quarta-feira, 15 de abril de 2026
Inadimplência

Endividamento atinge 2,6 milhões de goianos e governo estuda uso do FGTS para conter avanço das dívidas

Mesmo com custo de vida abaixo da média nacional, alta dos juros e pressão nos preços ampliam dificuldades financeiras e aumento endividamento. Pacote federal prevê saque do FGTS e renegociação com descontos

Letícia Leitepor Letícia Leite em 13 de abril de 2026
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Medidas do governo podem oferecer descontos que podem chegar a 90% e juros menores para tentar conter a inadimplência. Foto: Joédson Alves/ABr

O número de pessoas inadimplentes em Goiás ultrapassa 2,6 milhões e evidencia um cenário de crescente pressão sobre o orçamento das famílias. Segundo dados mais recentes da Serasa, o volume total de dívidas no Estado se aproxima de R$ 18 bilhões, o que reforça o avanço do endividamento mesmo em um contexto de custo de vida relativamente mais baixo que a média nacional.

Levantamentos apontam que o custo médio mensal em Goiás gira em torno de R$ 3.370, colocando o Estado entre os menos onerosos do País e abaixo da média nacional de despesas. Ainda assim, esse fator não tem sido suficiente para conter o desequilíbrio financeiro. O valor médio das dívidas por inadimplentes chega a cerca de R$ 6,7 mil , o que indica comprometimento significativo da renda e dificuldade crescente de regularização das pendências.

Ao todo, são quase 10 milhões de dívidas ativas no Estado, distribuídas entre diferentes setores da economia. O perfil do endividamento mostra forte concentração em instituições financeiras, principalmente no uso do cartão de crédito, que segue como principal modalidade. Esse tipo de débito responde pela maior fatia das pendências, seguido por contas básicas, como energia elétrica e água, além de compromissos com financeiras e serviços.

O uso do crédito para cobrir despesas essenciais tem se tornado cada vez mais comum entre as famílias, especialmente entre as de menor renda. Nesse cenário, o cartão de crédito deixa de ser uma ferramenta de consumo e passa a funcionar como complemento de renda, o que eleva o risco de descontrole financeiro e dificulta a quitação das dívidas no médio prazo.

De acordo com a economista Mariana Aguiar, o avanço do superendividamento está diretamente ligado ao atual ambiente econômico. A combinação de juros elevados, inflação ainda presente em itens básicos e ausência de planejamento financeiro tem reduzido a capacidade de pagamento. Com o orçamento mais apertado, muitas famílias recorrem ao crédito como alternativa imediata, assumindo custos elevados que se acumulam ao longo do tempo.

Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) reforçam o quadro de alerta. Em Goiás, 75,8% das famílias estavam endividadas em março, avanço expressivo em relação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, 38,6% possuem contas em atraso, e apenas uma em cada cinco afirma ter condições de quitar os débitos, o que indica tendência de agravamento da inadimplência nos próximos meses.

O impacto desse cenário já se reflete no consumo e na atividade econômica. Com a maior parte da renda comprometida com dívidas, as famílias reduzem gastos e priorizam despesas essenciais, como alimentação, moradia e transporte. Compras não urgentes são adiadas, o que afeta diretamente o comércio e reduz o ritmo da economia local, criando um efeito em cadeia que atinge diferentes setores.

Outro fator que agrava a situação é o contexto internacional. A alta recente nos preços do petróleo, impulsionada por tensões no Oriente Médio, tem pressionado combustíveis e encarecido produtos e serviços. Esse aumento se espalha por toda a cadeia produtiva, elevando custos logísticos e impactando diretamente o preço final ao consumidor, o que reduz o poder de compra e dificulta ainda mais o equilíbrio financeiro das famílias.

No cenário nacional, o problema atinge dimensão ainda maior. Em fevereiro, o Brasil somou mais de 81 milhões de pessoas inadimplentes, com crescimento tanto no número de dívidas quanto no valor total devido. O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de débitos alcançou 29,33% em janeiro, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2005, segundo dados do Banco Central.

Governo estuda saque do FGTS e renegociação com descontos para reduzir endividamento

Diante desse quadro, o governo federal estuda medidas para tentar conter o avanço do endividamento. Entre as propostas apresentadas ao jornal Folha de S. Paulo, está a possibilidade de trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos sacarem até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas. A iniciativa pode liberar cerca de R$ 7 bilhões e beneficiar milhões de brasileiros, funcionando como uma alternativa emergencial para aliviar o orçamento doméstico.

O pacote também prevê programas de renegociação com descontos que podem chegar a até 90% do valor devido, além de refinanciamento com taxas de juros mais baixas e uso de garantias públicas para estimular instituições financeiras a oferecer condições mais acessíveis. A estratégia inclui ainda medidas voltadas a trabalhadores informais e pequenas empresas, ampliando o alcance das ações.

Apesar das iniciativas em discussão, especialistas avaliam que os efeitos tendem a ser limitados no curto prazo, diante do volume elevado de dívidas e do ambiente econômico ainda desafiador. Em Goiás, onde o endividamento avança mesmo com custo de vida relativamente menor, o cenário aponta para um período de atenção redobrada. Sem alívio consistente nos juros e melhora no poder de compra, a tendência é de manutenção da pressão sobre o orçamento das famílias e aumento do risco de inadimplência nos próximos meses.

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