terça-feira, 7 de abril de 2026
OPINIÃO

Dívidas e vida pior podem fazer eleitor furar bolha da polarização

Estão atolados nos boletos ou no cartão de crédito 9 em cada 10 brasileiros, que ficam sem luz em casa, mas não deixam de usar as drogas legais ou ilícitas que estão a seu dispor, incluindo o crédito consignado e as bets

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 6 de abril de 2026
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Até agora, nenhum discurso havia servido de espetinho para furar a bolha, mas surgiu uma jantinha para a qual o eleitor não foi convidado - Foto Marcello Casal Jr ABr

Na véspera do último Natal, Papai Datafolha trouxe na rena um retrato da polarização política no Brasil. Segundo a pesquisa, apenas 18% dos eleitores são isentos, quase o dobro (34%) bolsonaristas e os petistas, ainda mais (40%). Por isso, 0% se surpreendeu com a subida de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) logo após o pia o escolher como candidato pelo clã. Porém, isso não significa que o mundo acabou, apenas que Bolsonaro e Lula (PT) são os nomes conhecidos. Os demais, inclusive Ronaldo Caiado (PSD) precisam se apresentar. Até agora, nenhum discurso havia servido de espetinho para furar a bolha, mas surgiu uma jantinha para a qual o eleitor não foi convidado.

Outra pesquisa, esta da Serasa e já deste ano, informa que não temos condição de despachar um venezuelano na esquina por falta de moedinhas. Em janeiro, 81 milhões e 300 mil brasileiros estavam não apenas pendurados em dívidas, mas com elas atrasadas. E não é prestação de eletrônicos ou carro, mas de água e luz. Os boletos vencidos estão na média de R$ 6.500. No ano passado, 17 milhões de famílias tiveram a energia de casa cortada por falta de pagamento. Nem de direita ou de esquerda, essas pessoas são apenas insolventes. O drama atinge patrões e empregados, no campo e na cidade, de Norte a Sul, liberais, conservadores ou socialistas.

Na marra, a polarização vai deixando de resistir

Talvez por isso, os índices não resistiram a um trimestre. No início de março, o instituto AtlasIntel/Arko Advice divulgou que o PL tem 27% dos eleitores e o PT, 25,4%. Ou seja, a bolha está sendo furada. E na marra. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo publicou que no início do ano 79,5% das residências do Brasil estavam com boletos atrasados. Como não existe educação financeira, a pessoa se enrola para viver com o que ganha.

É só dar um recorte nos servidores públicos. Portanto, em tese, a elite dos trabalhadores assalariados, pois não podem ser demitidos, ganham bem, recebem em dia e se programam. Só em tese. O funcionalismo estatal está na lama do crédito consignado, tanto o oficial quanto o por fora. Dá até pena da penúria em que sobrevivem, do professor ao policial militar, inclusive os de alta patente.

É preciso esconder a cara para fugir dos cobradores

Por isso, não importa que o desemprego esteja em 5%, mas que os 95% permanecem com o rosto escondido para fugir dos cobradores. Pensando em transformar esses desesperados em votantes do governo, foi criado o Desenrola, que limpou o nome de milhões de endividados. O problema é que no mês seguinte eles já estavam com novos financiamentos, comprando fiado e juntando carnês.

O mesmo criador do Desenrola lucra com as bets, que tomam os poucos trocados que sobram para o assalariado e o pequeno empresário. No fim, a jogatina se transformou em item de doença mental, no mesmo sistema da droga, pois vai das facções contando o dinheiro sobre o cadáver da clientela. Devendo, perdendo amigos e parentes, o eleitor vai às urnas. Na hora de digitar os números dos candidatos, a mão é a mesma que assinou os empréstimos que lhes tira o sono. Não há vida pior, a menos que o novo governo ignore esse exército de zumbis com os boletos zanzando pelas ruas ou na recuperação judicial.

(Especial para O HOJE)

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