena 3051

Mega-Sena sorteia R$ 30 milhões neste domingo

Concurso 3.051 será realizado em São Paulo após nenhuma aposta acertar as seis dezenas no sorteio...
Empresário é encontrado morto no Rio Paranaíba após canoa virar em Corumbaíba

Tragédia

Empresário é encontrado morto no Rio Paranaíba após canoa virar em Corumbaíba

Policial civil de 51 anos, que também estava na embarcação durante uma pescaria, continua desapar...
Cabra produz mais de 4 toneladas de leite em um ano e mantém recorde mundial há quase 30 anos

Impressionante

Cabra produz mais de 4 toneladas de leite em um ano e mantém recorde mundial há quase 30 anos

Mais de 11 kg por dia: cabra mantém recorde mundial de produção de leite desde 1998
Aos 73 anos, idoso volta a andar de bicicleta após ser acolhido em abrigo de Goiás

Sonho realizado

Aos 73 anos, idoso volta a andar de bicicleta após ser acolhido em abrigo de Goiás

Idoso que vivia em situação de abandono volta a andar de bicicleta em abrigo de Silvânia
Corpo de uma vítima é localizado após embarcação virar no Rio Paranaíba, em Corumbaíba

Tragédia

Corpo de uma vítima é localizado após embarcação virar no Rio Paranaíba, em Corumbaíba

Corpo é localizado durante buscas por vítimas de embarcação que virou em Corumbaíba