sexta-feira, 4 de setembro de 2026
NEGÓCIOS

Brasil envelhece e transforma mercado de cuidadores em novo motor da economia

Crescimento da população idosa impulsiona assistência domiciliar, amplia profissionalização do setor e cria novas oportunidades de negócio

Otavio Augustopor em
Brasil envelhece e transforma mercado de cuidadores em novo motor da economia

O Brasil está envelhecendo rapidamente – e junto com essa transformação demográfica surge um mercado cada vez mais estruturado, profissional e estratégico: o de cuidadores e assistência domiciliar. O avanço da longevidade, aliado às mudanças na dinâmica familiar e na rotina de trabalho, tem ampliado a procura por profissionais especializados para acompanhar idosos, pacientes em recuperação e pessoas com limitações físicas ou cognitivas dentro de casa.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos, maior índice da série histórica. Ao mesmo tempo, a população com mais de 65 anos cresceu cerca de 57% em pouco mais de uma década, movimento que pressiona famílias, sistemas de saúde e também cria uma nova cadeia econômica ligada ao cuidado.

Mais do que uma necessidade emergencial, a assistência domiciliar começa a ser incorporada ao planejamento familiar. Em muitos casos, filhos vivem em outras cidades, enfrentam jornadas de trabalho extensas ou já não conseguem oferecer acompanhamento integral aos pais idosos. O resultado é uma procura crescente por cuidadores profissionais preparados para lidar com rotina medicamentosa, mobilidade, alimentação, estímulos cognitivos e suporte emocional.

cuidador

O cuidado deixa de ser improvisado

Durante muitos anos, era comum que famílias delegassem o acompanhamento de idosos a empregados domésticos sem formação específica. Hoje, essa realidade começa a mudar.

Segundo Jéssica Ramalho, CEO da rede de assistência domiciliar Acuidar, o aumento da informação e da profissionalização do setor ajudou a transformar a percepção sobre o papel do cuidador.

“Muitas famílias contratavam pessoas sem preparo técnico para exercer essa função. Hoje existe uma compreensão maior de que cuidar exige conhecimento, responsabilidade e acompanhamento adequado”, afirma.

Fisioterapeuta de formação, Jéssica conhece o setor de perto desde a infância, quando ajudava nos cuidados do próprio pai, que enfrentava problemas de saúde. Ela conta que criou um caderno para registrar horários de medicação, alimentação e intercorrências, prática que mais tarde se aproximaria dos protocolos profissionais utilizados atualmente no setor.

“Na época era algo intuitivo, mas hoje percebemos como o acompanhamento organizado faz diferença na qualidade de vida do assistido”, diz.

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Famílias começam a se planejar mais cedo

Outro comportamento que chama atenção das empresas do segmento é a antecipação das famílias. Se antes a contratação de cuidadores acontecia apenas após quedas, internações ou agravamento de doenças, agora parte dos brasileiros começa a enxergar o cuidado como prevenção e planejamento de longo prazo.

Segundo Jéssica, pessoas entre 40 e 45 anos já procuram informações sobre assistência futura, pensando na própria velhice ou na organização da rotina familiar.

“Existe uma mudança cultural acontecendo. O cuidado deixou de ser visto apenas como solução emergencial e passou a integrar a estrutura familiar”, explica.

Esse movimento acompanha uma tendência global. Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, até 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos no mundo dobrará. No Brasil, a estimativa do IBGE aponta que idosos representarão quase 30% da população nas próximas décadas.

Setor movimenta milhões e amplia franquias

O avanço do mercado também chama atenção pelos números. Fundada em 2016, a Acuidar se tornou a maior franquia de cuidadores da América Latina. Atualmente, a rede soma mais de 320 unidades em operação e ultrapassa 3,7 milhões de assistências realizadas.

Somente em 2025, a empresa registrou faturamento superior a R$ 243 milhões, crescimento de 34% em relação ao ano anterior. A expectativa agora é alcançar 400 unidades e iniciar expansão internacional, começando por Portugal.

O setor de cuidados pessoais e assistência domiciliar passou a atrair investidores justamente por reunir alta demanda, recorrência de serviços e crescimento impulsionado pelo envelhecimento populacional.

Mais do que tendência passageira, especialistas avaliam que o cuidado profissional deve se consolidar como uma das áreas mais promissoras da chamada economia da longevidade — mercado voltado às necessidades da população idosa.

Nesse novo cenário, o cuidado deixa de ser apenas responsabilidade informal das famílias e se transforma em atividade estratégica, profissionalizada e economicamente relevante dentro da nova realidade brasileira.

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