sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Saga na gestão de maternidades

Troca de gestão na Maternidade Célia Câmara expõe fragilidade dos contratos emergenciais na saúde de Goiânia

A Prefeitura substitui OS da maternidade após colapso nos atendimentos. SMS defende medida provisória enquanto Sindsaúde aponta falhas, precarização e risco de novas instabilidades na rede de saúde

Letícia Leitepor em
Troca de gestão na Maternidade Célia Câmara expõe fragilidade dos contratos emergenciais na saúde de Goiânia
Sindicato denuncia cortes de recursos, fechamento de leitos e insegurança para trabalhadores, enquanto gestão municipal promete solução definitiva em até 120 dias. Foto: Divulgação

A decisão da Prefeitura de Goiânia de substituir a organização social responsável pela gestão do Hospital e Maternidade Célia Câmara (HMCC) reacendeu o debate sobre a insistência no modelo de contratações emergenciais para administrar unidades estratégicas da rede pública de saúde. A troca ocorreu poucos dias após uma crise que comprometeu o atendimento materno-infantil na capital e expôs fragilidades na execução dos serviços.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou nesta quinta-feira (2) que suspendeu preventivamente o contrato com a Sociedade Beneficente São José (SBSJ), após não receber comprovação de que as escalas médicas estavam completas e de que os estoques de insumos e medicamentos haviam sido regularizados. Equipes técnicas da pasta que acompanharam a situação presencialmente também constataram que os serviços não foram plenamente restabelecidos.

Diante do cenário, o Instituto Patris assumiu de forma provisória a gestão da unidade na noite de quarta-feira (1º/3). Segundo a SMS, a escolha ocorreu por meio de carta-convite, com base na experiência da instituição em unidades com perfil semelhante e desempenho considerado satisfatório. A secretaria afirma ainda que mantém os repasses financeiros em dia e que outras maternidades da rede seguem operando normalmente.

Apesar da substituição, a nova gestão mantém o caráter emergencial que tem marcado a condução das maternidades municipais desde 2023. A própria SMS reconhece que o modelo atual é transitório e informa que um chamamento público para contratação definitiva está em andamento, com previsão de conclusão em até 120 dias.

Para o Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde/GO), no entanto, a mudança reforça um padrão de instabilidade e evidencia falhas no planejamento e na fiscalização dos contratos. Em nota, a entidade afirma que a crise recente resulta de falta de compromisso tanto da prefeitura quanto da organização social anterior, com prejuízos diretos aos profissionais e à população atendida.

O sindicato também chama atenção para o impacto das trocas sucessivas de gestão sobre os trabalhadores. De acordo com a entidade, cerca de 250 profissionais devem receber verbas rescisórias após o encerramento do contrato com a SBSJ, mas ainda não há definição sobre a forma de pagamento. A incerteza, segundo o Sindsaúde, repete dificuldades já enfrentadas em transições anteriores.

Renovação do contrato emergencial da maternidade em fevereiro de 2026

Outro ponto destacado é a decisão da prefeitura de renovar, em fevereiro deste ano, o contrato emergencial com a própria SBSJ, mesmo diante de indícios de descumprimento de metas. O sindicato cita a existência de documentos que indicariam que a SMS já tinha conhecimento de falhas na execução dos serviços e, ainda assim, optou pela prorrogação do vínculo.

Além das questões administrativas, o Sindsaúde aponta impactos diretos na assistência. Entre os problemas mencionados estão a redução de repasses financeiros, fechamento de leitos e diminuição da capacidade de atendimento. A entidade avalia que o modelo de gestão por organizações sociais contribui para a precarização das relações de trabalho, com vínculos frágeis e condições inadequadas.

A crítica se estende ao próprio modelo de terceirização. O sindicato defende que a gestão das maternidades seja retomada pelo poder público e argumenta que a transferência integral da administração para organizações sociais contraria princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), como a universalidade e o controle social. A entidade também menciona posicionamentos do Conselho Municipal de Saúde contrários ao formato adotado na capital.

Enquanto isso, a SMS sustenta que atua para garantir a continuidade dos serviços e reforça o compromisso com a qualidade da assistência materno-infantil. A pasta afirma que acompanha de perto a situação da unidade e que a troca de gestão busca assegurar o funcionamento adequado da maternidade.

A crise recente, no entanto, evidencia um problema recorrente na rede municipal: a dependência de soluções emergenciais para manter o atendimento em funcionamento. Mesmo com a promessa de um processo seletivo definitivo em andamento, a sucessão de contratos provisórios levanta dúvidas sobre a capacidade de garantir estabilidade assistencial e segurança para profissionais e pacientes.

Responsável por uma parcela significativa dos partos realizados na capital, a Maternidade Célia Câmara permanece sob monitoramento. A expectativa é que a nova gestão consiga restabelecer a normalidade dos serviços, mas o episódio amplia a pressão por mudanças estruturais na condução da saúde pública em Goiânia.

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