Novo Desenrola chega ao campo e mira crise do crédito rural em Goiás
Programa federal inclui renegociação de dívidas rurais, uso do FGTS e juros limitados. No Estado, agro enfrenta alta da inadimplência e avanço das recuperações
O lançamento do Novo Desenrola Brasil pelo governo federal abriu uma nova frente de renegociação de dívidas para produtores rurais em um momento de agravamento da crise financeira no campo. A nova versão do programa, apresentada nesta segunda-feira (4), ampliou o alcance da política de reestruturação de débitos e passou a contemplar agricultores que acumulam contratos em atraso, especialmente aqueles ligados a custeio, investimento e crédito pessoal utilizado para manter a atividade rural.
O programa foi estruturado em quatro eixos: famílias, estudantes com dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), empresas e produtores rurais. No caso do agro, a proposta busca atender um setor que enfrenta forte deterioração da capacidade de pagamento, pressionado por perdas climáticas, aumento dos custos de produção e queda no preço das principais commodities.
As regras permitem renegociação de débitos contratados até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 90 dias e dois anos. Entram na lista operações de crédito pessoal, cartão de crédito, cheque especial e contratos ligados à atividade produtiva. A adesão ocorre diretamente pelos canais oficiais das instituições financeiras.
Entre os principais atrativos estão os descontos que variam de 30% a 90% sobre o valor principal da dívida, além de juros limitados a 1,99% ao mês. O governo também autorizou o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação parcial ou integral de débitos, com limite de até 20% do saldo disponível ou R$ 1 mil, prevalecendo o maior valor. A transferência ocorre diretamente da Caixa Econômica Federal para o banco credor.
Outra medida prevista é a criação de um fundo garantidor com recursos públicos para cobrir parte do risco das operações renegociadas. A proposta é ampliar a segurança para os bancos e facilitar condições mais acessíveis aos devedores. O programa ainda prevê perdão automático de dívidas de até R$ 100 em alguns casos e bloqueio de um ano em plataformas de apostas para quem aderir à renegociação.
Crise no campo pressiona crédito e amplia recuperação judicial
No campo, o impacto pode ser significativo. Dados da Serasa Experian apontam que o agronegócio brasileiro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior número desde o início da série histórica, em 2021. Goiás aparece na segunda posição nacional, com 296 pedidos, atrás apenas de Mato Grosso.
O avanço das recuperações judiciais reflete o ambiente de pressão econômica vivido pelo setor. Levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) mostra que a inadimplência da carteira de crédito rural no Estado chegou a 6,48% no fim de 2025, considerando contratos com mais de 90 dias de atraso, dentro de um universo de R$ 80 bilhões em crédito disponibilizado.
O gerente técnico da Faeg, Edson Novaes, afirmou que a situação resulta de uma combinação de fatores que comprometem a renda do produtor. Segundo ele, as sucessivas quebras de safra, provocadas por seca prolongada e chuvas intensas, reduziram a produtividade e dificultaram o cumprimento das obrigações financeiras.
Segundo Novaes, a queda no preço de commodities estratégicas também agravou o cenário. “Soja, milho, pecuária de corte e leite sofreram desvalorização, juntamente com o aumento dos custos de produção, impactam também na renda e na capacidade de pagamento dos produtores, impedindo que os mesmos pudessem pagar os seus compromissos financeiros e continuar produzindo”, pontua.
A Faeg acompanha o crescimento da inadimplência por meio do Comitê Jurídico de Crédito Rural e do Grupo de Trabalho do Adimplemento do Setor Rural de Goiás. A entidade atua no apoio à renegociação, prorrogação e alongamento de contratos junto a bancos e cooperativas.
Para o setor, o Novo Desenrola representa uma oportunidade de reorganização financeira, mas especialistas alertam que o sucesso dependerá das condições efetivas de acesso ao crédito e da capacidade de retomada da renda no campo.
Em Goiás, onde o agro sustenta parte importante da economia, o resultado do programa pode influenciar diretamente o ritmo da próxima safra e a estabilidade financeira de milhares de produtores.