A próxima crise do agronegócio brasileiro já começou
Capítulo único – Entre a expansão produtiva e o colapso de margens: a crise silenciosa que se forma no campo
O agronegócio brasileiro atravessa um momento que, à primeira vista, parece paradoxal. De um lado, o país consolida sucessivos recordes de produção e reafirma sua posição como uma das maiores potências agrícolas do planeta. De outro, o ambiente econômico do campo revela sinais claros de deterioração financeira. O que se observa é uma crise silenciosa, construída ao longo de vários ciclos agrícolas e que agora se manifesta de forma mais aguda, justamente quando o setor registra volumes produtivos historicamente elevados.
Essa tensão estrutural não surge de forma abrupta. Ela vem sendo gestada ao longo dos últimos anos, impulsionada por fatores recorrentes: volatilidade climática crescente, aumento consistente do custo de insumos, elevação do custo do crédito rural, instabilidade cambial e maior dependência externa de fertilizantes. Cada safra recente trouxe novos elementos de pressão sobre a rentabilidade agrícola. Contudo, a safra 2025/2026 parece representar um ponto de inflexão. Pela primeira vez em muitos anos, diversos estudos econômicos apontam que o setor enfrenta um dos ciclos de margens mais comprimidas da história recente, especialmente nas culturas estruturais da agricultura brasileira, como soja, milho e arroz.
Estimativas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que, em diversas regiões produtoras, a rentabilidade da soja sofreu reduções superiores a 30% quando comparada aos ciclos mais favoráveis do início da década. Esse cenário resulta da combinação entre queda dos preços internacionais e manutenção de custos elevados de produção. Dados de mercado também apontam que os custos médios da soja aumentaram aproximadamente 8% na última safra em estados relevantes do Centro-Oeste e do Sul, pressionados sobretudo por fertilizantes, defensivos e logística agrícola.
Paralelamente, eventos climáticos adversos afetaram significativamente a produtividade em diversas regiões produtoras. Consultorias internacionais revisaram para baixo as estimativas da safra brasileira de soja após perdas relevantes registradas em áreas do Sul do país, fenômeno que se soma a episódios recentes de seca prolongada, excesso de chuvas e irregularidade no regime hídrico. O resultado prático é a redução da produtividade média em determinadas regiões e o aumento da imprevisibilidade do planejamento agrícola.
A conjuntura internacional também contribui para agravar esse quadro. O aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Irã, produz reflexos diretos na cadeia global de fertilizantes e na logística marítima. O Brasil permanece altamente dependente da importação desses insumos estratégicos, e qualquer instabilidade na região do Estreito de Hormuz — rota fundamental do comércio global de fertilizantes — tende a gerar elevação de custos logísticos, volatilidade de preços e incerteza no abastecimento.
Enquanto isso, o mercado internacional enfrenta um cenário de oferta elevada de commodities agrícolas. A própria expansão produtiva brasileira, somada ao aumento da produção em outros polos agrícolas globais, contribui para pressionar os preços internacionais. Esse ambiente de abundância relativa, combinado com custos crescentes, produz aquilo que economistas agrícolas definem como compressão simultânea de margens, fenômeno que corrói gradualmente a capacidade financeira do produtor.
Os efeitos dessa dinâmica já começam a aparecer nos indicadores de crédito rural. Dados analisados a partir de estatísticas do Banco Central apontam aumento relevante da inadimplência em determinadas modalidades de financiamento agrícola, refletindo o enfraquecimento da capacidade de pagamento em segmentos específicos do setor. O impacto tende a ser mais severo entre médios e pequenos produtores, cuja estrutura financeira é menos resiliente e cuja dependência de crédito de custeio é significativamente maior.
Esse é um ponto crucial para compreender o momento atual. Grandes grupos agrícolas, operações verticalizadas e produtores com acesso a instrumentos sofisticados de hedge financeiro possuem maior capacidade de absorver ciclos adversos. Já o produtor tradicional — responsável por parcela significativa da produção nacional — encontra-se cada vez mais exposto a um ambiente de custos elevados, margens reduzidas e maior dificuldade de acesso a crédito.
Diante desse cenário, o agronegócio brasileiro se aproxima de uma fase de reorganização estrutural. A gestão do risco passa a ocupar posição central na estratégia produtiva. Instrumentos de proteção financeira, como hedge cambial e travas de preço em bolsas internacionais, deixam de ser mecanismos opcionais e passam a integrar o núcleo da gestão agrícola moderna. Paralelamente, torna-se indispensável fortalecer estruturas de governança patrimonial, planejamento tributário e organização financeira da atividade rural.
Há também desafios institucionais que precisam ser enfrentados. O país ainda convive com um déficit de armazenagem superior a 120 milhões de toneladas, gargalo logístico que compromete eficiência econômica e amplia custos de comercialização. Somado a isso, a dependência externa de fertilizantes continua sendo um dos pontos mais vulneráveis da segurança produtiva nacional.
A crise que se desenha para a próxima safra, portanto, não é apenas uma crise agrícola. Trata-se de um fenômeno multifatorial que envolve clima, geopolítica, crédito, logística e organização econômica do setor. O modelo de expansão baseado exclusivamente no aumento de área cultivada e volume produtivo já não é suficiente para garantir sustentabilidade financeira no campo.
O novo ciclo do agronegócio brasileiro exigirá algo diferente: gestão profissional, inteligência econômica, instrumentos financeiros sofisticados e sólida segurança jurídica.
Porque, no cenário que começa a se formar, produzir muito já não será suficiente. Será necessário produzir com estratégia.
Pedro Terra, sócio fundador do STG Advogados