terça-feira, 17 de março de 2026
Impasse

Projeto de auxílio para compra de armas por mulheres em Goiânia é alvo do MPGO

Aprovado na Câmara, Programa Escudo Feminino oferece até R$ 5 mil para itens de proteção; MP pede veto ao trecho que permite aquisição de arma de fogo

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 17 de março de 2026
Projeto
Ministério Público argumenta que armamento não pode ser eixo central da política de enfrentamento à violência contra mulheres -Foto: Freepik

A violência contra a mulher segue sendo um dos principais desafios de segurança pública no Brasil e tem impulsionado debates sobre quais medidas são mais eficazes para garantir proteção às vítimas. Em Goiânia, uma proposta de um projeto aprovada na Câmara Municipal reacendeu essa discussão ao prever a concessão de auxílio financeiro para que mulheres em situação de violência possam adquirir armas de fogo.

O projeto institui o chamado Programa Escudo Feminino, que prevê um conjunto de ações voltadas à proteção e capacitação de mulheres vítimas de violência doméstica. Entre as medidas previstas estão acompanhamento psicológico, orientação jurídica, cursos de defesa pessoal e a possibilidade de acesso a equipamentos de defesa, como spray de pimenta e dispositivos de choque.

A proposta também estabelece um auxílio financeiro que pode chegar a até R$ 5 mil para aquisição de itens de proteção. Entre as possibilidades previstas no texto está a compra de armas de fogo, etapa considerada final dentro do programa e condicionada ao cumprimento de uma série de requisitos.

No entanto, a iniciativa passou a ser alvo de questionamentos do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), que enviou um ofício ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, solicitando o veto ao projeto aprovado pelo Legislativo municipal.

MP-GO questiona legalidade e eficácia da proposta

No documento encaminhado à prefeitura, o Ministério Público argumenta que o armamento de mulheres não pode ser tratado como eixo central de políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. Segundo integrantes do Núcleo Estadual de Gênero do MP-GO, medidas de autodefesa podem existir, mas apenas como ações complementares dentro de um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas à proteção das vítimas.

O órgão também aponta possíveis conflitos jurídicos entre o projeto e legislações que orientam o combate à violência doméstica no País. Entre elas está a Lei Maria da Penha, considerada a principal referência legal na proteção de mulheres vítimas de violência. Para o MP-GO, a legislação brasileira estabelece diretrizes que priorizam políticas estruturais de prevenção, acolhimento e responsabilização dos agressores.

Outro ponto levantado no documento é que a política pública de enfrentamento à violência contra mulheres deve priorizar o fortalecimento da rede de atendimento, o aprimoramento de casas abrigo e o desenvolvimento de ações educativas voltadas à prevenção da violência.

Além da questão jurídica, o Ministério Público também cita dados de segurança pública que indicam riscos associados à presença de armas de fogo em ambientes domésticos onde já existe histórico de violência. Um estudo do Instituto Sou da Paz aponta que o uso de arma de fogo em agressões contra mulheres pode aumentar em até 85% a chance de morte da vítima.

O levantamento também destaca que as armas de fogo continuam sendo um dos principais meios utilizados em casos de feminicídio no Brasil, o que reforça a preocupação de especialistas em relação à ampliação do acesso a armamentos nesse contexto.

Debate sobre proteção e riscos

A discussão sobre o armamento de mulheres em situação de violência divide opiniões entre especialistas em segurança pública, pesquisadores e defensores de políticas de proteção às vítimas. De um lado, há quem defenda que ampliar as possibilidades de autodefesa pode representar uma alternativa para mulheres que já vivem sob ameaça constante de seus agressores.

Por outro lado, especialistas apontam que a dinâmica da violência doméstica costuma ocorrer dentro de ambientes de convivência entre vítima e agressor, o que pode tornar a presença de uma arma ainda mais perigosa.

Pesquisadores da área explicam que muitos casos de feminicídio acontecem dentro da própria residência da vítima e são praticados por parceiros ou ex-parceiros. Nesse cenário, existe o risco de que o agressor tenha acesso ao armamento ou utilize a arma contra a própria mulher durante um episódio de violência.

Outro aspecto destacado por especialistas envolve o impacto psicológico da violência doméstica. Em situações de ameaça ou agressão, a vítima pode estar em condição de vulnerabilidade emocional, o que pode dificultar a reação diante de um ataque. Por isso, alguns pesquisadores questionam se a autodefesa armada seria, de fato, uma solução eficaz para esse tipo de situação.

Ao mesmo tempo, há quem argumente que ampliar os instrumentos de defesa pode ajudar mulheres que já possuem medidas protetivas e continuam sendo ameaçadas. Esse ponto também aparece entre os defensores do projeto aprovado na Câmara Municipal.

Prefeito analisa projeto e admite possíveis mudanças

A decisão final sobre o futuro da proposta cabe agora ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, que pode sancionar ou vetar total ou parcialmente o texto aprovado pelos vereadores. Ao comentar o tema, Mabel afirmou que não pretende vetar completamente o projeto, mas demonstrou preocupação com o trecho que prevê a compra de armas de fogo por mulheres vítimas de violência.

“Acho que a arma é algo perigoso de ser manuseado por alguém que não tem habilidade para mexer com arma. Pode, inclusive, uma pessoa tomar a arma dessa mulher e ela acabar se tornando vítima de sua própria arma”, afirmou o prefeito.

Apesar das ressalvas em relação ao armamento, o chefe do Executivo municipal disse que considera importantes outras medidas previstas no programa, principalmente aquelas voltadas à proteção imediata de mulheres que já possuem histórico de violência.

“Então vamos equipar sim, seja com um spray de pimenta, um equipamento de choque, enfim, alguma coisa nós temos que fazer, principalmente em relação às mulheres que já estão nessas condições”, declarou.

Segundo Mabel, a prefeitura ainda analisa o texto para definir quais trechos poderão ser mantidos e quais pontos devem sofrer veto. A avaliação ocorre após a manifestação do MP e também diante do debate público que o projeto gerou.

Enquanto a decisão não é anunciada, o Programa Escudo Feminino segue no centro de um debate mais amplo sobre quais políticas públicas são mais eficazes para proteger mulheres vítimas de violência. De um lado, parlamentares defendem a ampliação das possibilidades de autodefesa. De outro, especialistas e instituições apontam que o fortalecimento da rede de proteção, prevenção e acolhimento pode ser o caminho mais seguro para reduzir os casos de agressão e feminicídio.

Leia mais: Caiado sobe em 70% pensões de vítimas do césio-137 em Goiás

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