segunda-feira, 25 de maio de 2026
Mercado da carne

Europa endurece regras sanitárias e amplia pressão sobre frigoríficos em Goiás

Nova exigência da União Europeia pressiona cadeia da carne bovina, amplia custos de rastreabilidade nos frigoríficos e surge após suspensão de exportações brasileiras pela China

Letícia Leitepor Letícia Leite em 24 de maio de 2026
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Setor da carne corre para reforçar rastreabilidade e compliance após União Europeia endurecer regras e China suspender frigoríficos brasileiros. Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A cadeia da carne bovina brasileira entrou em estado de alerta diante da nova exigência sanitária anunciada pela União Europeia para produtos de origem animal. A decisão ocorre após o bloco europeu excluir o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao continente. A medida foi notificada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no último dia 12 e começa a valer em 3 de setembro, caso o governo brasileiro não apresente as garantias sanitárias exigidas pelos europeus. 

A partir desta data, frigoríficos e produtores precisarão comprovar integralmente a ausência de antimicrobianos nos produtos exportados ao bloco europeu, medida que pode atingir um mercado estimado em até US$ 2 bilhões para o agronegócio nacional, segundo dados do sistema Agrostat do Ministério da Agricultura (Mapa).

O novo cenário preocupa especialmente Estados com forte presença pecuária, como Goiás, um dos principais polos de produção e exportação de carne bovina do País. Além do impacto econômico direto, representantes do setor apontam risco de exclusão de pequenos e médios fornecedores incapazes de atender às novas exigências documentais e de rastreabilidade.

Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás (Seapa) mostram que, somente em 2025, Goiás exportou 26,3 mil toneladas de produtos ao mercado europeu, movimentando cerca de US$ 189 milhões. O volume representa aproximadamente 4% das exportações do setor. 

A mudança regulatória também chega em um momento delicado para o setor exportador brasileiro. Nesta semana, a China suspendeu temporariamente as exportações de três frigoríficos nacionais após identificar irregularidades sanitárias em cargas de carne bovina enviadas ao país asiático. O episódio reforçou o clima de preocupação entre exportadores e acendeu o debate sobre o aumento das barreiras sanitárias internacionais.

Pressão internacional sobre a carne brasileira

A nova regra europeia exigirá que frigoríficos comprovem, de forma auditável, todo o histórico sanitário da cadeia produtiva, incluindo medicamentos utilizados nos animais, origem dos insumos e protocolos veterinários adotados desde a produção nas fazendas até o processamento final.

Segundo a União Europeia, o Brasil deixou de apresentar informações consideradas suficientes sobre o controle e a utilização de antimicrobianos na criação animal, descumprindo regras sanitárias já vigentes no bloco europeu. Com isso, animais vivos destinados à produção de alimentos, além de produtos como carne bovina, aves, ovos, peixes e mel, podem ser barrados caso o País não reverta a situação até setembro. 

Segundo o advogado André Aidar, especialista em Direito do Agronegócio, o principal desafio deixou de ser apenas sanitário e passou a ser jurídico e documental.

“O maior risco hoje não é apenas a questão sanitária em si, mas a incapacidade de provar a conformidade regulatória de forma tecnicamente consistente”, afirma.

De acordo com o especialista, a União Europeia desloca o foco do produto final para toda a governança da cadeia produtiva. Isso significa que qualquer falha documental pode comprometer uma operação inteira de exportação.

“Erros considerados simples, como divergências entre registros do produtor e do frigorífico, falhas de identificação de lote e lacunas temporais na rastreabilidade, podem ser fatais”, alerta.

Goiás no centro da preocupação

O impacto potencial da medida europeia ganha peso em Goiás devido à relevância da pecuária bovina no Estado. Goiás possui um dos maiores rebanhos do País e abriga frigoríficos habilitados para exportação internacional, além de milhares de produtores integrados à cadeia da carne.

A Seapa afirmou que Goiás possui capacidade sanitária reconhecida, estrutura produtiva competitiva e experiência em rastreabilidade, fatores considerados estratégicos para adaptação às novas exigências internacionais. A pasta avalia que o Brasil possui condições técnicas para reverter a exclusão antes da entrada em vigor das restrições. 

Nos bastidores do setor, a preocupação é que as novas exigências aumentem os custos operacionais e acelerem um processo de concentração do mercado, favorecendo grandes grupos com estruturas mais robustas de compliance e rastreabilidade.

A discussão ganhou ainda mais força após a China reabilitar, na última semana, a unidade da JBS em Mozarlândia, que estava suspensa desde março de 2025. A retomada foi celebrada pelo setor exportador como sinal de confiança das autoridades chinesas no sistema sanitário brasileiro.

Ao mesmo tempo, porém, o governo chinês decidiu suspender temporariamente outras três plantas brasileiras após identificar irregularidades em cargas exportadas. Foram afetadas unidades da JBS em Pontes e Lacerda, da PrimaFoods em Araguari e da Frialto em Matupá. No caso da Frialto, autoridades chinesas identificaram a presença do hormônio sintético acetato de medroxiprogesterona em uma das cargas enviadas ao país.

Corrida por adaptação nos frigoríficos

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Foto: Divulgação/Porto de Santos

Diante do endurecimento sanitário internacional, frigoríficos brasileiros iniciaram uma corrida para revisar contratos, ampliar mecanismos de controle interno e reforçar auditorias de rastreabilidade.

Aidar afirma que três medidas já passaram a ser tratadas como prioridade no setor: inclusão de cláusulas robustas de compliance sanitário nos contratos, implantação de sistemas permanentes de due diligence e integração entre áreas jurídicas, sanitárias, exportadoras e de ESG.

“O frigorífico passa a depender de uma rede de fornecedores plenamente auditáveis, e qualquer falha documental de um elo pode contaminar juridicamente toda a operação”, explica.

Segundo ele, produtores que não conseguirem comprovar adequadamente a origem dos insumos e o histórico veterinário dos animais correm risco de perder espaço dentro das cadeias exportadoras.

A preocupação é maior entre pequenos e médios pecuaristas, que muitas vezes ainda possuem sistemas de controle menos digitalizados e menor capacidade de investimento em governança sanitária.

Debate sobre barreiras comerciais

O endurecimento das exigências europeias também reacendeu críticas dentro do agronegócio brasileiro sobre possível uso de barreiras sanitárias como instrumento de proteção comercial.

A nova medida foi anunciada em meio às negociações relacionadas ao acordo entre Mercosul e União Europeia, ampliando o debate sobre eventuais restrições não tarifárias impostas aos produtos brasileiros.

Para o especialista do setor, embora a União Europeia tenha legitimidade para exigir padrões sanitários rigorosos, a aplicação desigual das regras pode abrir espaço para questionamentos internacionais.

Ainda assim, o entendimento predominante entre exportadores é que eventuais disputas diplomáticas ou comerciais possuem efeito lento, enquanto os impactos econômicos são imediatos. Por isso, a estratégia considerada mais viável no curto prazo é acelerar a adaptação regulatória e fortalecer os mecanismos de comprovação sanitária.

Hoje, o Brasil possui mais de 100 frigoríficos habilitados para exportar carne bovina à China, principal destino internacional do produto brasileiro, além de forte presença nos mercados europeu, árabe e asiático.

Com o avanço das exigências internacionais, representantes do setor avaliam que rastreabilidade, documentação sanitária e governança jurídica deixarão de ser diferenciais competitivos e passarão a ser requisitos básicos para permanência no mercado global.

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