Daniel é 1ª via, Marconi e Wilder disputam a 2ª, sem espaço para 3ª
Goiás não dá espaço a aventureiros, apenas dois novatos conseguiram, assim mesmo para o Congresso, pois até os jovens candidatos chegam ao Palácio das Esmeraldas com alguma experiência
Um fantasma ronda os agrupamentos políticos, o espectro da 3ª via. O que é, do que se alimenta, como vivem seus integrantes? Veja na noite de sexta-feira no Globo Repórter e seja raridade, pois nem William Bonner está assistindo aquilo. Quando se debate o tema, alguém sempre lembra que houve um caso de 3ª via vitoriosa, com Marconi Perillo (PSDB), em 1998. Errado. A caracterização correta é: o candidato do governo, caso haja, é a 1ª via; o da oposição, a 2ª; um outsider, aventureiro, paraquedista, a 3ª. Em Goiás, nunca houve. E não será agora que vai aparecer.
Atualmente, a 1ª via é o escolhido pelo governador Ronaldo Caiado (PSD), seu vice, Daniel Vilela (MDB), que daqui a uma dúzia de dias vai ser o titular. A 2ª está em disputa entre o ex-governador Marconi, o senador Wilder Morais (PL) e alguém do PT, ainda não anunciado. Para ocorrer 3ª via, seria necessário um bilionário do setor farmacêutico do Daia, o Distrito Agroindustrial de Anápolis, ou uma liderança popular de algum segmento, ou um mais populista que os outros com palavras de ordem para convencer a parte ignara da massa. Esforçando-se bastante, com diversas entrevistas nos diversos segmentos, a conclusão é que tal personagem não existe.
Por quê? São mortos no nascedouro pelo profissionalismo dos políticos goianos. Tome-se de exemplo o trio de candidatos. Daniel tem 42 anos e já foi vereador, deputado estadual e federal, teve cargo na Prefeitura de Goiânia, é a 2ª vez que tenta a governador – Caiado também perdeu a primeira que disputou tanto para o Executivo estadual (em 1994) quanto para o federal (em 1989). Wilder, 57 anos, disputou três vezes a senador, ganhou duas (como suplente de Demóstenes Torres em 2010 e na cabeça em 2022) e ficou em 3º com duas vagas em 2018. Marconi, o mais velho deles, 63 anos, foi eleito governador aos 34 e já tinha experiência com política, de assessor de Henrique Santillo no governo, deputado estadual combativo na oposição e federal de relevo, graças a seu amigo Aécio Neves, na época presidente da Câmara. Marconi bateu os recordes com quatro mandatos de governador, ganhou uma e perdeu duas para o Senado. Ou seja, os goianos sabem quem são, conhecem suas virtudes e defeitos, não levam o eleitor no bico, a menos que ele queira.
Oportunista nem ronda por aqui
Talvez seja sorte, mas os oportunistas não costumam rodear Goiás em busca de votos para governador. Não há registro, na história republicana, de algum doidão que saiu do nada, aportou por aqui e foi eleito chefe do Executivo. Mesmo os filhos de políticos, como Mauro Borges (filho de Pedro Ludovico Teixeira, fundador de Goiânia e governador mais longevo) e Daniel Vilela (filho de Maguito Vilela, que foi vereador em Jataí, duas vezes o melhor prefeito da história de Aparecida, deputado estadual e federal, senador e governador), exerceram cargos eletivos antes do governo.
Há casos curiosos de alguns que auscultam a situação, analisam e caem fora dessa conversa de gastar dinheiro e não dar em nada a corrida rumo ao Palácio das Esmeraldas. Os dois mais recentes foram os empresários Júnior Friboi e o advogado Djalma Rezende, que morreu no início de 2023. Pesquisas indicavam determinado percentual, bem menor que o necessário e eles não venceram na vida rasgando dinheiro – caíram fora enquanto era tempo. Muito já se falou também em outro empreendedor superbem-sucedido, Zé Garrote, que exporta aves para o mundo inteiro a partir de plantas em Itaberaí e Nova Veneza. Ele não dá nem as horas para quem se aproxima com essas conversas.
Meirelles, último goiano a ser ministro e candidato a presidente
Entre os muito ricos de Goiás, quem chegou às vias de fato foi Henrique Meirelles. Em 2001, o então presidente Fernando Henrique Cardoso prometeu, caso se filiasse a seu PSDB, seria candidato a senador. Diz-se que a também pretendente ao posto Lúcia Vânia proporcionou um espetáculo dantesco no Palácio das Esmeraldas, o governador Marconi Perillo evitou uma tragédia e tirou Meirelles do páreo. Ele saiu a federal, foi o mais votado de 2002 e não foi deputado sequer por um dia: o recém-eleito presidente Lula (PT) o chamou para presidir o Banco Central e ele topou. Depois disso, Meirelles foi ministro da Fazenda no governo Temer e candidato a presidente da República em 2018 – último goiano a conseguir as duas proezas, pois Olavo Noleto esteve ministro dias atrás, mas interino.
Para o governo, não, mas 2 já conseguiram para deputado

Apenas duas vezes ocorreram surpresas com vitória de candidatos alheios à política, que muito pouco ou quase nada haviam militado antes de obter grandes cargos. Em ambas, foi para deputado federal, em 1990 com Paulo Mandarino, do Rio de Janeiro, mas ficava em Brasília; e em 2018 com Vitor Hugo, da Bahia, mas morava no Rio de Janeiro.
Mandarino presidiu a Caixa Econômica Federal no governo Sarney (1985-89), liberou muitos recursos para lideranças goianas e aproveitou o ensejo. Não fez lei alguma nem voltou a exercer mandato. Vitor Hugo chegou via casamento com uma juíza em Goiás, lotada em Mineiros, no Sudoeste, e depois em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, e como servidor da Câmara dos Deputados, onde conheceu o então parlamentar Jair Bolsonaro. O então futuro presidente se interessou por ele porque VH era aprovado em concursos sempre em 1º lugar, inclusive na Academia Militar das Agulhas Negras, a unidade que forma a elite do Exército Brasileiro, onde Bolsonaro também estudou.
Quando o capitão se lançou à Presidência da República, o major sentiu o chamado, aquela cosquinha que inquieta os políticos na hora da decisão. Aproveitou que a esposa era magistrada em Luziânia e que havia um latente sentimento de direita. Foi eleito federal com votação de estadual, 31.190 votos (17 candidatos à Assembleia tiveram mais votos que ele e Max Menezes perdeu para deputado estadual com 30.389).
Eleitos o capitão e o major, cada qual mais inesperado que o outro, o de maior patente demonstrou ter tirocínio superior. Vitor Hugo foi ao Rio de Janeiro e procurou Bolsonaro em sua casa. Tinha à mão uma folha de papel com o que desejava fazer caso fosse escolhido líder do governo na Câmara dos Deputados. Era uma miragem, pois não dispunha de traquejo político algum, conhecia exatamente nada nem ninguém, só sabia andar no prédio porque tirava expediente ali como técnico. O capitão topou. VH não ficou no posto até o fim do mandato, mas foi o suficiente para ser o último parlamentar de Goiás com alguma relevância em Brasília – nenhum outro ocupa no atual mandato qualquer liderança. Vitor Hugo atualmente é vereador em Goiânia. (Especial para O HOJE)