sábado, 31 de outubro de 2026
Pacote de medidas do governo

FGTS pode liberar R$ 7 bilhões para quitar dívidas mas economista alerta para risco maior no futuro

Proposta do governo busca de permitir o saque de até 20% do FGTS, visa aliviar orçamento das famílias, mas economista aponta risco de efeito limitado e possível estímulo ao consumo em cenário de juros altos

Letícia Leitepor em
FGTS pode liberar R$ 7 bilhões para quitar dívidas mas economista alerta para risco maior no futuro
Além disso, iniciativa levanta debate sobre estímulo ao consumo e possível uso em contexto econômico e eleitoral. Foto: Joédson Alves/ABr

A proposta do governo federal de permitir o saque de até 20% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento de dívidas reacendeu o debate sobre os limites das políticas de combate ao endividamento no País. Apresentada como uma alternativa para aliviar o orçamento das famílias, a medida pode liberar cerca de R$ 7 bilhões e alcançar milhões de brasileiros, mas enfrenta questionamentos sobre sua eficácia no longo prazo.

Na avaliação do economista Luiz Carlos Ongaratto, a iniciativa tem potencial para oferecer alívio imediato, mas não resolve o problema estrutural. “O pagamento de dívidas com o FGTS pode ser um paliativo para algumas famílias, porém o que está causando esse endividamento recorde não está sendo abordado pelo governo”, afirma. Segundo ele, fatores como taxas de juros elevadas, inflação com tendência de alta e falta de responsabilidade fiscal seguem como os principais motores do desequilíbrio financeiro.

A proposta surge em um cenário de inadimplência elevada, com milhões de brasileiros enfrentando dificuldades para manter as contas em dia. O pacote também prevê programas de renegociação com descontos que podem chegar a até 90% do valor devido, além de refinanciamento com taxas de juros mais baixas e uso de garantias públicas para estimular acordos com instituições financeiras.

Para Ongaratto, o uso do FGTS pode ser vantajoso em casos específicos, principalmente para quitar dívidas com juros elevados, como as de cartão de crédito. Ainda assim, ele faz um alerta sobre a sustentabilidade da medida. “Muitas famílias não possuem renda suficiente para honrar os pagamentos mensais. Isso faz a dívida aumentar. O problema maior é ficar sem o FGTS e continuar endividado”, pontua.

O economista também chama atenção para o histórico de iniciativas semelhantes. Segundo ele, programas de renegociação costumam gerar adesão inicial, mas enfrentam dificuldades na manutenção dos acordos. “Pode ser que haja um interesse maior em renegociar, o ponto crítico será o plano de pagamento pelos devedores, que podem não ter renda para honrar com o acordo”, explica.

Outro ponto levantado é o possível impacto da medida sobre a economia. A liberação de recursos tende a aumentar a circulação de dinheiro, o que pode pressionar a inflação. Para o especialista, existe o risco de que o alívio momentâneo seja seguido por novo ciclo de endividamento. “Pode ser que as pessoas quitem dívidas, e novamente se endividem”, afirma.

Uso do FGTS como instrumento de política econômica

O debate também envolve o uso do FGTS como instrumento de política econômica. Além de servir como reserva para o trabalhador, o fundo financia setores estratégicos, como habitação e infraestrutura. Nesse sentido, Luiz Carlos alerta para possíveis efeitos colaterais da proposta. “O volume do lastro para operações no sistema de habitação fica prejudicado, podendo ficar ainda mais restrito”, diz.

Ele destaca ainda impactos individuais no longo prazo. “O trabalhador também poderá ter seu FGTS reduzido para quando se aposentar, o que acaba jogando um problema do presente para o futuro”, afirma.

A proposta também levanta discussões sobre o momento de sua implementação. Em meio a um cenário de atividade econômica pressionada e consumo enfraquecido, medidas que ampliam a liquidez podem ter efeito direto sobre a demanda. Parte dos analistas avalia que iniciativas desse tipo podem estimular o consumo no curto prazo, o que abre espaço para debate sobre seu uso em contexto político e eleitoral.

Apesar das críticas, o governo defende que a medida integra um conjunto de ações estruturadas para enfrentar o alto nível de endividamento no País. A expectativa é ampliar o acesso a condições mais favoráveis de pagamento e evitar a escalada da inadimplência. Para o economista, no entanto, qualquer solução duradoura passa por ajustes mais amplos na economia.

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