segunda-feira, 25 de maio de 2026
rotina de atividade física

O que faz tanta gente abandonar a academia?

Pesquisas indicam que prazer, autonomia e sensação de pertencimento ajudam a manter a rotina de atividade física

Luana Avelarpor Luana Avelar em 25 de maio de 2026
academia

A matrícula costuma vir acompanhada de uma promessa de recomeço. Nos primeiros dias, há roupa separada, garrafa de água na bolsa e a sensação de que a rotina vai engrenar. Poucas semanas depois, o treino disputa espaço com o cansaço, o trabalho, a casa, o celular e o sofá.

A desistência da academia costuma ser lida como falta de disciplina. A ciência do comportamento aponta uma explicação menos moralista. O problema não está apenas em saber que exercício faz bem. Está em transformar esse conhecimento em uma prática repetida e prazerosa.

Campanhas de saúde pública insistem nos benefícios da atividade física. Exercício ajuda a prevenir doenças, melhora o condicionamento e contribui para a longevidade. Ainda assim, boa parte da população segue abaixo dos níveis recomendados. A informação circula, mas não vira hábito automaticamente.

Leia mais: Exercitar de manhã ou à noite: qual é melhor para manter a disciplina?

O descompasso aparece em comentário científico publicado em 2026 na revista Sports Medicine and Health Science. No artigo, pesquisadores defendem que diretrizes sobre atividade física precisam considerar melhor como as pessoas decidem. A mensagem “faça exercício porque é bom para a saúde” é correta, mas insuficiente.

Parte da dificuldade está no tempo da recompensa. O exercício cobra no presente: esforço, deslocamento, mensalidade e desconforto. Já os benefícios mais repetidos aparecem no futuro, como evitar doenças ou viver mais. Entre um ganho distante e o alívio imediato de descansar, o cérebro favorece o que recompensa agora.

É por isso que tanta gente começa animada e para antes de consolidar o hábito. A empolgação inicial pode levar alguém até a esteira, mas não garante permanência. Para continuar, a experiência precisa deixar memória positiva.

Quem associa o treino a dor excessiva, vergonha, inadequação ou cobrança tende a evitar a repetição. Quem encontra prazer, acolhimento, sensação de competência e autonomia tem mais chance de voltar.

A academia não fracassa apenas quando falta equipamento ou orientação. Fracassa também quando vira ambiente hostil para quem está começando. Treinos intensos demais, metas irreais e comparação constante podem produzir o efeito contrário ao desejado.

Atividades leves ou moderadas, ambientes agradáveis, música e companhia favorecem a adesão. O exercício deixa de ser punição pelo corpo que se tem e passa a ser experiência que cabe na vida real.

A rotina contemporânea também empurra as pessoas para a imobilidade. Trabalho sentado, deslocamentos motorizados e excesso de telas reduzem o movimento espontâneo. Cobrar apenas força de vontade simplifica um problema que também é social.

O desafio não é convencer a população de algo que ela já ouviu muitas vezes. Quase ninguém precisa ser informado de que exercício faz bem. A questão é criar condições para que a prática não seja percebida como sacrifício permanente.

Talvez a virada esteja em mudar a promessa. Em vez de vender benefícios futuros, como envelhecer melhor ou evitar doenças, é preciso reconhecer o valor imediato do movimento: melhora do humor, redução da ansiedade e sensação de energia.

A academia já perde para o sofá quando o sofá oferece conforto, menos julgamento e recompensa mais rápida. Para vencer essa disputa, o exercício precisa deixar de ser apenas obrigação. Precisa virar uma experiência que a pessoa queira repetir.

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